"Temo mais a fome que o coronavírus”: a Índia à beira de uma crise humanitária - Revista Oeste

Em 29 mar 2020, 19:30

“Temo mais a fome que o coronavírus”: a Índia à beira de uma crise humanitária

29 mar 2020, 19:30

Estabelecimento da quarentena forçada no país asiático criou um grave problema social, já que milhões de indianos vivem e comem onde trabalham

Migrantes indianos | Foto: Instagram Arun Bothra

Milhões de trabalhadores migrantes nas cidades indianas vivem e comem onde trabalham. Diante disso, o fechamento dos negócios produziu um problema social, não apenas econômico.

Em uma das maiores migrações da história moderna da Índia, centenas de milhares de trabalhadores começaram longas jornadas a pé para chegar em casa, tendo sido desabrigados e desempregados pelo bloqueio nacional imposto pelo primeiro-ministro, Narendra Modi, para conter a disseminação do coronavírus no país.

Com as empresas fechadas nas cidades de toda a Índia, um grande número de migrantes consequentemente ficaram sem comida e abrigo.  “Você tem medo da doença, vivendo nas ruas. Mas temo mais a fome, não o coronavírus”,disse Papu, 32 anos, que veio a Delhi há três semanas para trabalhar e está tentando voltar para sua casa em Saharanpur, no estado de Uttar Pradesh, a 250 quilômetros de distância.

Enquanto dezenas de países em todo o mundo estão trancados para conter a propagação do vírus, em lugares lotados e empobrecidos como a Índia, muitos temem que as medidas possam provocar agitação social. Milhões de pessoas vivem em favelas indianas, e ficar em casa por três semanas – como Modi ordenou – é uma perspectiva assustadora nesses lugares. Motivo: dezenas de membros da família costumam dividir alguns quartos.

Trabalhadores migrantes protestaram contra o bloqueio na Índia, mas o governo central ordenou que os Estados fechassem suas fronteiras, obrigando que os migrantes fiquem onde estão.

Religião e comida

Normalmente, os desabrigados são alimentados pelas instituições religiosas da Índia: templos hindus, gurdwaras sikhs e mesquitas. Mas agora tudo está fechado e os abrigos estão sentindo a tensão. “A pressão aumentou drasticamente. As pessoas não podem andar pelas ruas e, se continuar assim, a situação vai explodir”, disse Nishu Tripathi, 29 anos, supervisor de uma cozinha aberta pela Safe Approach, uma organização não governamental com sede em Délhi. “Nunca vi tanto desespero”, disse Ricky Chandael, coordenador de outro abrigo. Um vídeo divulgado nas redes sociais da jornalista indiana Tabeenah Anjum mostra uma família caminhando em direção à vila de Etawah, que fica distante 364 quilômetros da cidade de Jaipur, de onde partiram.

O primeiro ministro disse que o bloqueio por três semanas é a única esperança da Índia evitar uma epidemia devastadora: 980 pessoas já testaram positivo para o coronavírus, 24 morreram.

Os supervisores de um abrigo para mulheres e crianças em Nizamuddin, um bairro no centro de Délhi, disseram que o governo fez doações de sabão pela primeira vez e que receberam ordens de ensinar sobre o vírus aos que procuravam abrigo e obrigá-los a lavar as mãos e tomar banho. “É difícil; eles não estão acostumados a lavar as mãos o tempo todo ”, disse Rajesh Kumar, supervisor.

Na internet é possível encontrar relatos e fotos do caos social que a Índia enfrenta, com a hashtag: #MigrantsOnTheRoad, que significa “Migrantes Na Estrada”, os internautas compartilham histórias e críticas ao governo. “Esta é a situação em um posto de controle em Andhra Pradesh, estado indiano. Quase 2 mil pessoas foram paradas desde a noite passada…”

“Cenas na Delhi. Possivelmente, estamos vendo a maior migração humana da história a pé após a partição. Sem comida | Sem água | Pobre sofrimento.”

“Milhares no terminal rodoviário de Anand Vihar. Um bloqueio de 21 dias muito bem planejado. Estamos condenados!”

Além de uma pandemia, o mundo pode estar prestes a assistir uma crise humanitária.

Fonte: The New York Times

 

 

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3 Comentários

  1. A outra face da quarentena. Não irá demorar para o caos se instalar aqui no Brasil também. ótima matéria.

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  2. Uma crise humanitária, tudo indica, “fabricada”

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  3. As soluções não são fáceis e nem sei se são soluções. O Brasil não é a Índia que não é os EUA ou a Alemanha. O que se observa até aqui é que só a quarentena pode diminuir o número de infectados e de mortos; cabe a cada governo aplicá-la segundo a realidade de cada país e, na minha opinião que não passa da minha opinião mesmo, é que a vida deve ser sempre preservada. Para ter fome ou perder o emprego, é preciso estar vivo. Só acho.

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