Carlos Sánchez Berzaín | Foto: Divulgação
Carlos Sánchez Berzaín | Foto: Divulgação

‘O confronto nas Américas, hoje, é entre ditadura e democracia’

Ex-ministro boliviano Carlos Sánchez Berzaín afirma que eventual vitória de Lula no Brasil seria comemorada pelo ‘castrochavismo’

Aos 62 anos, o boliviano Carlos Sánchez Berzaín é uma das vozes mais críticas e combativas ao Foro de São Paulo e ao fenômeno que classifica como “castrochavismo” na América Latina. Advogado especialista em Direito Constitucional, cientista político, mestre em Sociologia e diretor-executivo do Instituto Interamericano para a Democracia, Berzaín é exilado político nos Estados Unidos desde 2003. Ele sabe bem como um regime autoritário é capaz de cassar as liberdades de um povo, perseguir opositores e corroer as instituições democráticas. 

Antes de a Bolívia ser tomada pelo Movimento ao Socialismo (MAS), partido do líder cocaleiro Evo Morales, Berzaín comandou os ministérios da Presidência (1993-1994 e 2002-2003), do Governo (1994-1996 e 1997) e da Defesa (2003) durante o período do ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada (1993-1997 e 2002-2003). “A Bolívia é uma ditadura consolidada porque tem 65 presos políticos identificados pela Human Rights Watch. Tem mais de 2 mil exilados certificados pelas Nações Unidas”, afirma o ex-ministro, em entrevista a Oeste

Segundo Berzaín, a grande disputa política travada hoje nos países latino-americanos não é mais entre direita e esquerda. O antagonismo se dá entre democracia e ditadura, liberdade e autoritarismo, Estado de Direito e crime organizado. “O castrochavismo é uma organização de delinquência transnacional que estrutura Narcoestados e comete delitos em seus governos, exercendo poder por meio do terrorismo de Estado e crimes de lesa-humanidade, como se pode comprovar todos os dias em Cuba, Venezuela, Bolívia e Nicarágua”, diz. 

Nesta conversa com Oeste, Berzaín apresenta um panorama da periclitante situação política na América Latina. Ele atribui a eleição do socialista Gabriel Boric no Chile à enorme abstenção eleitoral, afirma que o governo peronista de Alberto Fernández e Cristina Kirchner “está levando a Argentina a uma crise cada vez mais grave” e diz que “o castrochavismo transnacional celebraria como uma vitória” o retorno do petista Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência do Brasil. 

Leis os principais trechos da entrevista.

Por decisão do Supremo Tribunal Federal, o ex-presidente Lula poderá concorrer nas eleições de outubro. O que representaria para a esquerda latino-americana o retorno do PT ao poder? 

No século 21, a confrontação nas Américas e no mundo não é mais entre direita e esquerda. Vivemos em um mundo avançado, capitalista, globalizado, em plena revolução tecnológica. A antiga bandeira da esquerda está sendo usada nas Américas para disfarçar expressões de delinquência organizada com o crime. O confronto nas Américas, hoje, é entre ditadura e democracia. Se Lula chegar novamente ao governo no Brasil, o que esperamos é que se alinhe às práticas democráticas e abandone o apoio que historicamente sempre deu aos modelos instituídos por Hugo Chávez e Fidel Castro, na Venezuela e em Cuba, para sustentar e expandir suas ditaduras através da corrupção. De qualquer forma, caso Lula volte ao poder, o que ainda é apenas uma hipótese, seguramente o que chamo de castrochavismo transnacional celebraria como uma vitória. 

O senhor diz que está em andamento no continente uma disputa entre o ‘castrochavismo’ e democracia. Lula e o PT são uma ameaça à democracia brasileira?

Para não ser uma ameaça à democracia, é preciso respeitar os elementos essenciais da democracia. É necessário respeitar os direitos humanos, o acesso ao poder e seu exercício com submissão ao Estado de Direito, a separação e independência entre os Poderes, eleições livres e limpas, além de livre organização política. O vigor institucional de um país tão grande como o Brasil é exatamente este: sua institucionalidade e sua democracia. Isso Lula não poderá alterar. Um governante democrático tem de saber que está cumprindo um mandato popular e que seu mandato é temporário. Nesse cenário, não vejo nem Lula nem ninguém no Brasil com capacidade para modificar isso, de causar uma ruptura. O que aconteceu com a esquerda brasileira, que já teve um momento de maior força no início deste século, foi cair no abismo da corrupção. 

Lula pode ter sido um grande dirigente sindical, mas sabe muito pouco de ciência política

Um eventual novo governo de Lula daria sobrevida às ditaduras na Venezuela, em Cuba e na Nicarágua?

Há dois exemplos de países com democracia que têm governos que apoiam frontalmente as ditaduras de Cuba, Venezuela, Bolívia e Nicarágua. São os chamados governos paraditatoriais: a Argentina, com a vice-presidente Cristina Kirchner, e o México, com o presidente López Obrador. O que fazem é colocar sua política externa a serviço dessas ditaduras. Defendem o reconhecimento da Venezuela nos organismos internacionais, conspiram contra os defensores da democracia, enviam recursos para as ditaduras a título de apoio humanitário. A Argentina e o México, em tese, poderiam ser um mau exemplo para um eventual governo de Lula. Mas, no caso de Lula, ainda é cedo para fazer prognósticos. Primeiro, é preciso ver se ele, de fato, vencerá a eleição no Brasil, o que ainda não aconteceu. 

Mapa da América Latina | Foto: Shutterstock

No ano passado, Lula comparou a ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua ao governo da ex-chanceler da Alemanha Angela Merkel. O que esse tipo de declaração revela?

Lula pode ter sido um grande dirigente sindical, mas sabe muito pouco de ciência política. A Alemanha tem um sistema parlamentarista. A Nicarágua tem um sistema presidencialista convertido em ditadura. O exemplo dado por Lula foi muito infeliz, mas essa grande imprudência cometida por pura ignorância serve ao menos para refletirmos sobre o sistema presidencialista, que é o mais apto para gerar ditaduras. Uma coisa que nós, latino-americanos, deveríamos fazer é estudar a mudança do sistema presidencialista para o parlamentarista. O poder e o mandato do líder eleito dependem do Parlamento. O primeiro-ministro pode ser retirado rapidamente do cargo sem que isso seja um golpe de Estado. Isso dá solidez tanto à institucionalidade política e democrática quanto à economia dos países. O sistema parlamentarista é muito mais estável. 

Recentemente, o Chile elegeu Gabriel Boric, um ex-líder estudantil de extrema esquerda, como presidente. A ameaça castrochavista agora paira sobre um país que parecia maduro politicamente?

O que aconteceu no Chile se deve, em grande medida, à abstenção eleitoral, que atingiu 50%. Isso apresenta uma das práticas habituais do chamado “socialismo do século 21”: construir maiorias absolutas a partir de minorias relativas. Quando se diz que Boric venceu com 55% dos votos válidos, nada mais é do que uma distorção da realidade. Na verdade, ele teve apenas 25% dos votos totais. Cerca de 75% dos chilenos não estão de acordo ou são indiferentes à chegada de Boric à Presidência, o que é um sinal de debilidade muito grande para o novo presidente. Ele terá de ser muito prudente em seu governo. O Chile é um país que tem força institucional. 

De que forma as vitórias da esquerda em outros países da região podem fortalecer ainda mais as ditaduras latino-americanas?

Novamente, não se pode fazer análises a partir da concepção de direita e esquerda. Esses são conceitos que estão superados ou, pelo menos, deformados no século 21. O que se entende hoje por direita e esquerda? É um conceito absolutamente volátil. O castrochavismo é uma organização de delinquência transnacional que estrutura Narcoestados e comete delitos em seus governos, exercendo poder por meio do terrorismo de Estado e crimes de lesa-humanidade, como se pode comprovar todos os dias em Cuba, Venezuela, Bolívia e Nicarágua. É algo bem diferente da esquerda democrática europeia, por exemplo. Portanto, não se trata de vitórias da esquerda na América Latina. São vitórias de candidatos financiados pelo castrochavismo e simulações de grandes vitórias a partir de manobras e desestabilização da democracia. 

A Argentina vive um momento político e econômico conturbado sob o comando dos peronistas, com a inflação ultrapassando 50% em 2021. É possível o ressurgimento de uma alternativa mais liberal nas próximas eleições do país?

A Argentina é uma democracia controlada por um governo castrochavista que tem o poder para garantir a impunidade de Cristina Kirchner. O presidente argentino representa a figura do títere escolhido para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner, como uma tentativa de melhorar sua imagem. Mas é um governo dividido que enfrenta dificuldades. As eleições legislativas mostraram a forte rejeição de parte do povo argentino a esse modelo. O atual governo está levando a Argentina a uma crise cada vez mais grave. Com o nível de sua classe média e a capacidade de mobilização que tem o povo argentino, é provável que na próxima eleição haja uma alternância democrática que permita uma mudança de rumos e a recuperação desse país tão importante. 

O sindicalista Pedro Castillo, no Peru, enfrenta uma série de problemas em seu governo, com a fragilidade de sua base parlamentar e ameaças de impeachment por corrupção. Na Bolívia, Luis Arce, discípulo de Evo Morales, também sofre críticas. Como está a situação política nesses dois países?

A Bolívia é uma ditadura que tomou o poder de assalto a partir de uma fraude extraordinária em outubro de 2020 e que até agora é encoberta. Mas essa fraude já está provada e denunciada em diferentes níveis. Na Bolívia, há cerca de 1 milhão e meio de eleitores fantasmas, e essa foi a maneira que o castrochavismo boliviano, que se denomina Movimento ao Socialismo (MAS), encontrou para se manter no poder e ganhar eleições a qualquer momento. A Bolívia é uma ditadura consolidada porque tem 65 presos políticos identificados pela Human Rights Watch. Tem mais de 2 mil exilados certificados pelas Nações Unidas. A situação do Peru é um pouco diferente, mas chegou ao poder um presidente castrochavista que está tratando de controlar o poder e o governo, mas tem muitas dificuldades. 

Uruguai e Equador são hoje governados por políticos mais à direita, com propostas liberais. Qual sua avaliação sobre os governos de Luis Lacalle Pou e Guillermo Lasso?

Uruguai e Equador são países democráticos. O Equador recuperou sua democracia graças à extraordinária gestão do ex-presidente Lenín Moreno, que fez um governo democrático. E o mesmo vale para o Uruguai. Em geral, com as peculiaridades de cada país e sua realidade interna, são gestões que estão em curso e poderão ser mais bem avaliadas à medida que avancem um pouco mais. 

Qual é a importância estratégica do Foro de São Paulo para o castrochavismo?

O Foro de São Paulo, desde sua fundação, é o instrumento de Cuba para expandir a multiplicação dos eixos de confrontação da região. Seus integrantes, como as Farc e outros bandos criminosos, mostram a natureza de um grupo que se apresenta como político, mas conspira todo o tempo contra as democracias. Na verdade, é uma organização operativa da ditadura de Cuba.

Leia também: “América vermelha”

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6 comentários Ver comentários

  1. Essa leniência com Lula, por conta do “paz e amor” do passado distante, parece uma tentativa de “domesticar” o animal feroz que ele é. Mentiroso, ladino, mas feroz. Ora, por favor! Vamos deixar de lado essa gentileza com ele e seu partido, e tratá-los como o que são: uma organização criminosa. O ideólogo deles (e do capeta) Zé Dirceu, sabe bem que tomar o poder aqui depende de luvas de pelica, senão, não vai… É isso que vão conseguir se o país eleger essa lepra, de novo.

  2. Parece que esse ex ministro boliviano conhece bem os políticos que frequentam a América Latina e o camaleão Lula, dando-lhe pouca importância se voltar ao governo. Mas é melhor evitar, ao menos para não termos nossas estatais arrasadas e o loteamento de cargos no Executivo.

  3. Diante da clareza e objetividade dos comentários do Dr. Carlos Sánchez Bersaín, todo brasileiro deve ficar em alerta máxima para as próximas eleições, além do concreto perigo do ladrão de nove dedos vir a ser eleito – sabe-se lá como -, mas o fato é que a fraude de eleições é, comprovadamente, uma das formas de se chegar ao poder. Os esquerdopatas não têm escrupulos nem carater, daí o perigo, pois não têm barreira moral. Quanto aos métodos de organizações criminosas utilizados, vemos aqui o STF , sutilmente, coibindo e mitigando ações policiais contra os narcotraficantes. Portanto, para o bem do POVO brasileiro, devemos reeleger o Presidente Bolsonaro.

  4. É o sonho de consumo desses criminosos a esquerda narcotraficante voltar ao poder no Brasil, mas, gostamos de liberdade, os gatos pingados eleitores do luladrão não conseguirão o intento de eleger novamente essa peste negra para nos atormentar. Bolsonaro neles até sumirem do Brasil.

  5. Precisamos reverter esse placar, pois se lula for eleito, a esquerda sul americana vai crescer e formar um bloco resistente e perigoso para as próximas gerações. Portanto, vamos reeleger Bolsonaro e ajudar o capitão na sua caminhada.

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