O analista político Gustavo Segré, especialista em América Latina | Foto: Wikimedia Commons
O analista político Gustavo Segré, especialista em América Latina | Foto: Wikimedia Commons

“O populismo só acabará se um asteroide atingir a Terra”

O analista político Gustavo Segré avalia a derrocada da esquerda na Argentina, a ascensão da direita no Chile e o cenário das eleições brasileiras em 2022

A América Latina passa por grandes transformações políticas. Na Argentina, depois de quase 40 anos, o peronismo perdeu o controle da Câmara dos Senadores nas eleições legislativas de novembro, o que ratificou o descontentamento dos hermanos com o governo de Alberto Fernández. Nesse cenário, quem ganhou espaço foram os liberais, que conquistaram a maioria no Legislativo.

Nas eleições presidenciais chilenas, o direitista José Antonio Kast surge como favorito para assumir o lugar de Sebastián Piñera, que deixará o comando do país no fim deste ano. No primeiro turno da disputa eleitoral, Kast obteve quase 30% dos votos, enquanto o candidato esquerdista Gabriel Boric conquistou cerca de 25% da preferência popular.

Quem observa com atenção essas movimentações políticas é o Brasil, que elegerá um novo presidente em 2022. Jair Bolsonaro, atual chefe do Executivo federal, é nome certo na disputa. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que faz pré-campanha desde sua saída da cadeia, deve ser um dos oponentes. Ciro Gomes, Sergio Moro e João Doria, por sua vez, seguem na rabeira.

Para entender as transformações políticas da América Latina, Oeste entrevistou o escritor e analista internacional Gustavo Segré. Master in Business Administration (MBA) em Controladoria e ex-consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Segré trabalha como correspondente da TV La Nación+, um canal de notícias argentino que pertence ao jornal Lá Nación.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é avaliação do senhor sobre o resultado das eleições legislativas na Argentina?

É um momento histórico. O peronismo, depois de quase 40 anos do regresso da democracia na Argentina, perdeu o controle da Câmara dos Senadores, que é composta de 72 cadeiras. A coalizão Frente de Todos, comandada pela vice-presidente do país, Cristina Kirchner, encolheu de 41 para 35 parlamentares — menos do que a maioria absoluta necessária para aprovar leis (37). Na Argentina, o vice-presidente também é líder do Senado. Como sua aliança perdeu o controle da Casa, Kirchner terá dificuldades para determinar a agenda de trabalho e as votações. Um dos problemas mais sérios enfrentados pelo ex-presidente Mauricio Macri foi precisamente não conseguir aprovar algumas leis estratégicas para o país, diferentemente do que ocorreu no Brasil, que aprovou a reforma trabalhista, a reforma sindical e a reforma previdenciária. Na Argentina, com a maioria peronista no Senado, era impossível avançar com as propostas.

Os peronistas também perderam assentos na Câmara dos Deputados. Como o senhor analisa mais essa derrota?

No início da campanha, o objetivo da oposição era apenas não deixar os peronistas conquistarem mais cinco vagas na Câmara dos Deputados, constituída de 257 cadeiras. Nessas eleições, o peronismo terminou com 118 assentos — dois a menos do que tinha antes da disputa eleitoral. Se os governistas conseguissem eleger a maioria absoluta da Casa (129), poderiam fazer o que quisessem. Agora, porém, há equilíbrio na divisão dos deputados: são 118 parlamentares peronistas e 116 da oposição, além daqueles que pertencem aos partidos de alianças provinciais, que poderão fazer parte da oposição.

Quais fatores influenciaram a derrocada do peronismo nas eleições legislativas?

O peronismo não fez absolutamente nada bem. Em países onde há eleições legislativas durante o mandato presidencial, há ratificação ou rejeição do modelo de governo vigente — não há outra opção. Na Argentina, portanto, a maioria não aprovou a atual gestão. Os peronistas fizeram uma quarentena absurdamente longa, demoraram para adquirir vacinas — menos para os amigos próximos do governo, os “vacinados vips”. Além disso, tentaram aumentar os impostos e elevar as despesas públicas. A vice-presidente da República, Cristina Kirchner, tem a maior aposentadoria do país [2,5 milhões de pesos mensais], que equivale a quase nove anos da aposentadoria mínima [26 mil pesos por mês]. A economia está despencando, a indústria é ineficiente, a criação de empregos é baixa.

“Para o governo, é importante que os argentinos sejam pobres e dependam do Estado”

O que esperar da atuação do economista Javier Milei, o novo fenômeno eleitoral do país, em sua primeira atuação no Legislativo como deputado federal?

Nós nos conhecemos há muito tempo; temos várias ideias parecidas nas questões econômicas. É uma pessoa intelectualmente incrível, que iniciou o processo de batalha cultural no país, instigando os jovens a participar da política. Em vez de falarem em Che Guevara, as pessoas começaram a citar Friedrich Hayek, da Escola Austríaca de Economia, e Juan Bautista Alberdi, o jurista que mais influenciou a criação da Constituição de 1853. O desafio, agora, é entender Milei como um deputado federal. Em seu discurso, ele combate a casta política, mas precisou alugar um partido para ser eleito. De certa maneira, portanto, começou a fazer parte desse grupo que pretende combater. Outro desafio é entender como suas propostas serão avaliadas dentro da Câmara, porque Milei é apenas um parlamentar entre 257. Caso sugira a diminuição do salário dos legisladores, por exemplo, precisará do apoio da maioria dos deputados — o que dificilmente ocorrerá. No passado, alguns candidatos desbancaram o kirchnerismo, mas ficaram pelo caminho. Isso não quer dizer que ocorrerá o mesmo com Milei, mas seu leque de alianças precisará ser aberto.

O resultado das eleições provocará algum tipo de mudança no modus operandi dos peronistas?

É difícil. Se eu fosse do governo e me mostrassem o resultado das eleições legislativas, em que a derrota do kirchnerismo foi escandalosa, diria que não é esse modelo que vencerá as eleições presidenciais em 2023. Então, seria necessário trazer novas ideias para tentar rever a estratégia eleitoral. Em dois anos, o governo perdeu 5 milhões de votos — é muita coisa. Não adianta aumentar a quantidade de programas sociais se as pessoas não conseguem vislumbrar um futuro em que possam prescindir da ajuda do Estado. Peronismo, kirchnerismo e populismo mudaram o conceito do PBI, que é Produto Bruto Interno, para Pobres Brutos Inflacionados. Para o governo, é importante que os argentinos sejam pobres e dependam do Estado.

É correto dizer que o peronismo inflou o Estado argentino?

Sim. Em 2002, havia 2 milhões de programas sociais; hoje, são mais de 20 milhões. Multiplicou por dez, portanto. A quantidade de funcionários públicos em 2002 era de 2,5 milhões; agora, é de 4,5 milhões. Antes, eram 6 milhões de empregados do setor privado; atualmente, são 5,8 milhões. É pesado para os trabalhadores bancarem tanta festa no setor público. Os peronistas deveriam mudar os planos. Contudo, pensando com a cabeça deles, é evidente que não mudarão nada. Eles tentarão comprar votos implementando programas sociais eternos em Províncias como Buenos Aires, que tem 12 milhões de eleitores, e Córdoba, com 2,4 milhões. É assim que pretendem recuperar esse cadáver eleitoral.

No Chile, José Antonio Kast (direita) e Gabriel Boric (esquerda) disputarão o segundo turno das eleições presidenciais. O que esperar disso?

Se avaliarmos a quantidade de votos obtidos pelos candidatos, as chances de Kast são consideravelmente maiores que as de Boric. O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais chilenas chama a atenção: não foi a centro-direita que venceu, foi a direita mais radical. Tentaram comparar Kast com Donald Trump e Jair Bolsonaro, mas o vejo mais à direita. Isso pode ser benéfico do ponto de vista econômico — de fato, as ações da Bolsa de Valores do Chile subiram, porque os investidores vislumbram equilíbrio monetário e controle de despesas. Agora, os elogios feitos a Augusto Pinochet doem os ouvidos, sinceramente. Ainda assim, devemos respeitar as questões eleitorais de cada país. Não adianta fazermos comentários e análises, pois a decisão já foi tomada pelos eleitores. O que valorizo dessas eleições é a alternância de governo. No passado recente, apenas Michelle Bachelet e Sebastián Piñera foram eleitos presidentes. Agora, vence um candidato diferente.

O resultado das eleições argentinas e chilenas pode alterar as disputas eleitorais nos outros países do continente?

O Uruguai está à direita, com Lacalle Pou. O Brasil está no mesmo caminho, com Bolsonaro. O Chile, provavelmente, elegerá Kast. Na Argentina, a direita avançou nas eleições legislativas. Se tirarmos uma foto do atual cenário, será difícil para a esquerda recuperar o poder. É possível que o continente esteja guinando para a direita, o que historicamente é raro.

Falando especificamente do Brasil, qual é sua análise sobre as eleições presidenciais de 2022?

Penso que Lula não será candidato. Quando a disputa começar, o ex-presidente terá 78 anos de idade. Além disso, por qual motivo concorrerá novamente à Presidência? Em entrevistas que concedo aos jornais argentinos, comparo sua situação com a do ex-piloto Michael Schumacher, que voltou à Fórmula 1 depois de ter se aposentado como o maior campeão de todos os tempos. A última lembrança que temos dele, contudo, é de que não ganhava nada [Schumacher voltou a correr na competição mais importante de automobilismo, mas não conquistou torneio algum]. Lula vai querer voltar na história para sair sem pena nem glória? O grande problema é o poste eleitoral que será escolhido desta vez, porque Dilma Rousseff não deu certo.

De que maneira avaliar a eleição de Daniel Ortega para seu quarto mandato como presidente na Nicarágua?

Eu também venceria a disputa nessas condições, bastaria prender todos os adversários e calar os candidatos restantes. Nicarágua e Venezuela não são modelos democráticos, não podem servir de parâmetro. Seria surpreendente Ortega e Maduro não continuarem no comando de seus países. Então, isso não muda em nada na política do continente.

Há perspectiva de que o populismo deixe de existir na América Latina?

Na América Latina, o populismo só acabará se um asteroide atingir a Terra. A esquerda sempre vai existir — e isso é bom. É importante que haja pautas sociais, desde que haja contrapartidas. Os beneficiados precisam estudar, aprender um ofício. O Estado não pode dar dinheiro para os cidadãos ficarem sem fazer nada. Qualquer pessoa que tentar tocar um instrumento musical precisará das duas mãos para que o resultado seja agradável. A política é a mesma coisa — nesse caso, a direita e a esquerda são necessárias. A alternância de governo, em si, favorece a democracia, porque vence a proposta mais bem avaliada pelos eleitores.

Leia também: “Argentina: o eterno flerte com o suicídio”

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8 comentários Ver comentários

  1. Boa análise. Estruturas sócio-econômicas parecidas gerando situações políticas semelhantes no Brasil e na Argentina. A diferença é que o Brasil vai sempre em frente, cometendo erros novos. A Argentina parou na década de 30 e repete sempre os mesmos erros, enfeitiçada que ficou pelo peronismo. E o agro paga a conta da farra…

  2. Nas eleições de 2022, Lula, o cachaceiro ladrão, terá completado 77 anos de idade, e não 78 com informa o analista politico. No mais, é incrível que alguém possa acreditar que os mesmos criminosos e delinquentes que roubaram e arruinaram nosso país são agora os iluminados que podem salvá-lo.

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