Luís Roberto Barroso, ministro do STF | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Luís Roberto Barroso, ministro do STF | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O terrorista tapeou o doutor em fake news

Barroso negou durante dez anos os crimes que Battisti confessou

Na sessão do Tribunal Superior Eleitoral que decretou a cassação do mandato do deputado estadual Fernando Francischini, acusado de denegrir as urnas eletrônicas com a divulgação de fake news durante a campanha de 2018, dois atacantes do Timão da Toga capricharam na discurseira de supremos defensores do Estado Democrático de Direito. Ao justificar a condenação do parlamentar paranaense, o ministro Edson Fachin, que nos tempos de professor louvava os métodos e as ideias do MST, alertou para as nuvens que escurecem o horizonte. “Aqui está em questão, mais que o futuro de um mandato, o próprio futuro das eleições e da democracia”, declamou. Na mesma sessão, o ministro Luís Roberto Barroso declarou-se pronto para tranquilizar a pátria em perigo com um processo eleitoral tão casto e sóbrio quanto um convento de carmelitas descalças.

Nem mesmo insinuações maldosas infiltradas em falatórios de improviso escaparão da mira das sumidades incumbidas da missão histórica: realizar em 2022, pela primeira vez desde a Proclamação da República, um pleito vacinado contra a mentira, a meia verdade, a falácia, a patranha e outras modalidades de fake news. “As palavras têm sentido e poder”, ensinou Barroso. “As pessoas têm liberdade de expressão, mas elas precisam ser responsabilizadas pelo que falam.” Ou seja: quem acha que será vitorioso transformando inverdades em cabos eleitorais pode tirar o cavalo da chuva. No Brasil em gestação no Pretório Excelso, que abriga SuperJuízes onipresentes, oniscientes e onipotentes, divulgar fake news degola mandatos e dá cadeia. Só a verdade salva.

A mentira foi destroçada no momento em que Battisti admitiu ter participado das quatro execuções

Nossas Excelências andam parindo maluquices de que até Deus duvida, mas a proeza que prometem consumar soa excessivamente ambiciosa mesmo anunciada por semideuses togados. Por exemplo: será expulso de campo por semear invencionices o candidato que qualificar Lula de corrupto? Ou o punido será o que enxergar no ex-presidente presidiário uma alma pura perseguida pelo mais perverso dos juízes? A dúvida se assemelha à surgida com a exclusão do relatório de Renan Calheiros do trecho que, na versão inicial, transformava o presidente Jair Bolsonaro num genocida de matar Hitler de inveja. Se a acusação foi suprimida por falsidade, quem resolver reiterá-la será enquadrado na mesma norma que implodiu o mandato de Francischini? Ou a difusão da mais abjeta fake news concebida desde o desembarque no Brasil do primeiro vírus chinês será incluída na categoria dos pecados veniais de baixíssimo calibre?

Com a palavra, Luís Roberto Barroso, que no momento acumula o suadouro no Supremo com a trabalheira exigida de quem preside o TSE. (Muita coisa? Não para quem ensaia o papel de ministro do STF desde o berçário. Ainda bebê, trocou a fralda pelo terno bem cortado, que rimava com as sobrancelhas sem um único fio fora do lugar e em perfeita sincronia com as pestanas.) Barroso também terá de lidar com uma dúvida complicada: na campanha de 2022, será igualmente indigno de uma vaga no Poder Legislativo um candidato que disseminar uma mentira por ter acreditado na palavra de um vigarista? Aparentemente, foi o que aconteceu ao advogado Luís Roberto Barroso entre 13 de abril de 2009, dia em que aceitou assumir a defesa do terrorista italiano Cesare Battisti, e março de 2019, quando o cliente e amigo do doutor em fake news confessou seu envolvimento nos quatro homicídios que lhe custaram a condenação à prisão perpétua.

Por longos dez anos, primeiro como advogado, depois como ministro do Supremo, Barroso reiterou com persistência de carpideira que o bandido juramentado era tão inocente quanto um recém-nascido. A mentira foi destroçada no momento em que Battisti admitiu ter participado das quatro execuções ordenadas pelo grupelho Proletários pelo Comunismo. Agira em dois casos como mandante. Nos outros dois, fora um dos executores. Até ser surpreendido pelo surto de sinceridade de Battisti, seu defensor foi um incansável fabricante de fake news. Uma delas tentou rebaixar tais operações de extermínio, que ensanguentaram a Itália democrática dos anos 1970, a meras peraltices de pré-adolescentes ansiosos por encurtar a chegada ao paraíso socialista. Aspas para o preceptor de revolucionários de galinheiro: “Condenar esses meninos e meninas — era isso o que eram quando entraram para o movimento — décadas depois, fora de seu tempo e do contexto daquela época, após a queda do muro de Berlim e da derrota da esquerda, constitui uma expedição punitiva tardia, uma revanche fora de época, uma vingança da História”.

Cesare Battisti durante julgamento na Itália, no começo dos anos 1980 | Foto: Reprodução

Por que decidiu defender Battisti de graça? “A causa era bonita: libertar um velho comunista, que fazia parte do lado derrotado da História.” E de onde viera a certeza de que o cliente dizia a verdade? “O Cesare me olha nos olhos e fala: ’Não participei de nenhum desses homicídios’. Eu acredito no que ele me diz”, argumentou Barroso. Essas pieguices de botequim animaram o STF a descumprir seu dever: em abril de 2010, a Corte transferiu para o presidente da República a decisão de acolher ou rejeitar o pedido de extradição encaminhado pela Itália. Em 31 de dezembro, horas antes de despedir-se da Presidência, Lula oficializou a opção pela infâmia — e Battisti virou asilado político. Na noite de 8 de junho de 2011, nas cercanias da sede do STF, Barroso comoveu-se ao empalmar uma cópia do alvará de soltura do criminoso de estimação. A causa que defendera, revelou aos jornalistas e auxiliares que o escoltavam na Praça dos Três Poderes, lhe havia proporcionado “uma experiência pessoal, humana e profissional extraordinária”.

Cesare Battisti no lançamento do seu livro, em 2012 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Oscilando entre a alegria e a ansiedade, repetia a pergunta aos acompanhantes: “E, agora, como se tira uma pessoa da cadeia?”. A devolução do direito de ir e vir só ocorreria em junho. Enquanto aguardavam a libertação, Barroso e Battisti continuaram a encontrar-se regularmente no presídio da Papuda, em Brasília. Num deles, aconselhou o amigo Cesare a não criticar ministros do STF, recusar pedidos de entrevista e interromper a remessa de cartas. Battisti alegou que não conseguiria atender ao último quesito. “Então escreva para mim”, sugeriu o conselheiro. O cliente gostou da ideia. “Acabei guardando uma rica e histórica correspondência”, cumprimentou-se o advogado numa entrevista. O que guarda é uma coleção de mentiras, corrigiu a confissão do assassino. Lula já pediu desculpas “à esquerda italiana”. Tarso Genro declarou-se enganado pelo companheiro italiano. Barroso não deu um pio sobre o fiasco. Nem voltou a falar das cartas de Cesare.

O que espera o incansável Alexandre de Moraes para expedir um mandado de busca e apreensão e ordenar à Polícia Federal que encontre o papelório em algum canto da residência do colega? E lhe entregue no prazo de 24 horas o que se transformou num dos maiores e mais valiosos acervos de mentiras nascidas e criadas no Brasil? As cartas poderão tornar-se a maior atração do Museu das Fake News que Moraes tem o dever de instalar em algum puxadinho do Supremo. Mas o plenário não precisa esperar a inauguração do museu para responder a uma pergunta muito pertinente: se um deputado estadual que mente não pode continuar na Assembleia Legislativa, pode um ministro que divulgou fake news em parceria com um cliente assassino permanecer no Supremo?

Leia também “As soberbas lições de Sobral Pinto”

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60 comentários Ver comentários

  1. Artigo espetacular, Augusto. Parabéns e obrigada por me proporcionar uma leitura 📚 tão agradável e esclarecedora. Um forte abraço

  2. Vamos lá, advogado Barroso, travestido de ministro…desminta o artigo acima…vamos lá, tenha hombridade e mostre que é digno de ser ministro decente do STF…

  3. Ex ce len te . Parabéns Augusto. Pergunta: A imprensa amiga não vai questionar o erro do magistrado ? O Olho no olho enganoso ? O erro era tão explícito que não precisou nem dias de investigação para Battisti morder a língua.

  4. Esses dois CANALHAS (Barroso e Moraes), há muito tempo já deveriam ter sido explulsos a pontapés do cargo que ocupam (conquistados sem um único voto). Se não fossemos um país de COVARDES que preferem manter os traseiros em seus confortáveis sofas assistindo a GloboLIXO, isso já teria acontecido.
    Só falta dizer que o grande culpado por isso tudo é, como sempre, o Presidente Bolsonaro.
    O PODER EMANA DO POVO. ÀS ARMAS!

  5. Ler matérias da lavra de renomados jornalistas da revista Oeste instrui o leitor, ávido por notícias que o leva a esperanças futuras: a correção de fatos mentirosos, prejudiciais à história deste Brasil impuro.

  6. Devastador.
    Aposto que a máscara do Barroso vai ser a mais vendida para o carnaval de 2022.
    A de BARROSO-IMPERADOR-PREPOTENTE também.

  7. Nas eleições municipais teve candidatos que na contagem dos votos, não tiveram um voto sequer, mesmo ele a mulher os filhos os parentes as pessoas que trabalharam na campanha, afirmando que votaram nele.
    É bom perguntar a Snodwo, eu não sei nem escrever o nome dele,mas sei que ele sabe que se pode invadir muitos objetos tecnológicos pelo mundo afora. Obama queria ele de volta pra trabalhar na CIA,mas ele ficou putin porque chamaram ele de mentiroso. Agora eu sei a importância das feique nios.

  8. Augusto brilhante e corajoso. Espero que não te incomodem como tem acontecido com teus colegas e até com parlamentares. Mas, eu diria mais sobre a dupla Fachin e Barroso.
    No processo do impeachment da Dilma, Fachin recém nomeado por ela, relatou demanda judicializada sobre a postura do regimento interno da Câmara, que aprovou a abertura do processo. Para surpresa de todos, conheceu como regular o regimento da casa, portanto aprovando a abertura. Eis que entra, quem, quem? Barroso e diverge, inovando que também o Senado deveria autorizar a abertura, entendendo que não seria autorizado no Senado, quando até então ao Senado caberia somente julgar o processo aberto, se aprovado na Câmara. Aconteceu então que esse STF com 7 ministros indicados pelo PT, tornou vitorioso o voto divergente, inclusive com a aceitação de Fachin o relator afastado. Dá para entender? Felizmente não obtiveram sucesso e o Senado também autorizou a abertura. Observamos também outros fatos interessantes da dupla.
    Barroso junto a seus alunos no tribunal observou foto de lideranças do PMDB comemorando o afastamento do partido do governo Dilma e assim falou sobre a foto, “Meu Deus do céu, essa é nossa alternativa de poder”.
    Dai acontece o impeachment e Temer assume, é austero e consegue iniciar um processo de recuperação da falida Petrobras, bem como aprovar a reforma trabalhista que nos livrou das contribuições sindicais e da indústria de judicialização trabalhista, e começou a incomodar o corporativismo com a tentativa e quase aprovação da reforma previdenciária, quando em Abril ou Maio/2017, o quarteto JANOT, JOESLEY, FACHIN e GLOBO lançou uma forjada e fajuta delação premiadíssima escandalosa da JBS, com a intenção de derrubar Temer, e que liberou os criminosos financeiros Joesley, família e pertences a sair do pais, porque corriam risco de vida!!!. A coisa pegou muito mal, até no judiciário, que não entendeu tão desastrado acordo e reuniu o plenário do STF para discuti-lo, e ai pude ver um Barroso enfurecido defender enfaticamente esse acordo, que o plenário acabou por estabelecer melhores análises para cumprimento do acordo. Temer como notável prof. de direito constitucional e excelente articulador no Congresso, não renunciou e viu esse acordo premiadíssimo ser cancelado pelo próprio PGR Janot. Mas a reforma da previdência fracassou. Talvez esse fosse a intenção do clã corporativista.
    Na sequência assume a relatoria do Inquérito dos Portos notadamente perseguindo o PMDB e especialmente o presidente Temer, sem sequer ser considerada sua SUSPEIÇÃO pelo que havia falado do PMDB, e para mostrar suas garras e sua enfadonha perseguição, prorrogou por 4 vezes as investigações da PF com a exigência da permanência do mesmo delegado na operação, levando até o final do governo TEMER. Acredito que Temer deve entender o que Bolsonaro esta sofrendo nas mãos de Barroso e de seu indicado Alexandre de Moraes.
    Barroso tem ainda o mérito de ofender o próprio STF, quando no plenário assim ofende Gilmar Mendes, “você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”. Também em passagens no exterior disse que as decisões do STF transmitem a sociedade, conivência com a corrupção.
    Ultimamente não permite que cidadãos brasileiros democratas, que exigem maior segurança nas urnas eletrônicas falem que as mesmas não são auditáveis, esquecendo que o PSDB através de seu líder Carlos Sampaio disse após devidas perícias que não são auditáveis.
    Pois é, Barroso ameaça punir quem discorde e sem conhecer princípios de auditoria, faz publicidade nos veículos de comunicação com a ativista Ludmila afirmando que ” a urna é auditável, faça sua apuração pelo boletim de urna ao final da votação”.
    Creio que na opinião de qualquer auditor, verificar a quantidade de votos obtida pelos candidatos nos boletins de urna, não nos dá a segurança que nossos votos estão contidos naquele resultado. Podemos ter votado no candidato A e o voto ter ido para B. Portanto, não há como auditar algo intangível, e tal afirmação do próprio TSE pode ser uma desinformação, que não deveria ser propagada ao público. Creio que existem outras virtudes de Barroso que não tive oportunidade de assistir.
    Augusto, ofereça-nos artigo com interpretações de auditores e consultores contábeis para nossa orientação e talvez para orientar Barroso quando se manifesta sobre as urnas.

    1. Perfeito Antonio Carlos. ESQUECEU DE CITAR AQUELA ocasião em que recusou a dar sequencia ao oficiado pela camara, para dar inicio ao processo de impeachment da presidenta. Ao ler a justificativa, simplesmente “pulou” trecho do regimento , ou seja mentiu, onde se justificava a abertura do processo. É comico assistir Barroso lendo o regimento, omitindo determinado trecho. Creio, Augusto Nunes não ter lembrado dessa canalhice.

  9. Atirou e acertou no centro do alvo. Bela pontaria. Uma pergunta: o ministro das sobrancelhas arqueadas e com boca de veludo, depois do que foi brilhantemente relatado pelo jornalista Augusto Nunes é merecedor da confiança e respeito do nosso povo para continuar ministro do mais importante tribunal do País? Olhem o tipo de gente que, no poder, o PT empurrou para dentro dos tribunais mais importantes desta nação.

  10. Se o diabo decidir sair do seu asilo no inferno, já sabe qual é o “adevogado” de porta de cadeia que deverá contratar. Certo?

  11. STF e os seus onze e odiados “ungidos”, destroçando quotidianamente o direito positivo pátrio. E o Senado? E o luciferista Alcolumbre? E o Rodrigo Pacheco, esse desgraçado deletério?? Sistema bicameral assim, para quê?

  12. Penso que os juízes e suas representações deveriam fazer algo contra os absurdos que alguns dos ministros do STF, STJ e TSE estão fazendo. Estão acabando com a justiça no Brasil. É uma vergonha. Devem reagir. Muito embora, as vezes, as decisões proferidas pelo poder Judiciário sejam injustas, são legais. Mas, o que está acontecendo é que estes togados, além de decidirem injustamente, fazem de maneira ilegal. Até quando os juízes e magistrados vão aceitar estes desmandos das altas cortes ? Vocês, juízes, sabem dos absurdos que eles vem realizando e ainda assim vão ficar omissos diante de tantas ilegalidades ? Nós, brasileiros de bem, precisamos de vocês !

  13. Augusto
    Parabéns por desnudar o fabricante supremo de fake news que se arvora no direito de julgar o que é certo e o que é errado! E errado é tudo o que ataca a esquerda! Fabricante de fake news pelo critério do próprio, não poderia ficar no STF.

  14. Luladrão é vigarista
    BATISTI é vigarista
    Não tolero quem divulga fake News só de olhar nos olhos dos outros, gente comunista injusta.
    Vida longa Augusto!!!

  15. Esse famigerado terrorista italiano, imerecidamente famoso, esteve no Brasil por tanto tempo tentando agradar rato morto. Nem agradou o rato, nem conseguiu grande coisa com isso. Acabou no xadrez de qualquer jeito. Para sempre.

  16. Claro que não poderia continuar no STF o ministro das sobrancelhas igual e incrivelmente alinhadas, claro que por tê-las assim desde que nasceu.
    Se tivesse vergonha na cara, já teria pedido para sair e voltaria a ser advogado de bandido e dos criminosos acobertados pelo PT e a esquerda em geral.
    Mas isso é impossível de acontecer, por falta do citado pressuposto básico.
    Parabéns, Augusto Nunes, pelo brilhante artigo.!
    Como sempre faz, colocou “Os Pingos nos Is “.

  17. Excelente artigo. Na medalhina!
    Esse megalomaníaco vai ser ‘excluido de sí mesmo’ com muita dor. Ele vai tem um final melancolico e doloroso causado por sua consciência buscando por evolução e seu corpo fisico em deterioração dolorosa. Vai penar um bocado. Tomara que viva 250 anos!

  18. Barroso não passa de um reles advogado alçado a juiz pela organização criminosa PT. No caso dele, incompetência e megalomania são diretamente proporcionais.

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