Justiça para as 242 vítimas do incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria | Foto: Dartanhan Figueiredo/Reprodução
Justiça para as 242 vítimas do incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria | Foto: Dartanhan Figueiredo/Reprodução

Carta ao Leitor

Os detalhes que envolvem a tragédia da Boate Kiss estão entre os destaques desta edição

Imagine-se uma festa em que mais de mil pessoas se aglomeram num espaço cuja lotação máxima é ligeiramente superior a 600. Não há janelas, o teto foi rebaixado ilegalmente e as paredes são forradas com placas de metal. Nessa panela de pressão, alguém aciona um sinalizador conhecido como Sputnik, oficialmente restrito a ambientes externos. Em contato com a espuma inflamável que — também ilegalmente — recobre o forro, labaredas ganharam dimensões incontroláveis em poucos segundos. Foi esse o cenário da tragédia da Boate Kiss.

Os extintores não funcionaram e não havia saídas nem luzes de emergência. Acreditando que estava ocorrendo uma briga e temendo um calote da multidão que tentava escapar, seguranças bloquearam rotas de fuga. Pisoteados, esmagados, intoxicados com a fumaça, carbonizados — foi assim que morreram em Santa Maria 242 seres humanos, jovens em sua maioria.

“Cinco anos depois, quando trabalhava na revista Veja e visitei a cidade, ainda era possível ver nas paredes as marcas das mãos daqueles que, sem saber, correram em direção aos banheiros pensando que se tratava da saída da boate”, conta Silvio Navarro, que assina a reportagem de capa desta edição de Oeste. “Eles tentaram, em vão, escalar as paredes para sair pelas janelas, que estavam bloqueadas com alvenaria para ajudar no isolamento acústico.”

Considerada uma cena de crime, a Kiss permanecia como estava naquela fatídica madrugada de 27 de janeiro de 2013, quando uma sucessão de erros desastrosos matou centenas de inocentes. Na época, a polícia considerou responsáveis pelo drama 28 pessoas. Só foram punidos três bombeiros — condenados por um tribunal militar —, que já cumpriram as penas. “Outros investigados não foram denunciados pelo Ministério Público ou tiveram os casos remetidos para varas cíveis e administrativas, o que fez com que caducassem”, conta Navarro.

Nesta semana, quatro dos envolvidos finalmente começaram a ser julgados por um júri popular: Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, donos da casa noturna; e Marcelo de Jesus dos Santos, o músico que tocava naquela noite, e Luciano Augusto Bonilha Leão, seu auxiliar.

Embora o julgamento esteja em curso, falta no banco dos réus uma peça fundamental. “Foi um caso agudo da corrupção à brasileira”, afirma Navarro. “Um fiscal pede propina ao proprietário do estabelecimento, a autoridade faz vista grossa e ‘para tudo dá-se um jeitinho neste país’”. Mais uma vez, o poder público não será castigado por ter sido o maior responsável pela tragédia que, passados dez anos, Santa Maria e o Brasil não conseguem esquecer.

 

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

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4 comentários Ver comentários

  1. Estranho não ter ninguém da prefeitura e nenhum bombeiro sendo responsabilizado por essa tragédia.
    Eles são os responsáveis por vistoriar e liberar esses locais.

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