A verdade sobre a terra

O movimento De Olho no Material Escolar luta para neutralizar as fantasias sobre o agronegócio difundidas pelos livros didáticos

“Eu sou um indígena. Me chamo Beto. Eu moro na Região Centro-Oeste. Minha casa foi destruída para plantar cana-de-açúcar. Eu e meu amigo não conseguimos trabalho. Nós saímos nas ruas para pedir que não comprem a cana-de-açúcar do lugar que era a nossa casa. Não adianta muito.
Ninguém nos ouve e vivemos na pobreza total.
Meus pais se mataram por causa das dificuldades de vida.
Vivo sozinho desde que tinha 14 anos.”

Foi essa carta, escrita por uma criança de 10 anos que fazia a lição de casa, o gatilho para a criação do De Olho no Material Escolar. O movimento começou quando Letícia Zamperlini contou o que sua filha fora obrigada a escrever para Helen, que contou a Andréia, que repassou para Heloísa, que relatou a Elizana. Hoje, são mais de 4 mil simpatizantes e centenas de associados espalhados por dez Estados brasileiros.

Depois de ler a carta, Letícia — produtora rural como Andréia, Heloísa e Elizana — explicou à filha que grande parte daquela dissertação estava distante da verdade. Ela conversou com diretores, professores e pais até constatar que, muito mais do que resultado da má-fé, aquilo decorria do desconhecimento generalizado. E era potencializado sobretudo pelos livros didáticos.

O “De Olho”, como costuma ser chamado pelos associados, é fruto da pandemia. Com as escolas fechadas, as mães, transformadas em professoras, começaram a prestar muito mais atenção no que era ensinado aos filhos — e em como era ensinado.

Depois de uma live em que o agrônomo e ambientalista Xico Graziano mostrou alguns desses exemplos, o grupo passou a receber materiais vindos de todo o país. Por exemplo, para uma pergunta sobre as “condições econômicas e ambientais da pecuária realizada no Brasil”, a resposta considerada correta era “Pecuária causa desmatamento na Amazônia”.

Os “prejuízos da pecuária para o meio ambiente” incluíam afirmações como: “o gado deixa o solo compacto e duro”; “vacas, ovelhas e cabras soltam uma grande quantidade de gases, que poluem o ar”; ou “as fezes e a urina produzidas na pecuária intensiva podem se infiltrar no solo e contaminar as águas subterrâneas”.

Outro livro didático garante que o trabalho escravo não é uma exceção que se restringe a 0,001% do Brasil. “Todos os anos, as autoridades encontram e libertam trabalhadores escravizados nas fazendas do Brasil”, desinforma o texto. “Há muitos proprietários que contratam homens armados para vigiar os trabalhadores e impedir que eles se revoltem.”

Em vez de destacar que hoje 14% do território brasileiro é ocupado por terras indígenas, uma das peças recebidas pelo grupo afirmava que essa população “tem sido expulsa de suas terras ou se vê cercada por grandes plantações”. Nada sobre Roraima, por exemplo, que tem 46% do seu território reservado a tribos indígenas.

Os absurdos continuam com a forma como são usados defensivos agrícolas e fertilizantes, com as jornadas de trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar ou a exposição de trabalhadores ao sol. É como se o Brasil permanecesse estacionado em séculos ou décadas atrás e não fosse hoje uma das maiores potências mundiais, referência tecnológica quando o assunto é agropecuária.

“São inúmeros os exemplos”, diz Letícia. “Todo mundo que nos procura tem uma história para contar. Se você está perto e olha o material escolar, mesmo não sendo do agro, percebe o tom negativo e uma ausência de referências científicas.” A fonte de informação muitas vezes é o Google ou reportagens sem credibilidade. “Não vemos citações da Emprapa, do Ibama ou de órgãos confiáveis.”

As editoras

O grupo já se reuniu com representantes dos ministérios da Educação e da Agricultura, além de ter conseguido das editoras a promessa de revisar o material. Isso animou o De Olho a dar um passo adiante e criar o Vivenciando a Prática. Nesse programa, donos de editoras, professores e alunos conseguem enxergar com os próprios olhos o que é o agro brasileiro.

O primeiro evento aconteceu em Mato Grosso. Quando desceu do ônibus numa fazenda que cultiva cana-de-açúcar, um dos participantes quis conversar com um boia-fria — trabalhadores que cortavam cana com um facão na mão, envolviam o corpo com trapos para não se cortarem e tinham o rosto coberto pela fuligem das queimadas usadas para desfolhar a plantação.

“Só se voltarmos algumas décadas no tempo”, avisaram as organizadoras do evento. Hoje, nas grandes plantações, a cana é colhida por máquinas pilotadas à distância através de computadores de última geração. E as queimadas não só estão proibidas como não interessam ao produtor rural, uma vez que matam a matéria orgânica do solo.

Boia-fria | Foto: Cícero Omena

O segundo Vivenciando ocorreu no município paulista de Itaberá, na Fazenda Lagoa Bonita, especializada em melhoramento de sementes. Ali, a máquina que mistura as sementes com defensivos tem a mesma tecnologia dos equipamentos de hemodiálise — tamanha é a precisão da quantidade necessária. Por ser o produto mais caro na lavoura, agricultores minimamente informados sabem que o uso de fertilizantes e agrotóxicos deve ser reduzido ao absolutamente necessário.

Voltado principalmente para professores, o evento em São Paulo pretendia fazer com que eles levassem aos alunos o universo de possibilidades proporcionado pelo agro. “Hoje, o agro não emprega apenas agrônomos ou produtores rurais”, explica a engenheira agrônoma Elizana Paranhos. “São necessários químicos, jornalistas, cientistas da computação e diversas outras profissões. E nós precisamos de mão de obra qualificada.”

As organizadores do evento Vivenciando na Prática, em Itaberá | Foto: Reprodução

Se o objetivo inicial era mudar o conteúdo das publicações usadas nas escolas públicas e privadas, o De Olho agora é mais ambicioso. Planeja organizar em 2022 cerca de 50 Vivenciando a Prática em diversos locais do país, além de criar uma biblioteca virtual, sob a supervisão da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq). O portal será uma referência para professores.

“Nenhuma categoria profissional nem o Estado Brasileiro preservam mais vegetação nativa do que os produtores rurais”, afirmou Evaristo de Miranda, chefe da Embrapa Territorial, em um artigo publicado na edição 63 da Revista Oeste. Mais de um quarto do território nacional (quase 27%) preserva a vegetação nativa no interior dos imóveis rurais. Líder mundial da proteção ambiental em terras públicas, o Brasil também é o primeiro em terras privadas, além de ter as maiores reservas minerais e biológicas do mundo

“Precisamos fazer com que as pessoas conheçam o potencial gigantesco desses setores produtivos, em vez de mostrar apenas uma visão negativa”, afirma Letícia. “É preciso dar oportunidade para que as crianças tenham orgulho do que o país produz.”

Leia também “O produtor rural é quem mais preserva o meio ambiente”

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18 comentários Ver comentários

  1. Uma ótima iniciativa. Desde a década de 1980 que livros didáticos e professores de história e de geografia difamam o agronegócio e a modernização agropecuária.

  2. É por realidades assim que vou me tornar professor do ensino médio e desmascarar estas narrativas mentirosas, plantadas nos livros e na mente de professores.

    O agro brasileiro deve ser exaltado.

  3. Os tentáculos da ideologia de esquerda, chegaram em todos os lugares. Não esqueceram de nenhum. As escolas foram os focos. Gente nefasta.

  4. Sou Agrônomo e produtor rural ha mais de 50 anos e tenho orgulho de ver cada vez mais a classe de produtor rural mais e mais informada e desejosa de proteger o meio ambiente. O que temos é o produto de mais de 20 anos de distorções ideológicas sobre o agro brasileiro.

  5. Passei dos 70, vivi vários momentos da sociedade ocidental, o conservadorismo dos anos 50 cedendo à rebeldia do rock, as alucinações e o woman’s lib dos anos 60, movimentos punk e yupis (?) dos 80 /90, mas nunca imaginei que viveria um tempo tão carregado de hipocrisia, recalques e idiotices generalizadas. Um alívio ler um texto com informações coerentes.

  6. Os esquerdistas doutrinadores deveriam parar de comer, de se vestir, e ir viver como o índio. ” Economizariam” a terra, os ouvidos dos nossos filhos, e quem sabe suas próprias vidas. Se é que na vida inútil desses esquerdistas há algo a ser economizado.

  7. Branca
    Espero mais para me informar mais para não sair por aí falando bobagem. Quanta desinformação presta a imprensa velha aos seus leitores e telespectadores. Parabéns pela reportagem.

    1. Parabéns pelo texto. Quem dera ele chegasse a todos os pais conscientes para que eles avaliassem o conteúdo putrefato que chega à seus filhos. Eu sinto uma tristeza imensa ao ler matérias que demonizam o trabalho dos produtores rurais. Nasci no meio rural,viví ,até aqui ,todos os meus dias ganhando meu pão de cada dia com trabalho de orientação à produtores rurais. Eu sempre acompanhei e sentí com que carinho o homem do campo cuida de sua propriedade, do meio ambiente,etc… Ele sabe muito bem que se ” matar a galinha que põe ovos de ouro”, será ele próprio o mais prejudicado. A falta de conhecimentos nesta área por parte da maioria da população urbana,pode nos levar à fome. Lamentável!

  8. A ideologização vai aos pingos, bemmm devagarinho. Com acima de 80% da população bras. vivendo nas cidades, a absoluta maioria NÃO sabe o que realmente ocorre no campo. E livros enviesados, é um prato cheio…………

  9. Sensacional. Lúcido.
    Branca o excedente de agrotóxicos não usado no campo por cientificismo tem que ser jogado nos iluministros.

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