A situação do Hospital Estadual do Ipiranga em meio à pandemia

Um andar inteiro fechado sem explicações, um centro de triagem sem condições sanitárias e uma organização social contratada de emergência para substituir médicos que já existiam, tudo sob a ameaça do lockdown.
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Contêiner em que é feita a triagem de pacientes com sintomas de covid-19 no Hospital  Estadual do Ipiranga | 
Foto: Roberta Ramos / Revista Oeste
Contêiner em que é feita a triagem de pacientes com sintomas de covid-19 no Hospital Estadual do Ipiranga | Foto: Roberta Ramos / Revista Oeste

Um andar fechado sem explicações, um centro de triagem sem condições sanitárias e uma organização social contratada de emergência para substituir médicos que já existiam, tudo sob a ameaça de lockdown

Contêiner em que é feita a triagem de pacientes com sintomas de covid-19 no Hospital Estadual do Ipiranga | Foto: Roberta Ramos/Revista Oeste

Enquanto hospitais de campanha são erguidos com dinheiro público e entregues à administração privada, um andar inteiro do Hospital Estadual do Ipiranga, na Zona Sul de São Paulo, foi fechado. O quinto andar, que, segundo fontes de Oeste, está plenamente funcional, foi desativado sem explicações a nenhum dos médicos da instituição.

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Transferiu-se a clínica, que funcionava no terceiro andar, para o nono e, para surpresa da equipe, a Fundação do ABC, uma organização social (OS), assumiu parte da operação. Desde 27 de abril, 30 leitos para tratamento da covid-19, dez dos 17 leitos de UTI existentes no hospital e o novo centro de triagem de coronavírus, no interior de um contêiner [ver foto], foram entregues para a gestão da Fundação do ABC. “Não faltavam médicos no hospital; por isso não entendemos por que chamar uma OS para fazer os atendimentos”, questiona a fonte ouvida.

Leia também: “O ataque do Covidão”, reportagem da Edição 7 da Revista Oeste

A contratação da Fundação ABC por seis meses foi emergencial e custou ao erário R$ 1 milhão. De acordo com o interlocutor de Oeste, os salários pagos são superiores aos dos médicos que já estavam na instituição. Muitos profissionais foram orientados a ficar em casa, onerando ainda mais os custos da operação. A fundação contratada, aliás, “quarteiriza” o serviço a ela terceirizado. “Na semana passada, enviaram uma equipe de atendimento que não deu conta de tudo o que precisava ser feito. Nesta semana, já estavam outras pessoas no atendimento. Imagine como fica o paciente com isso tudo”, diz a fonte.

Fila de pacientes em pé, esperando a triagem | Foto: Roberta Ramos/Revista Oeste

Quem chega com sintomas de coronavírus precisa passar primeiro pelo centro de triagem montado pelo governo. Em visita ao local, a reportagem contou mais de 20 pessoas em pé, algumas com bastante dificuldade para respirar, jovens e idosos à espera de atendimento em três pequenas salas dentro de um contêiner mal ventilado, que deve ser acessado por uma ponte metálica. Apesar da espera em pé, o atendimento é rápido. Em aproximadamente 15 minutos, quase todos foram atendidos.

Nesse meio-tempo, uma idosa desmaiou ao entrar em uma das salas. Foi literalmente jogada em uma cadeira de rodas — não havia nenhuma maca disponível no local — e empurrada por um profissional para dentro do hospital.

Sem fornecer explicações, o segurança do hospital impediu a reportagem de visitar o quinto andar. Como Oeste tentara contato com a Secretaria Estadual de Saúde, a administração do Ipiranga foi informada previamente da presença de jornalistas no local e declarou que “visitas não eram aceitas no momento”.

Também se constatou que no hospital do Ipiranga falta álcool em gel para a higienização dos pacientes e funcionários, assim como não há sabão líquido para a lavagem das mãos dos profissionais da saúde.

Nota da Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo informou que “a equipe que atuava no hospital antes da pandemia continua sem prejuízo. O Hospital Ipiranga está empenhado no enfrentamento da pandemia do coronavírus, atendendo a todas as normatizações vigentes e decretos do Estado de São Paulo”.

Ainda de acordo com a nota, “o convênio com a Fundação ABC foi realizado atendendo a todas as determinações legais, com transparência e publicação no Diário Oficial [do Estado]”. O órgão também informa que houve necessidade de mudar o perfil do estabelecimento de hospital de cirurgia para clínico de alta gravidade. A respeito do fechamento do quinto andar, Oeste recebeu a informação de que “o local passa por readequação do espaço físico para atendimento a pacientes clínicos graves”.

Sobre o atendimento dentro de um contêiner, a Secretaria de Saúde declara que “além do ar condicionado existe exaustão e que segue as determinações do Grupo Técnico de Edificação da SES [Secretaria Estadual de Saúde] com validação pela CCIH [Comissão de Controle de Infecção Hospitalar] do Hospital Ipiranga. No que se refere às instalações, não há nada que esteja em desacordo com a segurança do atendimento aos pacientes, tanto com covid-19 como com as demais patologias”.

Hospitais de campanha

A cidade de São Paulo conta hoje com três hospitais de campanha — no Ibirapuera, no Pacaembu e no Anhembi.

O primeiro é de administração estadual e atende atualmente 146 pacientes. É administrado pela organização social Serviço Social da Construção Civil (Seconci), ao custo de R$ 10 milhões mensais.

Os outros dois são da prefeitura, o primeiro administrado pelo Hospital Israelita Albert Einstein e o segundo divide a administração entre o Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas) e a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM).

Sobre a unidade do Anhembi, o interlocutor de Oeste afirma que, “dos 1.500 leitos que o Iabas precisava entregar, se foram entregues 300 foi muito”. E acrescenta: “A SPDM também. Tinha de entregar os 500 restantes, para somar os 2 mil que são necessários. Deu apenas 300. Por isso que é tudo fechado e ninguém de fora pode entrar.”

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