Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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Carta ao Leitor

O assassinato de Celso Daniel, um mistério ocorrido há 20 anos, está entre os destaques desta edição

“Marcamos às 3 horas na casa do José Dirceu”, diz Gilberto Carvalho, secretário pessoal de Lula. “Vamos conversar um pouco sobre nossa tática da semana, né? Porque nós temos que ir para a contraofensiva”.

“Vou falar com meus advogados amanhã”, responde Marcos Roberto Bispo dos Santos, o Sombra, que jantara com Celso Daniel em 18 de janeiro de 2002, dia da morte do prefeito de Santo André. “Nossa ideia é colocar essa investigação sob suspeição.”

“Acho que é um bom caminho”, concorda Gilberto Carvalho.

O suspeitíssimo conteúdo das conversas telefônicas entre Gilberto Carvalho e o empresário conhecido como Sombra foi revelado pela TV Bandeirantes três anos depois do assassinato do companheiro já escolhido para coordenar a campanha presidencial de Lula.

O trecho faz parte de uma série de gravações que documentaram conversas entre os envolvidos no homicídio, todos decididos a sepultar o mistério. Na hipótese menos inquietante, comprovam que Altos Companheiros tentaram obstruir a ação da polícia e da Justiça quando o cadáver do prefeito de Santo André ainda esfriava na sepultura. O juiz João Carlos da Rocha Mattos mandou incinerar os áudios, por considerá-los ilegais. Pouco depois, Rocha Mattos foi preso e expulso da magistratura por vender sentenças.

Em Santo André, funcionava um esquema de corrupção similar ao de Campinas e Ribeirão Preto. Na época, Campinas tinha como prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, fuzilado em 10 de setembro de 2001. O fato ocupou pouco espaço nos jornais por ter ocorrido na véspera do atentado terrorista às Torres Gêmeas, no dia seguinte. O prefeito de Ribeirão Preto era Antonio Palocci, que sobreviveu e ocupou o lugar reservado a Celso Daniel na campanha presidencial.

“Não é exagero afirmar que o que acontecia nesses locais era um mensalão ou um petrolão em menor escala”, conta Silvio Navarro na reportagem de capa desta edição. “Empresários e petistas eram sócios numa espécie de consórcio, em que o principal objetivo era a repartição de uma montanha de dinheiro público, que também abasteceu os cofres eleitorais do partido.”

Autor do livro Celso Daniel: Política, Corrupção e Morte no Coração do PT, Navarro conta que, tanto o assassinato de Daniel quanto o de Toninho, foram tratados como crimes urbanos, cometidos por ladrões insignificantes, que terminaram na cadeia. As eventuais testemunhas morreram. Os mandantes nunca foram identificados. Parentes tentam ainda hoje provar que a morte de Celso Daniel foi decidida no momento em que o prefeito resolveu denunciar o esquema de corrupção. Irritado com a descoberta de que alguns cúmplices estavam desviando dinheiro para os próprios bolsos, ele pretendia contar tudo a José Dirceu.

O jornalista norte-americano Larry Rohter, ex-correspondente do New York Times no Brasil, qualifica a morte de Celso Daniel como “o sumo mistério político brasileiro do século 21”. Quem o matou e por quê?, pergunta Rohter. “Sempre sustentei que a verdadeira razão pela qual Lula tentou me expulsar em 2004 era que o PT sabia que eu estava investigando o caso”, suspeita o jornalista norte-americano. “Numa entrevista a mim, um dos irmãos do prefeito havia citado Gilberto Carvalho e José Dirceu, assessores íntimos de Lula, como chefes de um esquema de corrupção maciço de arrecadação de fundos. Isso bem antes do mensalão ou da Lava Jato”.

Há 20 anos anos o PT tenta enterrar o ex-prefeito de Santo André na vala das vítimas de crimes comuns. Agora, o partido tenta voltar ao poder conduzido pelo mesmo grupo que continuará a ser assombrado pelo fantasma de Celso Daniel.

PS: Augusto Nunes está de férias e volta a publicar seus artigos na edição de 28 de janeiro.

 

Boa leitura.

Branca Nunes
Diretora de Redação

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante ato na Avenida Paulista | Foto: Juca Varella/Agência Brasil
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