Sem pacientes, hospitais privados amargam os efeitos da pandemia - Revista Oeste

Edição da semana

Em 14 set 2020, 18:00

Sem pacientes, hospitais privados amargam os efeitos da pandemia

14 set 2020, 18:00

Aumento de gastos com equipamentos e brusca diminuição de receitas por causa da covid-19 levam instituições a enxugar equipes 

setor hospitalar, pandemia, crise, demissões, cirurgias eletivas, procedimentos eletivos, anahp,

Pandemia colocou setor hospitalar privado na UTI | Foto: Luis Melendez/Unsplash

A chegada do novo coronavírus abarrotou as emergências e as unidades de terapia intensiva dos hospitais no Brasil. De acordo com dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), de março a junho deste ano, a procura pelas emergências subiu 600% no país. Paradoxalmente, a falta de pacientes tem preocupado o setor hospitalar.

Em razão da pandemia, cirurgias e outros procedimentos eletivos foram adiados para manter leitos disponíveis para pacientes com covid-19. Ainda que recebessem a indicação para realizar operações o mais rápido possível, pacientes por vezes postergaram os procedimentos, por medo de se infectar com o vírus chinês no ambiente hospitalar. No Hospital Albert Einstein, em São Paulo, a taxa de ocupação total caiu abaixo de 50% em alguns momentos, de acordo com Claudia Laselva, diretora de Operações, Enfermagem e Experiência do Paciente da instituição.

“Infelizmente, criou-se um pânico em todo mundo, e com isso morreu muita gente em casa sem atendimento. Ninguém quis ir para o hospital, como se fosse o pior lugar do mundo”, afirma Adnan Kadri, diretor do Hospital Independência, na zona leste de São Paulo. Kadri viu seu movimento cair 80% com a pandemia. O hospital, que conta com 80 leitos, realizava cerca de 14 procedimentos eletivos por dia antes da crise. Desde abril, esse número caiu para três ao dia. “Agora que está recuperando um pouco, mas para voltar ao que era antes vai demorar.”

O diretor de Governança Clínica do Hospital Sírio-Libanês, Fernando Ganem, conta que, no começo da pandemia, todos os procedimentos eletivos (os que não são de urgência) foram cancelados: “Cirurgias estéticas, check-ups, exames para avaliação cardiopulmonar para atletas, ou seja, nada que impactasse no prognóstico do paciente.” O Sírio manteve apenas o tratamento de doenças consideradas mais graves e que não poderia ser suspenso, como cardiopatias e câncer, por exemplo.

O diretor médico do Hospital Samaritano em São Paulo, João Paulo Ripardo, lembra que, num primeiro momento, o local ficou vazio. “Era o movimento ‘fica em casa’, e nós mesmos apoiamos isso, para diminuir o contágio [das pessoas] pela doença.”

Despesas em alta, receitas em queda

A debandada de pacientes afetou a saúde financeira dos hospitais. Segundo a agência Reuters, os procedimentos eletivos representam até 80% da receita de um hospital. Além de terem de lidar com a queda brusca de receita, os estabelecimentos de saúde gastaram mais durante o período.

As despesas chegaram a ultrapassar as receitas. Os insumos hospitalares aumentaram cerca de 300% e o consumo de equipamentos de proteção individual (EPIs) cresceu mais de 200%, de acordo com dados da Anahp. “Antes da pandemia, eu pagava R$ 0,21 por uma máscara cirúrgica tripla. Cheguei a pagar R$ 4 por uma de qualidade inferior. Por uma máscara tipo N95, pela qual eu pagava R$ 1,80, paguei R$ 17 a unidade nos primeiros meses da pandemia”, conta Kadri. Um aumento de quase 900%.

Redução de vagas e demissões no setor

O setor de saúde, o segundo que mais contrata no Brasil, reduziu o número de novas vagas em 37%, passando de 69.034 no primeiro semestre de 2019 para 43.158 neste ano, de acordo com a Anahp. Com resultados financeiros em queda, alguns hospitais precisaram reduzir o quadro de médicos e funcionários para não fechar as portas de vez. De março a agosto, o Hospital Independência demitiu 51 funcionários e reduziu em 30% o quadro de médicos. Além das demissões, outro efeito da crise foi o aumento da inadimplência de clientes atendidos sem plano de saúde, de forma particular. Segundo Kadri, a inadimplência, que girava em torno de 19% antes da pandemia, subiu para 44% no Hospital Independência, um expressivo aumento de 130%.

Desde o início da pandemia, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, registrou queda de 45% em suas receitas. Apesar de não efetuar demissões, ainda em maio o hospital cortou 25% do salário e da jornada de trabalho de 33% de seus 15 mil funcionários por três meses, até agosto.

Esperança de recuperação

 Com a estabilização da pandemia no país em razão dos avanços da medicina no controle da doença,  já é possível notar uma lenta retomada do setor. 

“Antes da pandemia, eu fazia cinco cirurgias e uma média de 30 consultas por semana”, disse um médico ouvido pela reportagem. “Agora estou com duas cirurgias por mês e oito consultas semanais. Não é muito, mas temos que recomeçar.”

No Hospital Sírio-Libanês, a retomada também é gradual. “Apenas ajudamos a detectar doenças graves e que não exponham o paciente ao risco de uma doença transmissível”, diz Ganem. “Já retomamos com endoscopias e colonoscopias, o núcleo de dor e as cirurgias eletivas em geral.”

Ripardo, diretor médico do Samaritano, afirma que, após o medo inicial da doença, veio a constatação de que a instituição teria de continuar a atender a todos os pacientes, não só os acometidos pelo coronavírus. “Percebemos que teríamos de criar áreas seguras para essas pessoas e assim fizemos”, enfatiza. “Porque elas continuaram a ter infartos, AVCs e, principalmente, continuam precisando tratar outras doenças com a mesma segurança.”

O que ninguém sabe dizer, porém, é quanto tempo os hospitais particulares vão demorar para marcar todos os procedimentos e cirurgias que ficaram represados por causa da pandemia. Até porque, por enquanto, nem sequer é possível precisar o número de pacientes que acabaram morrendo, por exemplo, por falta de atendimento adequado nesse período.  

 

TAGS

*O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais à equipe da publicação, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter

Colunistas

Vacinação sem vacina

Falar em obrigar a população inteira a se vacinar — com uma vacina que não existe — significa o quê? Um negócio da China?

Supremas diferenças

Ao compararmos o STF à Suprema Corte dos Estados Unidos, o choque é violento

A coerção e o coronavírus

A necessidade de restrições ocasionais não deve abalar os fundamentos do verdadeiro liberalismo, sustentado no “inovismo” e no “adultismo”

Uma nova doença: o vício em desculpas

Poucas figuras públicas têm a força de caráter para se recusar a pedir desculpas aos identitaristas, que gostam de desempenhar o papel de vítimas permanentes

Você não pode perder

Ciência, que é bom, nada

Ciência, que é bom, nada

"Desde o começo da epidemia a discussão vem sendo assim: política em primeiro lugar", afirma J.R. Guzzo...

A VOZ DAS REDES

Uma seleção de tuítes que nos permitem um olhar instigante do mundo, ajudam a pensar e divertem o espírito

LEIA MAIS

Oeste Notícias

R$ 19,90 por mês