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A era do pânico

Em poucas horas, o anúncio de uma nova variante espalhou o medo e provocou reações de histeria. Enquanto isso, a ciência avança e mostra um cenário da pandemia bem mais promissor

Tudo aponta no sentido de que a Ômicron, a variante do momento, não passará de uma marolinha no curso da pandemia, que já dura quase dois anos. Mas ela causou um verdadeiro tsunami quando foi anunciada por cientistas e pelo governo da África do Sul duas semanas atrás. Em poucas horas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificou de “variante de preocupação” e de “risco muito elevado”, por ser mais transmissível que as anteriores. Nem parecia a mesma organização que, sem pressa, levou quase três meses para decretar o estado de pandemia em 2020. A declaração gerou alertas em vários países, inclusive no Brasil, e abalou o mercado financeiro. As bolsas de valores do mundo todo derreteram. A má notícia abriu o apetite de governos, que começaram a reavaliar medidas de controle social. O espaço aéreo foi fechado em vários países. Instalou-se o caos. Até agora, contudo, nada justificou o pânico. O surgimento da Ômicron pode até mesmo ser positivo para a pandemia. Mas para a torcida pró-covid isso não importa. O estrago foi feito. 

Frenesi coletivo 

Pouco depois de a OMS divulgar a mais nova “bomba” biológica, Israel se tornou o primeiro país a proibir a entrada de estrangeiros, em resposta à nova variante. O governo informou ainda que usaria uma tecnologia contraterrorismo de rastreamento de telefone para conter a propagação da Ômicron. Japão e Marrocos também fecharam o espaço aéreo. Em aeroportos da Ásia e da Europa, viam-se pessoas protegidas com macacão de plástico dos pés à cabeça. Cerca de 50 países impuseram restrições a viajantes que estiveram no sul da África. Quarentenas rígidas e obrigatórias foram decretadas para residentes que precisavam voltar ao país de origem. As medidas restritivas deixaram milhares de turistas presos no continente africano — quase 300 brasileiros estão esperando uma definição. No Brasil, foram proibidos voos que tenham origem ou passagem por seis países africanos. 

Quem não gostou nada dessa história foi o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que criticou os países ocidentais por terem imposto proibições de viagens depois do anúncio da Ômicron. “A proibição de viagens não é informada pela ciência, nem será eficaz para prevenir a propagação dessa variante”, disse num discurso pela televisão. Ramaphosa ainda acusou as principais lideranças mundiais de não honrar acordos de cooperação mútua no enfrentamento à pandemia. “Este é um afastamento claro e completamente injustificado do compromisso que muitos desses países assumiram na reunião do G20 em Roma, no mês passado”, afirmou. Para José Eduardo Levi, virologista e coordenador de pesquisa e desenvolvimento da Dasa, uma das maiores redes de saúde integrada do Brasil, a decisão de dar o alerta mundial assim que a variante foi identificada é acertada. “Já aprendemos no curso da pandemia que o fator tempo é muito importante”, disse. No entanto, o médico atenta para os efeitos dessa paralisia global. “É mais intuitivo e fácil falar ‘não quero mais ninguém voando de lá para cá’, mas não acho que seja a medida mais produtiva.” Levi acredita que as restrições podem inibir outros países de anunciar a descoberta de novas variantes. “Se um país acha uma variante, informa o mundo, e os outros dizem ‘se vira aí que vamos fechar o país’, outros países podem não colaborar mais.” 

Efeitos da onda de pânico

A enxurrada de pessimismo alardeada aos quatro cantos inundou o mercado financeiro e resultou num verdadeiro banho de sangue nas bolsas de valores dos Estados Unidos e do Brasil. Em 1º de dezembro, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores do país, caiu 1,12% — desde 5 de novembro deste ano, o mercado brasileiro não descia a um patamar tão baixo. O preço do petróleo chegou a cair 13% diante das primeiras informações sobre a nova variante. O setor de eventos e de turismo gelou a espinha com o risco de paralisação das atividades. Os efeitos já começaram a aparecer: pelo menos 21 capitais brasileiras cancelaram total ou parcialmente as festas de Réveillon deste ano.

Em São Paulo, o governador João Doria havia prometido o fim do uso de máscaras ao ar livre a partir de 11 de dezembro. Orientado pelo “Comitê de Saúde”, recuou e manteve o acessório obrigatório, mesmo em lugares abertos. Outra medida a jato anti-Ômicron adotada no Estado de São Paulo foi reduzir de cinco para quatro meses o intervalo da dose de reforço da vacina contra a covid. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou que a decisão fosse reavaliada, uma vez que não está claro se os benefícios da antecipação superam os riscos da aplicação generalizada de uma terceira dose. Pouco importa. O comitê de especialistas que toma as decisões sobre o ir e vir das pessoas achou melhor ignorar a Anvisa e manter a medida. O médico de um posto de saúde da cidade de São Paulo disse a Oeste que a validade de um lote grande de vacinas das Pfizer venceria no último dia 7. Com a redução do intervalo entre as doses, o estoque acabou pouco antes do vencimento. Não, caro leitor, as decisões na pandemia não são baseadas apenas no mantra “ciência, ciência, ciência”. 

Não é a primeira vez nesta pandemia que governantes espalham o medo

A histeria coletiva de autoridades, inflada pela velha imprensa, causou um estardalhaço global, ainda que a própria OMS tenha admitido que pode levar semanas para entender o nível de transmissão e a gravidade da nova cepa. No mundo real, a médica que identificou a variante, Angelique Coetzee, afirmou logo nos primeiros dias que os sintomas são mais leves em relação a outras cepas do coronavírus e grande parte dos pacientes infectados não precisou de internação. Na África do Sul, onde a Ômicron se tornou predominante, não se viu, até agora, alta nas internações hospitalares. Até o momento, 41 países, em todos os continentes, já identificaram pelo menos um caso da nova variante. Até esta quinta-feira, dia 9, nenhuma morte associada à cepa havia sido registrada.

Esperança na Ômicron

Quando a nova cepa foi anunciada, a descoberta de cerca de 30 mutações na spike, a proteína que o coronavírus usa para invadir as células humanas, preocupou os cientistas. Mas, pela observação das infecções causadas pela variante até agora, há sinais de que as mutações podem contribuir para o fim da pandemia. “Se a proteína spike, que é tóxica, mudar demais, ela pode perder a toxicidade. E aí os casos ficam mais leves”, explica o clínico geral Roberto Zeballos, doutor em imunologia. “Não se pode esquecer que o que coloca a vida do paciente em risco é a resposta inflamatória diante dessa proteína.” Ainda faltam estudos concretos, mas a teoria é interessante: se a Ômicron causar apenas sintomas leves, como o de um resfriado comum, e conseguir se multiplicar a ponto de se tornar dominante, deslocando as mais letais, a contaminação pela nova cepa aumentará o número de pessoas com imunidade natural, funcionando como uma espécie de “Variante das Vacinas”. É cedo para comemorar e o momento é de cautela. Não se pode — nem se deve — contar com isso. Mas o comportamento da Ômicron em todos os cantos do planeta, sobretudo na África do Sul, é uma boa notícia.  

Não é a primeira vez nesta pandemia que governantes e autoridades científicas, de maneira irracional e precipitada, espalham o medo e criam ondas de pânico ainda mais prejudiciais do que o próprio vírus. A tirania do passaporte vacinal é outro engodo que acirra os ânimos de uma população para lá de esgotada com a crise sanitária. “Não estamos conseguindo evitar infecção em vacinados e isso é ruim, porque o vírus continua em circulação”, disse José Eduardo Levi, em entrevista a Oeste. No caso da Ômicron, estudos preliminares mostram que a cepa pode escapar à proteção vacinal, mas as contaminações tendem a ser brandas. Segundo balanço recente do Ministério da Saúde, os seis casos de contaminação por Ômicron no Brasil “têm histórico de vacina e apresentaram quadro leve da doença”. No entanto, o cerco para quem ainda não levou uma picada está apertando. Pelo menos 20 capitais do Brasil exigem algum tipo de passaporte da vacina para entrar em eventos ou frequentar determinados tipos de estabelecimento. Nesta semana, o governo federal decidiu exigir comprovante de vacina para viajantes que entrarem no Brasil, além da apresentação de teste negativo para a covid-19. Os não vacinados poderão entrar no país, desde que realizem uma quarentena de cinco dias. 

O fato é que a obrigatoriedade de vacinação se tornou mais um debate sobre liberdades individuais do que sobre ciência. Apesar de estudos mostrarem que vacinados têm menos chances de contrair a doença ou evoluir para casos graves, as vacinas não são 100% eficazes para evitar contaminações pelo coronavírus. Há médicos que defendem a tese de que quem já pegou covid e tem anticorpos não precisa se vacinar. Artigo recente publicado na revista científica The Lancet chama a atenção para uma questão fundamental: ao adotarem medidas contra a covid-19, governantes têm de ter em mente que vacinados também transmitem coronavírus. “Parece ser uma negligência grosseira ignorar a população vacinada como uma possível e relevante fonte de transmissão ao decidir sobre medidas de controle de saúde pública”, diz o artigo. Ao impor o passaporte sanitário, os tecnocratas de gabinete caminham para emplacar mais um na lista gigante de erros cometidos durante a pandemia. A chegada da Ômicron, além do surto de pânico, aumentou ainda mais os poderes e o controle que autoridades ganharam com a covid (sem contar o dinheiro desviado) e não querem perder de jeito nenhum: “fique em casa”, “tranca tudo”, “fecha a escola”. Primeira dose, segunda dose, terceira dose… É dose. Haja dose!  

Leia também “Não vamos apostar que a Ômicron vai detonar no Brasil”

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8 comentários Ver comentários

  1. Enquanto a velha imprensa não se reciclar o quadro de pânico e histeria não irá mudar, contudo a credibilidade neles depois dessa, está diminuindo a cada dia!!! Parece a velha historinha do menino e o lobo!!!!

  2. Ótimo artigo. Parabéns. Enquanto existirem os covidianos a peste chinesa não vai acabar nunca. Sem falar no dinheiro que as Big Techs estão ganhando a rodo com a pandemia.

  3. E afinal, a Pfizer continua não se responsabilizando por eventos adversos? E cabe a nós pagadores de impostos assumir essa responsabilidade? Alguém duvida da enxurrada de ações que nossa indústria advocatícia projeta para o futuro?
    Como pode essa empresa pedir a aprovação da Anvisa para vacinar menores de 3 anos?
    Paula, ofereça-nos matéria como se responsabilizam os demais laboratórios que aqui aplicam vacinas contra COVID, preços, eficácia, enfim tudo que for necessário para esse mercado ser concorrente. Soube recentemente que o preço da vacina AstraZêneca produzida pela FIOCRUZ custa R$3,49 por dose e a Pfizer U$12 e a Coronavac?

  4. Cada dose extra que se inventa deve gerar uns 25 bilhões de dólares de lucros adicionais. Não há ciência nem OMS que resista a um incentivo desses …

  5. É como diz o Bernardo Küster: a vacinação tá virando acumputura, de tanta agulhada. E não vai parar tão cedo, enquanto tiver gente ganhando dinheiro com isso, ou enquanto os Faucis da vida não forem presos.

  6. O pânico foi instalado e está enraizado. Imunidade natural? Como avaliar?
    Como estão computando os casos de reações adversas as vacinas?
    Ouço falar em futuras pandemias. Houve melhora na capacidade de atendimento no setor público?

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