Daniel Ortega, presidente da Nicarágua desde 2007 | Foto: Divulgação
Daniel Ortega, presidente da Nicarágua desde 2007 | Foto: Divulgação

A Nicarágua entra no clube das ditaduras

Daniel Ortega consolida de vez sua tirania de perversões políticas e pessoais

Daniel Ortega se estabeleceu no domingo passado definitivamente como o ditador da Nicarágua. Agora, Cuba e Venezuela ganharam um sócio no clube das tiranias latino-americanas. Como os chavistas em Caracas e a cúpula do Partido Comunista Cubano, Ortega não pretende sair do poder enquanto estiver vivo. E já preparou os filhos para continuar a dinastia. É um destino irônico para quem nasceu há 76 anos numa cidade chamada La Libertad.

A Nicarágua tem uma história de atraso, infelicidade e tragédia típica da América Central. Entre 1912 e 1933, os Estados Unidos invadiram o país nas chamadas Guerras das Bananas. À sombra dessa ocupação, surgiu o maior mito político do país. Augusto Nicolás Calderón Sandino foi o grande herói da resistência à ocupação americana a partir de 1927. Os Estados Unidos consideravam Sandino um simples bandoleiro. Mas os comunistas viram nele a pessoa certa para ser transformada no grande “herói anti-imperialista”, essa figura quase obrigatória no ambiente político latino-americano.

Sua ideologia foi forjada numa bizarra seita chamada Emecu, fundada em Buenos Aires em 1911. A sigla corresponde a Escola Magnético-Espiritual da Comuna Universal. Seu fundador, um eletricista basco, havia misturado na mesma panela ingredientes como anarquismo, zoroastrianismo, cabala e espiritismo. Para a seita, os conflitos do século 20 levariam à formação de uma “comuna universal”, em que tanto o Estado quanto a propriedade privada seriam abolidos. Toda a humanidade faria parte de uma mesma raça (hispânica) e falaria uma única língua (o espanhol).

Augusto Sandino não confiava nos comunistas, ligados à União Soviética. Foi assassinado em 1934. Foi elevado ao panteão dos ídolos esquerdistas. Seu nome e sua condição de personagem que ajudou a “expulsar os ianques” foram usados na formação da Frente Sandinista de Libertação Nacional, ou FSLN.

Em 1937, Anastasio “Tacho” Somoza, filho de um rico cafeicultor educado nos Estados Unidos, tomou o poder em Manágua. Sua família se tornou uma espécie de proprietária do país pelas próximas quatro décadas. A ditadura familiar só foi abalada quando Pedro Chamorro, dono do principal jornal de oposição, foi assassinado, em 1978. O crime provocou uma revolta que expulsou os Somozas do país, no dia 17 de julho de 1979.

Anastasio “Tacho” Somoza García | Foto: Reprodução


“Você está quase pronta”

Dois dias depois da queda dos Somozas, as forças da Frente Sandinista de Libertação Nacional invadiram a capital e tomaram o poder. Seu líder era Daniel Ortega, um homem de origem humilde convertido ao marxismo. Os sandinistas ocuparam no imaginário esquerdista o mesmo papel exercido pelos barbudos cubanos, 20 anos antes. Ficou chique apoiar os sandinistas. O grande programa dos voluntários “progressistas” era viajar para a Nicarágua e ajudar os revolucionários a colher café. A banda punk inglesa The Clash batizou seu disco mais criativo como Sandinista!. A Nicarágua era a nova Cuba. E Daniel Ortega, o novo Fidel Castro.

Capa de disco da banda The Clash | Foto: Reprodução

Em 1984, Ortega foi eleito presidente da Nicarágua. Em seis anos, cumpriu o que esquerdistas costumam fazer no poder. Gastou o que não tinha em aventuras populistas, aparelhou o Estado com membros da FSLN, estatizou o que pôde, atrelou o país à ditadura cubana, mostrou as garras autoritárias, etc. Em 1990, perdeu a eleição para Violeta Chamorro, filha do mesmo Pedro Chamorro morto em 1978. Em 1996, perdeu de novo. Dois anos depois, o herói da revolução sandinista teve sua vida pessoal escancarada.

Daniel Ortega era então casado com Rosario Murillo, uma fiel seguidora do sandinismo. Rosario já tinha uma filha, chamada Zoilamérica Zambrana Sandino, sobrinha-neta do herói Augusto Sandino. Como Rosario estava sempre fora de casa fazendo militância, Zoilamérica foi entregue aos 11 anos aos cuidados do padrasto, Daniel Ortega, um dos homens mais poderosos do país.

Em 1998, Zoilamérica, já com 30 anos, socióloga, casada e com filhos, divulgou um documento que começava assim: “Eu afirmo que fui sexualmente abusada por Daniel Ortega Saavedra, a partir da idade de 11 anos, e me mantive em silêncio por quase 20 anos da minha vida”.

Segundo Zoilamérica, Ortega começou com jogos maliciosos e a obrigava a tocar em seu corpo. Quando ela menstruou pela primeira vez, o padrasto declarou: “Você está quase pronta”. Levava a menina a lugares escuros para ser apalpada. Abriu um buraco na porta do banheiro para olhar a menina tomando banho (quando aproveitava para se masturbar). Passou a frequentar seu quarto.

Os 328 mortos

“Daniel Ortega Saavedra me estuprou no ano de 1982”, contou Zoilamérica no seu depoimento. Como se não bastasse, dizia à enteada, ainda adolescente, que ele era um homem muito ocupado salvando o país através da revolução. Seu tempo era precioso demais, e Zoilamérica deveria ceder seu corpo sempre que solicitada. Se o grande líder não ficasse sexualmente satisfeito, a revolução sandinista ficaria prejudicada. E, se a Nicarágua ficasse numa situação ruim por conta dessa insatisfação, a culpa seria da garota.

As coisas só pioraram a partir daí. Ortega passou a filmar seus estupros e obrigar a enteada a assistir com ele, para que se excitasse mais uma vez. Com 19 anos, Zoilamérica foi oficialmente adotada como filha de Daniel Ortega, com apoio da mãe. Ele declarou que considerava aquela nova condição como uma espécie de “casamento”. Passou a oferecê-la para outros homens na sua presença e dirigia a cena como num filme pornô.

Zoilamérica Zambrana Sandino; denúncias de estupro pelo padrasto, Daniel Ortega | Foto: Reprodução Twitter

Zoilamérica acabou se casando e saindo da casa de Ortega. Mas o assédio continuou todos os dias pelo telefone. Arrasada pela depressão, pela paranoia e por distúrbios alimentares, ela começou a fazer terapia. E decidiu que a única forma de se defender era fugir do país e escancarar sua história. Daniel Ortega, claro, negou tudo, e acusou a enteada de prejudicar o país. Sua mãe, Rosario, foi ainda mais dura: se colocou inteiramente ao lado do marido e disse que tinha vergonha de ter gerado alguém como Zoilamérica.

A denúncia foi relevada pelos fanáticos militantes sandinistas. Ortega virou um candidato permanente. Perdeu de novo em 2001. E voltou ao poder em 2006, para não sair mais do cargo. Misturando violência e corrupção, conseguiu um domínio cada vez maior no Legislativo e no Judiciário. Uma mudança na Constituição em 2009 deu um jeito para que não houvesse mais limites em seus mandatos.

Daniel Ortega agora se apega ao poder por uma questão de sobrevivência

Em 2016, Ortega passou a ter a própria mulher, Rosario Murillo, como vice e seus filhos como assessores diretos no alto escalão do governo. Ou seja, ficou cada vez mais parecido com seu antigo inimigo, Anastasio Somoza. Colocou o país na condição de dependente das esmolas de Hugo Chavez e Nicolás Maduro. Uma parte do que entra dessa “ajuda” vai para sua família. Seu terceiro mandato foi dedicado a aplicar as lições ensinadas pelas ditaduras irmãs de Cuba e Venezuela: perseguir a oposição, domar a mídia e criar milícias para espalhar o terror nas ruas.

Em 2018, a revolta popular ao regime sandinista. “A resposta do governo Ortega-Murillo às manifestações foi feroz”, registrou a Enciclopédia Britânica. “Enquanto os militares permaneceram em grande parte à margem, a polícia desenfreada e as forças paramilitares reprimiram brutalmente os manifestantes, detendo-os arbitrariamente, e supostamente torturando-os.” Mais de 320 nicaraguenses foram mortos nas ruas. Milicianos invadiram igrejas para capturar manifestantes e impedir que tivessem socorro médico.

O ditador Daniel Ortega e sua mulher, Rosario Murillo | Foto: Divulgação


“Não olhei para trás”

Com tantos crimes nas costas, Daniel Ortega agora se apega ao poder por uma questão de sobrevivência. Passou a fazer com o país o que fazia com a enteada. Seu carisma desapareceu e ele só se dirige a plateias amestradas agitando a bandeira rubro-negra da FSLN. O uso da bandeira nacional, azul e branca, em manifestações virou crime.

Rosario Murillo continua sua fiel cúmplice e vice-presidente. Aos 70 anos, pinta os cabelos de negro, emplasta a boca de vermelho, usa roupas coloridas e uma quantidade exagerada de anéis e pulseiras. Enquanto seus milicianos fazem o sangue jorrar nas ruas de Manágua, Rosario fala a linguagem da autoajuda e usa muito a palavra “amor”. Boatos de que pratica algum tipo de feitiçaria se tornaram inevitáveis.

O método usado por Daniel Ortega para garantir seu quarto mandato seguido foi criar uma “lei dos cybercrimes”, que torna ilegal a disseminação de fake news. O que é fake news? Qualquer informação que não seja autorizada pelo governo. No fim de 2020, outra lei proibiu “traidores” de concorrer a eleições ou ter qualquer emprego público. Quem define quem é traidor? O governo sandinista.

Com base nessas leis, Ortega mandou prender sete candidatos que ameaçavam sua vitória, além de “32 outros líderes empresariais, jornalistas, adversários políticos e líderes camponeses”, segundo o Wall Street Journal. Permaneceram na disputa apenas cinco pequenos partidos apelidados de “mosquiteiros”, controlados por Ortega.

A candidata favorita nessa última eleição era Cristiana Chamorro, filha de Violeta Barrios de Chamorro, que derrotou Ortega em 1990. Cristiana estava com 53% das preferências nas pesquisas, contra 39% de Ortega. Em junho, o líder sandinista resolveu esse problema colocando Cristiana Chamorro em prisão domiciliar sob acusação de “lavagem de dinheiro”. Outro candidato, Félix Maradiaga, está encarcerado há meses, 20 quilos mais magro, com um buraco na cela como banheiro, proibido de falar qualquer coisa fora do interrogatório diário.

O roteirista de séries Roberto Aguirre-Sacasa, que vive nos EUA, descreveu à CNN Internacional que seu pai, de 77 anos, foi detido há três meses por ter falado mal do casal presidencial. Está preso no infame presídio de El Chipote, onde Daniel Ortega já foi prisioneiro. Com sua idade, vive sem nenhuma medicação numa cela imunda, cheia de insetos, comendo uma refeição por dia — restos de arroz e feijão — e submetido a intermináveis interrogatórios sem sentido.

Kitty Monterrey, de 71 anos, presidente do último partido de oposição (Cidadãos pela Liberdade) teve mais sorte. Quando soube que estava sendo procurada pelo aparelho repressivo de Daniel Ortega, passou 14 horas fugindo a pé e a cavalo até atravessar a fronteira com a Costa Rica. “Eu peguei meu passaporte e corri”, declarou ao New York Times. “Não olhei para trás.”

“Exemplo para todo o mundo”

Daniel Ortega e sua esposa sabem que estão isolados. Foram condenados pelos governos dos EUA e do Canadá, além da União Europeia. Até publicações dominadas pela esquerda, como o New York Times, Washington Post, El País, The Guardian, BBC e outros, acham que o casal foi longe demais e condenaram o golpe. Durante as últimas eleições, nicaraguenses espalhados por 57 países realizaram manifestações contra o regime sandinista.

Quem está ao lado de Ortega? As ditaduras de Cuba e Venezuela, claro. E o governo russo de Vladimir Putin, que apoia qualquer tipo de ditadura. E qual a importância que a Nicarágua, um país distante com pouco mais de 6 milhões de habitantes e menor que o Amapá, tem para o Brasil?

Ditaduras se implantam com método. E o método usado por Daniel Ortega já é parcialmente sentido na carne por nós. Para os brasileiros, é especialmente importante conhecer uma nota publicada logo no dia seguinte à farsa eleitoral sandinista:

O Partido dos Trabalhadores (PT) saúda as eleições nicaraguenses realizadas neste domingo, 7 de novembro, em uma grande manifestação popular e democrática deste país irmão. Os resultados preliminares, que apontam para a reeleição de Daniel Ortega e Rosario Murillo, da FSLN, confirmam o apoio da população a um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário.

Esta vitória será conquistada apesar das diversas tentativas de desestabilização do governo e do bloqueio internacional contra a Nicarágua e seu atual governo, uma situação que penaliza principalmente os mais pobres e necessitados. Esperamos seguir com a FSLN neste caminho de construção de uma América Latina e Caribe livres e soberanos, uma região de paz e democracia social que possa servir de exemplo para todo o mundo.

Podemos acusar o PT de tudo, menos de não ser sincero. Eles deixaram claro nessa nota que apoiam os princípios e os métodos de Daniel Ortega. E que esperam “seguir com a FSLN neste caminho”.

Ninguém pode dizer que não foi avisado.

Leia também “O Peru no caminho tenebroso”

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7 comentários Ver comentários

  1. Esse PT já deveria ser caçado há tempo, por tudo que vem fazendo contra a Nação brasileira.
    Se tivesse justiça na Nicarágua esse Ortega estava na perpétua

  2. Um partido que enaltece um ditador dessa espécie, afirmando que deveria ser um exemplo a ser seguido pela América Latina, deveria ser cassado. Mas, estamos no Brasil, onde imbecís úteis acreditam que o molusco é democrático. Valha me Deus!

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