Protestos contra o passaporte sanitário na França, no Canadá e na Itália | Fotos: Montagem Revista Oeste com imagens de Spech/Blake Elliott/Renato Murolo/Shutterstock
Protestos contra o passaporte sanitário na França, no Canadá e na Itália | Fotos: Montagem Revista Oeste com imagens de Spech/Blake Elliott/Renato Murolo/Shutterstock

A hora do levante

Novas imposições de governantes para tentar frear variantes do coronavírus fazem surgir protestos em vários países europeus

20 de março de 2020. O governo da Áustria inicia um lockdown na tentativa de conter o novo coronavírus covid-19. As pessoas ficam proibidas de ir a bares e restaurantes. Trabalhadores mudam para o home office. Crianças têm de se adaptar ao novo regime de aulas à distância. Todos obedecem.

19 de novembro de 2021. O governo da Áustria inicia um lockdown, impõe restrições ao comércio, implementa a vacina obrigatória e promete barrar não vacinados de frequentarem espaços públicos a partir de fevereiro de 2022. Mas a população, agora, decidiu reagir.

Quarenta mil pessoas saíram às ruas de Viena no último fim de semana para protestar contra as novas medidas restritivas. Reprimidas pela polícia, dezenas ficaram feridas e outras acabaram presas. A reação se repetiu em outros países do continente.

Os europeus estão cansados de ter as suas liberdades tolhidas

Protestos contra o passaporte da vacina, compulsório na Irlanda do Norte desde novembro, tomaram conta da capital, Belfast. Há duas semanas, mil dinamarqueses se manifestaram em Copenhague contra os planos do governo de exigir que trabalhadores se vacinem para frequentar empresas. Na Croácia, as ruas ficaram repletas de cidadãos contra a vacinação obrigatória. Em todos os casos, o recado foi claro: os europeus estão cansados de ter as suas liberdades tolhidas.

Um dos argumentos usados pelos governos europeus para voltar a restringir os direitos da população é o aumento do número de contaminados registrado nas últimas semanas, apesar da alta porcentagem da população totalmente vacinada. Alemanha e Holanda, por exemplo, tiveram um aumento de quatro vezes no número de casos semanais desde outubro. As taxas na Áustria estão cinco vezes mais altas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as raízes da nova explosão de casos estão na variante Delta, além de culpar a reabertura da economia, a flexibilização do uso de máscaras e do distanciamento social. A OMS chegou a calcular que 700 mil mortes adicionais ocorrerão até março de 2022 se a tendência atual se mantiver. O número é maior que o total de mais de 616 mil óbitos por covid-19 no Brasil desde o início da pandemia. Curiosamente, no ano passado, um grupo de cientistas da mesma OMS assinou um estudo do Imperial College segundo o qual 1 milhão de pessoas morreriam de covid-19 no Brasil em 2020, caso ações drásticas não fossem tomadas.

Para Roberto Zeballos, clínico geral e doutor em imunologia, contudo, o isolamento não garante proteção contra a infecção. “Na Europa, o lockdown criou bolsões de suscetíveis (pessoas que nunca pegaram o coronavírus), porque elas não se expuseram ao vírus”, explicou. “Vacinou-se a maioria da população, e foram liberando-a. Como a vacina não protege contra a disseminação nem a infecção, as pessoas se contaminaram”, disse, ao afirmar que a vacinação ajudou a evitar casos graves da covid-19. “Outra medida ineficaz é o passaporte da vacina, que não controla a transmissão nem a infecção. No meu dia a dia, 73% dos casos que atendo são de pessoas totalmente vacinadas.”

O infectologista Ricardo Zimmermann vai na mesma linha. Para ele, a atitude de países europeus de fechar tudo é equivocada. “Lockdowns não são boa estratégia, porque não deram certo no início da pandemia. Eles não impedem contaminações e são danosos à saúde das pessoas. No Brasil, por exemplo, deixou-se de fazer 1 milhão de mamografias durante o período de isolamento”, observou, ao defender a necessidade de conviver com o vírus, equilibrando a atividade econômica com os cuidados da saúde, em vez de recuar no enfrentamento do patógeno.

O surgimento da variante Ômicron, em Botsuana (sul da África), fortaleceu o discurso do “fique em casa” na Europa. A cepa já foi encontrada em pelo menos 11 países europeus. O pânico não tem justificativa. Angelique Coetzee, presidente da Associação Médica da África do Sul, constatou que a variante provoca sintomas leves na grande maioria dos pacientes. A médica já tratou dezenas de pessoas que contraíram a cepa.

Uma lista dos mais recentes protestos em países europeus:

Alemanha

Contra o “apartheid da vacinação”, milhares de alemães ocuparam as ruas de Berlim no fim de agosto deste ano. A principal queixa: a vacinação obrigatória e o lockdown para não vacinados. No último fim de semana, a população tornou a ir às ruas, mas em menor número (o governo proibiu um ato maior). Frankfurt, centro financeiro do país, também registrou mobilizações. O chanceler eleito da Alemanha, Olaf Scholz, estabeleceu um lockdown para não vacinados e mandou para o Congresso a proposta que estabelece a vacinação obrigatória. Caso aprovada, a medida passará a valer partir de fevereiro de 2022.

Áustria

Um dos países que mais endureceram suas regras, a Áustria vem registrando protestos significativos. No sábado 4, cerca de 40 mil pessoas foram às ruas carregando cartazes com frases contra a vacinação forçada, a violação de direitos humanos e a imunização de crianças. Segundo a agência Reuters, cerca de 1.200 policiais acompanharam o protesto. Alguns participantes do ato foram presos por supostamente atirar fogos de artifício contra os agentes. A Áustria está em lockdown desde 22 de novembro, com previsão para se estender até 13 de dezembro — depois disso, o fechamento será para não vacinados. A vacinação obrigatória deverá começar em 1º de fevereiro de 2022.

Bélgica

No último fim de semana, a capital Bruxelas foi palco de protestos contra as “medidas sanitárias”. No domingo dia 5, a polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e usou canhões de água para dispersar os manifestantes que marchavam pacificamente pelo centro da capital belga até o bairro que abriga a sede das instituições da União Europeia. Os manifestantes protestavam contra as regras impostas em outubro, que obrigam as pessoas a ter o passaporte da vacina para entrar em bares e restaurantes. O protesto ocorreu depois de novas medidas, anunciadas na semana anterior, incluindo o uso obrigatório de máscara para a maioria das crianças do ensino fundamental e extensão das férias. No fim de novembro, um número muito maior de manifestantes entrou em confronto com a polícia em Bruxelas, deixando dezenas de feridos e presos.

França

Em julho deste ano, mais de 200 mil pessoas se manifestaram contra o passaporte da vacina. O passaporte havia se tornado obrigatório no início daquele mês para quem quisesse frequentar bares e restaurantes, cinemas, teatros, trens, entre outras atividades. No mês seguinte, 175 mil pessoas tomaram as ruas de 100 cidades para protestar novamente contra o passaporte. Outras mobilizações aconteceram no dia 16, na França, que reuniu sindicatos e a sociedade civil organizada, mas desta vez contra a vacinação obrigatória de profissionais da saúde, em vigor em parte do país. Os protestos ocorreram também em Guadalupe e Martinica, duas ilhas francesas no Caribe. O governo adiou a exigência dos imunizantes naqueles locais, que deve ter um desfecho no fim deste mês.

Holanda

Depois de o primeiro-ministro do país, Mark Rutte, reintroduzir um lockdown parcial com uma série de medidas sanitárias no fim de novembro, centenas protestaram na cidade de Roterdã. Em confronto com a polícia, 20 cidadãos foram detidos e outros sete, feridos. O governo reduziu o horário de abertura do comércio. Bares, restaurantes e cafés, por exemplo, só podem abrir entre 5 horas e 17 horas. Para entrar nas lojas, é preciso apresentar o passaporte da vacina. Quem quiser receber visitas em casa pode levar apenas quatro pessoas. Os eventos públicos foram suspensos, e o campeonato de futebol é disputado sem público.

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