Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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O novo conservadorismo americano e o capitalismo

Para os nacional-conservadores, fazer negócio com a China não é necessariamente algo bom, mesmo que o cálculo puramente econômico mais simples diga que sim

Na última semana, centenas de intelectuais, ativistas e políticos se reuniram em Orlando, na Flórida, para um evento anual do movimento que pretende redesenhar o conservadorismo nos Estados Unidos — e, em certa medida, internacionalmente. A Conferência sobre Nacional-Conservadorismo atraiu três senadores e alguns dos principais intelectuais e ativistas da direita americana. A reportagem de Oeste esteve lá.

O “nacional-conservadorismo” (ou conservadorismo nacional, a depender da preferência do tradutor) tem muito em comum com o conservadorismo de figuras como Ronald Reagan e George Bush, que prevaleceu nos Estados Unidos nas últimas cinco décadas. Mas há diferenças importantes.

Em primeiro lugar, o nacional-conservadorismo é cético quanto ao poder do livre comércio. Embora continue sendo genericamente a favor de um Estado reduzido, ele não vê com otimismo a troca comercial movida apenas pelos interesses econômicos. Para os nacional-conservadores, fazer negócio com a China não é necessariamente algo bom, mesmo que o cálculo puramente econômico mais simples diga que sim. Nesse quesito, os nacional-conservadores discordam de Adam Smith e da chamada Escola Austríaca de Economia: na visão deles, é preciso levar em conta a defesa nacional e a proteção dos trabalhadores americanos. Isso significa que também é preciso fazer o possível para impedir que companhias americanas mandem suas fábricas para outros países. “Hoje, o Partido Democrata é o partido dos ricos. Nós precisamos ser o partido dos caminhoneiros, trabalhadores da indústria de aço, policiais, dos garçons e garçonetes”, discursou o senador Ted Cruz, um dos oradores mais aclamados do evento. O senador Josh Hawley também defendeu uma visão econômica mais nacionalista: “Para começar, nós devemos exigir que pelo menos metade de todos os bens manufaturados que são essenciais para o nosso país seja feita aqui nos Estados Unidos”, disse ele, cometendo aquilo que, para grande parte dos conservadores, seria considerada uma heresia até poucos anos atrás.

Em segundo lugar, os nacional-conservadores também acreditam que as longas guerras promovidas pelos Estados Unidos no Oriente Médio nos últimos anos não se justificam. Não é papel dos Estados Unidos, dizem eles, sacrificar a vida dos seus jovens para sanar os problemas globais. Nisso, eles discordam da geração mais recente de republicanos antes da era Trump. George Bush não é muito querido entre eles (Trump é mais popular, embora o nome dele tenha sido pouco citado durante o evento).

Em terceiro lugar, os nacional-conservadores perceberam que as grandes empresas, tão beneficiadas pelo capitalismo, não são necessariamente aliadas da direita. Nos últimos anos, e em uma velocidade assustadora, grandes corporações têm adotado itens da agenda progressista e, com frequência, demitido funcionários que destoam da ortodoxia esquerdista. Além disso, Twitter, Facebook e YouTube têm censurado publicações conservadoras sob o argumento de que se trata de fake news ou “discurso de ódio”. “As grandes empresas se divorciaram do Partido Republicano mais de uma década atrás”, resumiu Justin Danhof, um advogado e ativista que tem confrontado a agenda de esquerda em grandes empresas. O senador Marco Rubio concordou: “O tradicional conservadorismo do Wall Street Journal não é a resposta”, disse ele, em sua participação no evento. “Por muitos anos, o que foi bom para as corporações americanas era bom para o nosso país. Mas o mundo mudou. E a economia também”, afirmou. Para Rubio, uma das prioridades dos conservadores deve ser a reconstrução da indústria nacional, para gerar empregos aos trabalhadores americanos. “Nós precisamos de um capitalismo que crie empregos americanos, que permita aos americanos formar uma família, comprar uma casa e deixar uma vida melhor para suas crianças”, pregou.

Em quarto lugar, os nacional-conservadores entendem que a imigração desenfreada é um problema grave. Apesar de favorecer grandes empresas por prover mão de obra mais barata, essa política permissiva modifica a própria noção nacional de identidade. A vinda de estrangeiros afeta os valores e costumes nacionais, e não pode ser vista puramente do ponto de vista econômico.

Além disso, o nacional-conservadorismo tem um vigor renovado pela defesa de valores morais caros à tradição cristã, como a defesa da família tradicional. Enquanto parte dos conservadores mainstream tem adotado uma postura mais flexível nesses temas, os nacional-conservadores defendem um enfrentamento direto à agenda da esquerda. A família e a nação são os pilares básicos dessa visão de mundo. Em seu discurso, o senador Josh Hawley criticou “o ataque da esquerda às virtudes masculinas”. “A liberdade requer virtude. E, em particular, requer virtudes masculinas”, disse ele, lamentando que tantos jovens da nova geração tenham sido empurrados para o “ócio da pornografia e dos videogames”.

Ronald Reagan continua no panteão dos heróis conservadores

Outra característica peculiar (e, de certa forma, irônica) do nacional-conservadorismo é o fato de que duas das grandes referências vêm de fora dos Estados Unidos. Intelectualmente, uma das principais referências do movimento é o israelense Yoram Hazony, o judeu ortodoxo que escreveu o livro A Virtude do Nacionalismo. Ele é o presidente do conselho da Fundação Edmund Burke, a organização fundada em 2019 e que está por trás do evento em Orlando. Em seu discurso, Hazony atacou o “fusionismo” que predominou na direita americana nas últimas seis décadas. A ideia se baseava na junção de duas forças distintas para derrotar a esquerda: os entusiastas do livre mercado e os defensores de uma moralidade tradicional, fortemente vinculada ao cristianismo. “O fusionismo foi imensamente bem-sucedido. Ele venceu a Guerra Fria. Mas ele também foi um fracasso. Nós temos de ser capazes de enxergar o que deu errado”, disse Hazony. O “fracasso”, segundo ele, foi o fato de que a esquerda progressista conseguiu implementar boa parte de sua agenda nas instituições americanas. Hazony questionou o antigo apelo conservador em favor da “liberdade individual”, que, na avaliação dele, é insuficiente como fundamento de uma sociedade. “Se você liga apenas para a liberdade individual, então as empresas privadas vão terceirizar sua produção para a China, ajudando a fortalecer os chineses. E isto é liberdade individual”, afirmou. Ele defendeu uma visão mais equilibrada, que leve em conta o bem comum e os interesses nacionais.

Outra grande referência para os nacional-conservadores é o governo de Viktor Orbán, na Hungria. Há uma década no poder, o líder húngaro e seus aliados foram capazes de construir um movimento bem articulado e de mudar até mesmo a Constituição (a nova versão prescreve a família tradicional e menciona o cristianismo como um fundamento da nação). O jornalista e escritor Rod Dreher, outra figura influente no movimento nacional-conservador americano, elogiou o líder húngaro em seu discurso na convenção: “O governo Orbán removeu a acreditação e os recursos para estudos de gênero de diversas universidades públicas. No passado, eu teria sido contra esse tipo de coisa, com o argumento de que, qualquer que fosse o mal causado pelos estudos de gênero na sociedade, ele não justificaria a intervenção do governo nas universidades. Esse tempo passou. Nós estamos vivendo agora por um momento de catástrofe social, com confusão de gênero e transgenerismo”, afirmou. Durante o evento em Orlando, alguns estandes distribuíam publicações sobre o sucesso húngaro — todas devidamente produzidas na Hungria e traduzidas para o inglês.

O movimento nacional-conservador também tem muitas figuras do conservadorismo mainstream americano que revisaram suas convicções passadas. O próprio Christopher DeMuth, responsável pela organização da conferência, é um deles. Ex-presidente do American Enterprise Institute (um think tank conservador entusiasta do livre mercado), ele colaborou com as administrações de Richard Nixon e Ronald Reagan. No evento, DeMuth fez uma espécie de mea-culpa: “Os conservadorismos do passado não se adaptaram aos novos tempos”, disse ele. Ronald Reagan continua no panteão dos heróis conservadores (em um dos estandes, uma moça apresentava miniaturas de Reagan, que em breve estarão à venda junto com um livro para crianças). Mas os tempos mudaram. “Se você está usando táticas de 40 anos atrás, você não está nem mesmo presente no campo de batalha real”, disse Christopher Rufo, um dos principais responsáveis pela reação conservadora à chamada Teoria Racial Crítica nas escolas.

E as mudanças são visíveis. Durante as muitas palestras e painéis divididos por três dias de evento, era possível ouvir afirmações surpreendentes. Em um dos debates, economistas conservadores elogiaram a importância dos sindicatos, vistos como uma possível barreira à perseguição ideológica que ganha corpo nas grandes empresas contra detentores de visões mais tradicionais. Novos tempos, novos aliados. Em seu discurso durante a conferência, o ativista Austin Ruse parece ter sido capaz de resumir o argumento nacional-conservador contra a geração anterior: “O movimento conservador mais antigo, que está morrendo, sacrificou as famílias e os bebês no útero em troca de cortes de impostos e guerras sem fim”.

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9 comentários Ver comentários

  1. Não é conveniente traçar uma reta onde existe obstáculos intransponíveis. Qualquer ideologia ou regime deve se adaptar a realidade. O objetivo deve ser sempre o bem estar da geração atual e principalmente da futura geração.

  2. Mudem o que for preciso mudar, mas deem um basta nessa esquerda do mal, que já se transformou numa polícia política há muito tempo.

  3. Excelente artigo. A síntese do conservadorismo está no texto, quando um palestrante expressou que são outros tempos. Conservadorismo não é estático. É uma contínua reforma em uma estrutura que precisa ficar em pé. Vamos aqui também caminhando nessa direção do bom senso. Parabéns!

  4. Muito interessante.
    Mas eles não têm o viés estatizante e assistencialista que impera no Brasil, mesmo entre os que se dizem conservadores e os que se dizem liberais.
    Nitidamente, quando se fala em economia, o problema deles é a China.
    Quanto aos princípios e valores, pelo menos estão despertando para a nova realidade.
    Vamos acompanhar os próximos capítulos.

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