Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Que futuro têm os velhos?

De todas as minorias discriminadas, a mais discriminada de todas é essa que nem é tão minoria assim: a dos idosos

Houve uma época em que os prêmios literários eram o caminho mais rápido para um escritor se tornar conhecido e ganhar alguns trocados. Nos anos 1960 do século passado, havia dezenas deles. O mais famoso era o Walmap, patrocinado por um banco mineiro — o Nacional —, cuja história de amparo às artes se perdeu na poeira dos tempos. Eu mesmo concorri várias vezes a ele. Mas nunca fui além dos dez finalistas ou da menção honrosa — posições que me faziam bem ao ego, mas não me rendiam nem fama nem dinheiro.

A maioria dos ganhadores do Walmap, tal como o prêmio e o banco que o patrocinava, caiu no esquecimento. Eu, desiludido com a literatura, atravessei uma fronteira então considerada maldita e, assim, me estabeleci como escritor no território menos nobre da televisão, das telenovelas e, sejamos bem sinceros, do dinheiro. Mas… por que diabos estou a escrever sobre prêmios literários? Porque uma cláusula de um dos raros que ainda existem — o Prêmio Literário José Saramago — me remeteu ao tema que, após o “nariz de cera” logo acima, vou abordar nesse artigo: a discriminação aos idosos.

O prêmio em questão, cito, “distingue obras inéditas de ficção de autores da lusofonia até os 40 anos”. Se o escritor tiver até 40 anos, poderá concorrer e abiscoitar o interessante prêmio de € 40 mil. Mas, se tiver 41, por mais talentoso que seja, não terá permissão para isso. Pois, para efeito de criatividade e quaisquer outros, ao que tudo indica, já deverá ser considerado tecnicamente morto.

Claro que os promotores do Prêmio José Saramago dirão que não existe nenhuma intenção discriminatória nessa única cláusula restritiva, inclusive porque no corpo de jurados foram incluídas pessoas com mais de 70 anos — a romancista brasileira Nelida Piñon é uma delas… E eles estarão certos. Mas os escritores de mais de 40 insistirão em dizer que estão errados. E que essa cláusula restritiva é apenas uma forma elegante de discriminar os mais velhos. Afinal, José Saramago ganhou o Nobel de Literatura aos 76 anos… O que significa que, naquela época, ele já não estaria apto a concorrer ao prêmio que leva o seu nome.

A discriminação aos idosos não é só cruel, mas é também muito criativa

Por isso — e baseado na minha própria experiência, já que farei 79 anos no próximo mês de junho —, eu aqui afirmo: de todas as minorias discriminadas, a mais discriminada de todas é essa que nem é tão minoria assim (em alguns países chega a ser maioria): a dos idosos. Ou, para que a coisa toda pareça mais cruel: a dos coroas. Dos vovôs. Dos velhotes. Dos caquéticos. Atire-me a primeira pedra a pessoa idosa que nunca foi chamada de “desenterrado do cemitério”, “kakura”, “caduco”, “nojento”, “fedorento”… Ou muitos outros insultos desse tipo acrescentados ao prenome “velho”. Às vezes de um modo paternalista, ou quase “terno”. Outras, do único modo pelo qual deve ser reconhecido qualquer tipo de insulto: de forma cruel…

Sem falar na crueldade, que é bastante comum aqui na Europa, de encerrar os idosos nos chamados “lares”, onde eles ficam trancados, mas deixam seus bens lá fora para que os jovens da família ganhem o direito de usufruir deles da melhor maneira.

A discriminação aos idosos não é só cruel, mas é também muito criativa. Vou dar um exemplo: citei no parágrafo acima a palavra “kakura”. Percebi que, nos últimos tempos, muitos a utilizam quando querem me insultar nas redes sociais. Como não tinha a menor ideia do que significava, fui pesquisar e descobri que, primeiro, essa tal palavra não existe… Mas talvez tenha se derivado de “caqueira” — ou seja, é aplicável a alguém que, como eu, seja um “caco velho”.

Sim, provavelmente é de “caco” ou “caqueira” que a tal kakura saiu. Porém, embora a palavra não conste de nenhum dos dicionários mais sérios e menos consultados, para que se torne um insulto de maior peso, ela precisa ter uma explicação, digamos assim, mais “etimológica”. Por isso, num tal Dicionário Informal existente na internet, já há uma definição para “cacura”, ou “kakura”, e esta é: “Homossexual (masculino) de idade avançada, com mais de 40 anos, enrugado. Geralmente a expressão é usada para definir homens enrustidos e de mais idade”.

Mas tem mais: em outro Dicionário Informal na internet, kakura com K ganha um status ainda maior. Seria uma palavra saída de um misterioso dialeto africano no qual é usada para designar (pois é claro) “homossexuais velhos”. Assim, fica entronizada a expressão cruel no maravilhoso reino das palavras com histórico. E, diante de sua definição, não há como negar que, aos 79 anos, eu seja as duas coisas: “cacura” e “kakura”.

Esse é um exemplo de como a discriminação se oficializa e se autoafirma através do insulto puro e simples. Mas, em relação aos idosos, ela nem precisa seguir por esse caminho. Basta ver o papel a eles reservado na publicidade, por exemplo: aos velhos, o que se tenta vender são aparelhos de surdez, fraldas geriátricas, óculos capazes de dar aos olhos cansados a ilusão das cores da juventude, pós e unguentos para as dores próprias da idade, ou planos de saúde inacessíveis à maioria dos mal aposentados.

Se no terreno escorregadio da publicidade não existem meios-termos — ninguém é louco a ponto de tentar vender uma Ferrari envenenada a um ancião com problemas sérios de joelhos, ou um colar de refulgentes diamantes e esmeraldas a uma vovó engraçadinha cujo colo antes sedoso agora ficou engelhado —, no dia a dia, a indiferença e o desamor aos velhos e caquéticos por parte daqueles que se consideram “para sempre jovens” são ainda mais evidentes.

Para mim, não existe nada mais triste do que ver uma família reunida numa mesa de restaurante onde está uma pessoa idosa à qual ninguém dirige a palavra e que se limita a olhar em torno com olhos vagos, como se quem estivesse ali não fosse a pessoa que ela um dia fora, mas apenas o seu espectro. Diz-se cruelmente dessas pessoas que “já está com um pé na cova”. Ou então que “já morreu, apenas ainda não foi enterrada”.

Claro, a culpa disso tudo também é dos idosos, que aceitam a discriminação como irremediável ou um “bônus” da idade. Pois se há uma coisa que essa proporciona é o direito de fazer e dizer o que se quer sem medos nem remorsos. Assim, se alguém me perguntasse que conselho eu daria aos velhos, parodiando o conselho que certa vez Nelson Rodrigues deu aos jovens — “Envelheçam!” —, eu lhes diria: “Rejuvenesçam!” Deixem bem claro para a turma ignorante e preconceituosa que a experiência de vida é um bem precioso. Não renunciem a ele, nem se deixem expulsar do lugar que — até que a morte realmente os leve — por direito é de todos os velhos neste nosso mundo cada vez mais envelhecido e caquético.

Leia também “Excursão à alma de Paris”

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