Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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O que você precisa saber sobre o real digital

A moeda facilitará o cotidiano, mas o Estado será o maior beneficiado

Recentemente, o Banco Central criou um laboratório para desenvolver uma Moeda Digital de Banco Central (CBDC) brasileira, o real digital. A instituição diz que o objetivo é “estimular novos modelos de negócio que aumentem a eficiência do sistema de pagamentos de varejo”. Mas o que está por trás dessa criptomoeda? Oeste responde.

O que é o real digital?

Real digital é o apelido dado a uma criptomoeda tipo CBDC (sigla em inglês para Moeda Digital de Banco Central) que o Banco Central brasileiro cogita lançar, após o sucesso do Pix. É uma moeda igual ao real, porém virtual. Os estudos relacionados ao projeto costumam ser associados a facilidades de pagamento e diminuição de burocracias para envio e recebimento de recursos do exterior.

Só o Brasil está pensando em uma moeda digital?

CBDCs são estudadas por ao menos 17 países que tentam criar alternativas à hegemonia americana no sistema financeiro global. E uma das consequências do desenvolvimento dessas moedas digitais pode ser diminuir a capacidade de os Estados Unidos aplicarem sanções econômicas unilaterais contra seus adversários.

Como se dão essas sanções econômicas?

Hoje, o fluxo de dinheiro entre países acontece principalmente por meio do sistema Swift (sigla em inglês de Sociedade Global de Telecomunicação Financeira Interbancária) e por uma rede de bancos correspondentes de instituições bancárias americanas. Recentemente, para tentar impedir que a Rússia invada a Ucrânia, Washington ameaçou excluir Moscou do sistema Swift — o que poderia causar, na prática, o isolamento financeiro do país.

Como a China está lidando com as moedas digitais?

A ideia da China é criar moedas virtuais reguladas pelo Estado e distribuí-las por plataformas de pagamento gigantes, como Alipay e WeChat. O objetivo final seria fazer frente à hegemonia do dólar como moeda global. Em tese, o iuane digital poderia ser imposto por Xi Jinping como a principal moeda de comércio internacional em alguns países da África, do Oriente Médio e do sudeste asiático. São áreas onde Pequim faz investimentos pesados em infraestrutura, dentro na política “Belt and Road”, que também é chamada de a “Nova Rota da Seda”. Ela é tratada pelas potências ocidentais como uma agressiva ação de conquista de mercados. Para Pequim, implantar o iuane digital em suas áreas de influência seria uma forma de aumentar o poder econômico sobre esses países e, ao mesmo tempo, fortalecer a moeda chinesa.

E os aliados dos EUA?

Aliados de Washington, como a Grã-Bretanha e a França, também já demonstraram interesse na tecnologia. Os próprios Estados Unidos estudam a possibilidade de fazer um CBDC baseado no dólar. Mas o projeto tem encontrado resistência de entes que operam soluções para o sistema financeiro atual. “A gente vê muito uma retórica sobre as CBDCs, que vão melhorar a vida das pessoas”, disse o pesquisador André Carneiro, da escola de negócios Coppead, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Pode, sim, melhorar, não questiono, mas há alguns fatores que estão por detrás, como por exemplo essas guerras comerciais, um governo contra o outro.”

O CBDC seria o único caminho para fugir do dólar?

Alguns dizem que seria mais fácil, para nações que querem fugir do dólar, criar sistemas similares ao Swift, em vez de investir em CBDCs. Isso porque as CBDCs pressupõem o desenvolvimento de tecnologias como inteligência artificial, blockchain e plataformas digitais de pagamentos, por isso são projetos caros e complexos. A China tem o Cips (sigla de Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços), a Rússia o SPFS (Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras) e a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha têm o Instex (Instrumento de Apoio a Trocas Comerciais — usado para negociar com o Irã, apesar das sanções de Washington). Contudo, a hegemonia financeira continua em mãos americanas.

Onde fica o Bitcoin nessa história?

O Bitcoin é uma criptomoeda baseada numa tecnologia chamada blockchain, que possivelmente vai ser a base da maioria das CBDCs. Porém, apesar da mesma tecnologia, as moedas similares ao Bitcoin (há cerca de 15 mil delas atualmente) e os CBDCs têm conceitos opostos.

Outra possibilidade é o maior controle de atividades financeiras ilegais

O que é uma criptomoeda?

Há vários tipos de criptomoedas, segundo o pesquisador André Carneiro. As mais conhecidas, o Bitcoin e o Ethereum, são descentralizadas, reguladas por milhares de “livros-caixa” nos computadores de usuários que atuam em rede. Elas também não possuem lastro em moeda tradicional, por isso o Banco Central as define como criptoativos. Ou seja, são ativos financeiros. Representam investimentos arriscados, pois seus preços variam de forma similar às ações das bolsas de valores. Carneiro explicou que há criptomoedas chamadas “stablecoins“, que também são ativos, mas vinculados a moedas reais, como o dólar e o real. O stablecoin brasileiro é chamado de BRZ e operado em empresas privadas. As pessoas procuraram esse tipo de criptomoeda porque, com elas, podem realizar operações chamadas DeFi — investimentos e operações financeiras descentralizadas, que podem render mais lucros que as aplicações de bancos tradicionais.

A criptomoeda é controlável?

Segundo André Carneiro, o Estado fica no controle da criptomoeda. “O governo consegue saber o que está circulando e onde está”, disse. “Consegue ter maior controle do sistema financeiro”. Em teoria, esse controle pode chegar a um ponto em que, se quiser estimular a economia, um governo pode estipular um prazo para que o dinheiro seja gasto pelo cidadão, sob pena de ser desativado — como acontece com créditos de celulares pré-pagos. Outra possibilidade é o maior controle de atividades financeiras ilegais. Seria mais fácil combater crimes como lavagem de dinheiro.

O que é um CBDC?

Do outro lado do espectro das criptomoedas estão as CBDCs, moedas virtuais hipercentralizadas, controladas pelos Estados. Apenas as Bahamas têm uma CBDC operacional. A China está em estado avançado de desenvolvimento, e recentemente a Suíça e a França realizaram operações de testes. Ao emiti-las, acredita-se que os países levam algumas vantagens que vão além da geopolítica. O mais direto é que haverá economia de recursos financeiros necessários para produzir moedas e notas.

O que muda com um CBDC brasileiro?

O Banco Central diz que o objetivo é “estimular novos modelos de negócio que aumentem a eficiência do sistema de pagamentos de varejo”. André Carneiro vê uma possibilidade de melhoria para o cidadão em operações de remessas de dinheiro para o exterior. Hoje em dia, o sistema baseado no Swift é caro e burocrático. Mas seria preciso fazer mudanças de lei e estabelecer procedimentos de conversão com bancos estrangeiros.

Quais as vantagens do real digital?

Leandro Vilain, diretor de Inovação, Produtos e Serviços da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) destaca o chamado DVP (sigla em inglês de Entrega Versus Pagamento). “É a possibilidade de eu fazer um pagamento a alguém, mas esse alguém só vai receber o dinheiro quando eu receber a mercadoria”, disse. Por exemplo, quando uma pessoa compra um carro de outra. O comprador faria o depósito em real digital na conta do vendedor, mas o dinheiro só ficaria disponível quando o comprador recebesse o automóvel. Isso aconteceria de forma automática, sem a intervenção de uma instituição ou terceira pessoa para agir como garantidor.

As compras on-line seriam facilitadas?

Hoje são os sites de compra e venda que atuam como garantidores da negociação entre vendedor e comprador. O dinheiro só é liberado para a conta do vendedor quando o produto é entregue ao comprador. Em tese, com o real digital, os sites não precisariam mais fazer esse papel. Segundo Leandro Vilain, outros problemas não tão evidentes para a população poderiam ser resolvidos. A tecnologia de blockchain eliminaria burocracias bancárias, tornaria mais rápida e segura a liquidação de transações e faria as operações serem mais facilmente rastreáveis pelas autoridades de fiscalização.

Quem garante o real digital?

O real digital seria garantido não por bancos privados, mas pelo Banco Central, o que diminui o nível de risco. Por isso, em teoria, a paridade entre o real rigital e o real em papel-moeda deveria ser diferente de 1 por 1. “Como consumidor, em tese, eu deveria estar disposto a pagar mais por 1 real digital, mas a diferença de paridade não é algo que a gente queira, a gente quer uma operação barata, com custo zero para o consumidor”, disse Leandro Vilain, da Febraban.

O real digital é para já?

“O real digital é um processo que vai acontecer ao longo do tempo, não é da noite para o dia. Tem muitas aplicabilidades, mas exige muitos cuidados”, disse André Carneiro. Segundo ele, se as regras cambiais continuarem as mesmas, não vai ter muita diferença do que já é possível fazer com o Pix, por exemplo. “Vejo melhoras muito mais no próprio âmbito do Banco Central e das operações que regem ali do que para o próprio cidadão”, disse.

Quais as vantagens do real digital para o Brasil?

O CBDC pode ser uma forma de o Brasil adotar uma postura de líder regional. O país pode criar um sistema que atenda à realidade nacional e à dos vizinhos. “Quando a gente fala de China e Estados Unidos, é um âmbito global, e a gente nem entra nessa briga de cachorro grande”, afirmou Carneiro. “Mas, para um âmbito local, pode ser bem interessante para os nossos parceiros de negócios aqui na região.”

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