Alexandre de Moraes, ministro do STF | Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Alexandre de Moraes, ministro do STF | Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Carta ao Leitor

A prisão do deputado federal Daniel Silveira e as eleições na Nicarágua estão entre os destaques desta edição

Instado a explicar o que diferencia uma ditadura de uma democracia, Óscar Arias, ex-presidente da Costa Rica contemplado com o Prêmio Nobel da Paz, foi claro e conciso: “Não existem presos políticos nas democracias. Se houver algum, o país não é democrático”. Como definir, então, um país que, neste momento, mantém homens encarcerados por emitirem opiniões? É o caso do ex-deputado Roberto Jefferson, preso em Bangu, no Rio de Janeiro, e do caminhoneiro Zé Trovão, detido em uma cadeia de Joinville (SC).

“O jornalista Allan dos Santos teria engordado a lista se não estivesse vivendo nos Estados Unidos”, informa Augusto Nunes no artigo de capa desta edição, que recorda a frase de Arias ao contar o caso de Daniel Silveira. O deputado federal teve o fim da “prisão preventiva” decretado no começo desta semana, quando o ministro do Supremo Alexandre de Moraes inventou a figura do perseguido político meio preso e meio solto. Em vez de simplesmente determinar a soltura do deputado, Moraes mostrou, como observa Nunes, que nunca perde a chance de afrontar a sensatez. “Os atos criminosos cometidos pelo réu são gravíssimos”, reiterou, “e ainda serão julgados pelo plenário do STF.”

“Se os exageros verbais de Silveira foram ‘crimes gravíssimos’, em qual categoria figuram as medonhas execuções perpetradas por bandidos que o Supremo vive soltando?”, pergunta Nunes. “Em que trecho de qual código está escrito que ameaças não consumadas dão cadeia? Se sentir saudade do AI-5 é caso de polícia, que castigos merecem os que amam a ditadura do proletariado?”

A falta de respostas para essas e outras interrogações é mais uma prova de que, como afirma J.R. Guzzo, o Brasil está sem governo. “Não há mais uma Constituição em vigor; ela é desrespeitada, caso após caso, pelo STF”, observa Guzzo. “Não há segurança jurídica, pois cidadãos e empresas não sabem, simplesmente, se a lei de hoje é a mesma de ontem, e se vai estar valendo amanhã. (…) A lei diz que não pode haver presos políticos no Brasil; há presos políticos no Brasil. A lei garante a liberdade de expressão; as pessoas são punidas por expressarem suas opiniões. Investigam-se, julgam-se e punem-se crimes que não existem no Código Penal Brasileiro, como o de ‘desinformação’, ou o de fake news”.

Essa realidade remete a países como a Nicarágua. A prisão de todos os candidatos que ousaram enfrentar com chances de vitória o tiranete Daniel Ortega nas eleições realizadas no começo deste mês garante ao país a carteirinha de sócio do clube das ditaduras latino-americanas composto de Cuba e Venezuela. A história do país e seu ditador é o tema da reportagem de Dagomir Marquezi. “O método usado por Daniel Ortega para garantir seu quarto mandato seguido foi criar uma ‘lei dos cibercrimes’, que torna ilegal a disseminação de fake news”, conta Marquezi. “O que é fake news? Qualquer informação que não seja autorizada pelo governo.”

Na democracia brasileira, com seus presos políticos e atropelamentos da Constituição, quem decide o que é ou não fake news é o Supremo Tribunal Federal.

PS: Oeste acaba de disponibilizar para seus leitores o recurso de áudio para a leitura de reportagens. Basta clicar no botão “ouça este conteúdo”, localizado em cima de cada texto. Aproveite.

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

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21 comentários Ver comentários

  1. No final do século passado eu, à época um quarentão, achando-me com boa cultura e bem esclarecido e informado, via uma realidade brasileira bem diversa da que vejo hoje. Sem exageros sinto que vivia numa “Matrix” e sinto que uma boa parte da população acordou como eu para a realidade, mas que outros tantos ainda não despertaram. É triste o fato, mas todos nós vivemos numa falsa realidade criada pelos meios de comunicação ao longo de nossa existência. Desde Gutenberg no século XV, a positiva massificação do conhecimento e da informação carrega consigo a armadilha da desinformação, da doutrinação e do domínio dos mal intencionados sobre os menos esclarecidos ou menos preparados intelectualmente. Por isso, basta analisar-se a atuação e o sucesso dos grandes criminosos e de fato genocidas da história e se perceberá que a falsa informação e propaganda, massificados, foram as grandes e eficientes armas que todos utilizaram.

    Sem falar do comunismo ou do nazismo, incontestáveis exemplares do acima afirmado. Vejamos na história recente do Brasil, para não ir muito longe, alguns exemplos claros:
    Vejam as manchetes e notícias à época da revolução de 64. Eram claramente favoráveis aos militares para depois de alguns anos transformá-los em criminosos da história. Observem a polarização criada entre MDB x ARENA; entre PSDB x PT. A grande imprensa em todo mundo comandou os rumos da história. Aqui no Brasil a rede globo personifica a imprensa traçando por décadas o destino do país e de seu povo de acordo com seus interesses e de seus subservientes ou representados. Na cabeça de cada um virá à tona inúmeros exemplos do controle e bestificação da opinião pública pelos meios de imprensa (incluo aí educadores e artistas frequentemente coaptados ou comprados para oficializar e legitimar a enganação). Vejam o criminoso Lula, apanhado junto com comparsas roubando bilhões do país e a atual reviravolta que se tenta dar mostrando-o como herói nacional em viagem patrocinadora pelos próprio pobres e por ele roubados brasileiros.

    Contudo alguns acordaram e a “resistência” veio através das mídias sociais. Pequeninos, mal preparados, desorganizados, porém livres para se expressarem e agirem sem o controle dos dominadores (tal qual em MATRIX).

    No Brasil a personificação do herói “Neo” se deu através de um improvável troglodita chamado Bolsonaro. Ele venceu o “status quo”, o “establishment”. Não importa se você o ama ou odeia, estou falando do que representa, ou alguém se lembra de alguém ganhando uma eleição no Brasil desde a chamada “ditadura” (inclusive a própria) sem apoio ou no mínimo indiferença da Globo e grandes jornais? Antes dele outros tantos como Dr Eneas tentaram, mas foram ridicularizados e esmagados pelo sistema. Bolsonaro teve a sorte de contar com as pequenas “aeronaves” e o auxílio de milhões de desconhecidos da “resistência”que ganhava corpo, só por isso venceu!

    Ele é muitos outros que surgiram principalmente na última década tornaram-se um risco mundial ao establishment de várias ideologias, de esquerda ou direita pouco importando essa divisão burra que se faz. Alvo de um sistema rico e poderoso que não quer largar o osso. Através das Big Techs esses atores buscam novamente o controle das pequenas naves e dos rebeldes anônimos que as pilotam. Para isso compram políticos, juízes e o que for necessário.

    Para quem não concorda continue a viver na sua MATRIX, muitos gostam mesmo e até apontam o dedo para os que se rebelam, deduram-nos para a polícia digital. Continuem sendo nutridos por tubos e assistindo a novela da Globo, o jornal nacional, aplaudindo as entrevistas da Greta e lendo a Folha de SP ou a Carta Capital. Enquanto isso no mundo real milhões continuarão acordando e se rebelando contra a figura de um imbecil ladrão como o Lula, viajando às custas dos que tem o sangue sugado, sendo agora mostrado como herói. Contra a repressão à liberdade que começou como um absurdo inquérito ilegal e evoluiu para a prisão de blogueiros, jornalistas, cassação de deputado estadual, prisão de deputado federal, fechamento e desmonetização de veículos de comunicação e em breve alcançará empresários, senadores, militares e o próprio presidente da república, não tenham dúvidas.

    Não sei como termina esse filme, alguém arrisca? Sei que posso me sentir impotente ou ameaçado, mas isso não quer dizer que vá me entregar a falsa felicidade de MATRIX.

  2. Aos que aplaudem os desmandos dos membros do STF, por oposição ao governo ou por conveniência de momento, é bom lembrar, que o jogo fora das quatro linhas jamais é, ou será, saudável para o país. Desmandos de hoje, criam os reacionários de amanhã, que podem ser tão ruins ou piores que os primeiros. Predomina o clima de revanchismo. “Pau que bate em Chico, bate em Francisco.”
    Os maiores escalões do poder nacional, requer pessoas isentas. O cumprimento da lei, gostando ou não, é vital para a evolução do Brasil, em todas as áreas. Aliás, é o descumprimento da lei, que torna esse oásis tropical, num deserto onde predomina a aridez da injustiça.

  3. Não se discute mais se o Brasil é ou não uma democracia. É lógico que vivemos uma ditadura do judiciário, mais especificamente do STF, que determina o que é certo e o que é errado e não há onde recorrer de suas decisões.
    Poderíamos dizer que o Senado Federal poderia ser o “freio” do STF, mas nosso Senado, inundado em processos de corrupção não tem condições para tal, por “estar nas mãos” do STF.
    Pelo que lí, nenhuma ditadura termina mediante um acordo de paz. Sempre há um processo traumático e, na maioria das vezes, sangrento, portanto, minha esperança para terminar a ditadura que vivemos terminou-se em 7/8/2021, quando acreditei que haveria um ruptura ditatorial que vivemos.
    Agora, resta convivermos com esse mal, até que surja outra esperança.

  4. Admiro muito a coragem da Revista Oeste, seus editores, jornalistas e articulistas.

    Mas tenho que expressar também uma preocupação. Não tenho dúvida de que em breve estarão sendo perseguidos implacavelmente e silenciados pela Nova Ditadura. Mas quando isso acontecer, terão a certeza de que combateram o bom combate e guardaram a fé na verdade, na liberdade e na democracia, e isso os terá tornado dignos e honrados perante toda a nação. A caminhada? Está apenas começando.

    Que Deus nos acompanhe.

  5. Parece não existir luz no fim do túnel a não ser o trem vindo de frente. Se o Senado não tem culhão para colocar em pauta impeachment de tiranos do STF o que o povo pode fazer já que está na C.F. que “todo poder emana do povo”. Ir pra cima?

  6. Lembro aos insignes Jornalistas de que tem muitas notícias esquecidas no baú. O STF condenou políticos e recomendou a cassação e o Congresso fez de conta que não era com ele. Deputados presos durante a noite e que podiam votar e ir até a Câmara durante o dia. Se isto não é falta de decoro, eu não sei o que é. Vejam que os Ministros do STF aprenderam as lições do juízes de futebol… decisões que só beneficiam alguns times e a Corte está utilizando o VAR para mudar leis aprovadas e votadas…

  7. Mundo imaginário. Mas claro que o Stablichment é contra Bolsonaro, porque ele se elegeu com o tema, procurareis a verdade e a verdade vos libertará. As pesquisas de opinião só dá Lula em qualquer em qualquer situação ele ganha pra presidente, se a eleição fosse hoje em qualquer presídio do país

  8. A dita grande imprensa tem perturbado as nossas vidas há mais de 2 anos gerando densas nuvens de ofuscamento. A Revista Oeste número 86 apresenta fatos disponíveis que contêm muitas pistas do que acontece atualmente, e proporciona aos leitores as evidências para fazerem seus próprios julgamentos, oferecendo segurança através do labirinto. Parabéns, muito obrigado. Agora sou assinante!!!!

  9. É uma pena que a maioria da população brasileira não tenha acesso às informações e matérias deste qualificado e diferenciado órgão de imprensa. A Revista Oeste é 10. Obrigado e parabéns â toda equipe que faz parte deste importantíssimo e maravilhoso trabalho

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