Uma nova doença: o vício em desculpas - Revista Oeste

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Uma nova doença: o vício em desculpas
Poucas figuras públicas têm a força de caráter para se recusar a pedir desculpas aos identitaristas, que gostam de desempenhar o papel de vítimas permanentes
9 out 2020, 14:23

Não dá para inventar isso! Vejamos o caso de Matthew J. Mayhew, professor de uma universidade norte-americana. Recentemente, ele escreveu um artigo que afirmava que o futebol norte-americano universitário poderia reunificar os Estados Unidos. Uma semana depois que o Inside Higher Ed publicou o artigo sobre seu amor pelo esporte, o professor redigiu um pedido de desculpas nauseante e bajulador pedindo perdão pela dor que pudesse ter proporcionado às minorias. “Sinto muito pela ofensa, tristeza, frustração, pelo esgotamento, pela exaustão e pela dor que esse artigo causou a qualquer pessoa — especificamente, aos estudantes negros no ensino superior e além”, ele escreveu.

Caso você esteja se perguntando o que havia de tão horrível e grave no artigo original de Mayhew que exigiu um pedido de desculpas tão atormentado, tudo o que ele disse foi que amava o futebol norte-americano e acreditava que o esporte oferecia “uma plataforma para fazer declarações sobre questões consideradas importantes” incluindo “igualdade racial” e “brutalidade policial”. Nos Estados Unidos de hoje, um professor branco não pode escrever sobre raça, esse privilégio é reservado às minorias raciais. O pobre Mayhew enfrentou críticas por, como ele diz, suas “palavras descuidadas e mal informadas” que “muitas vezes expressam uma ideologia forjada na branquitude e no privilégio”.

Existem três aspectos no pedido de desculpas de Mayhew que o torna de fato impressionante. Primeiro, ele não disse nada que nenhum ser humano normal pudesse considerar questionável. Estava apenas usando o esporte para fazer um apelo por união racial. Em segundo lugar, as desculpas foram transmitidas por meio de uma linguagem que parecia de um prisioneiro torturado fazendo uma confissão em um julgamento de fachada maoista. “Estou me esforçando para encontrar as palavras para comunicar a dor profunda pelo mal que causei”, ele declarou. Como um graduando de um campo de reeducação maoista, ele promete realizar uma reforma de seus pensamentos. “Estou elaborando um plano para mudar, para transformar o ‘sinto muito’ em ‘vou mudar’”, escreveu. Em terceiro lugar, as desculpas foram pedidas com uma rapidez incrível. Mayhew tinha acabado de escrever sobre suas opiniões convictas sobre o futebol norte-americano quando publicou um pedido de desculpas por elas e abraçou crenças ainda mais convictas que contradiziam as afirmações anteriores!

A performance de Mayhew de auto-humilhação não é incomum hoje em dia. No mundo anglo-saxão, um pedido de desculpas se tornou um ritual de autodepreciação encenado com regularidade em resposta à acusação de que algo que você disse, escreveu ou vestiu é racista. Literalmente qualquer atividade, passatempo ou ponto de vista — não importa quão banal — agora pode ser considerado racista. Em uma época em que as políticas identitárias dominam a cultura, a reação comum a tal denúncia é a performance do mea-culpa.

Um jogador de futebol norte-americano foi cortado do time por algo dito por sua esposa

Parei de contar o número de pedidos de desculpas feitos por políticos e figuras públicas este ano. Desde o surto da onda atual dos protestos do movimento Black Lives Matter, o pedido de desculpas público se tornou quase reação rotineira à mera insinuação de que você deve se ajoelhar e implorar. Existem muito poucos políticos ou celebridades que têm a coragem de rejeitar a exigência de um pedido de desculpas. Em geral, quando alguém é criticado por sua linguagem ou seu comportamento, logo se segue a súplica pelo perdão. No clima atual, basicamente qualquer gesto ou declaração pode ser rotulado não só como insensível, mas como racista. Pobre Karol G., a cantora de reggaeton que, em resposta aos protestos que se seguiram à morte de George Floyd, tuitou uma imagem — já deletada — de um cachorro preto e branco com a legenda “o exemplo perfeito de que preto e branco JUNTOS ficam lindos” com a hashtag #BlackLivesMatter. Depois de ser denunciada e ridicularizada, Karol G. divulgou um pedido de desculpas imediato. “Quero deixar claro que minhas intenções estavam corretas na foto que postei antes. Eu quis dizer que o racismo é terrível e que não sou capaz de entender isso”, ela declarou.

Como Rachel Yang escreveu recentemente na revista Entertainment, “2020 provou ser um ano imprevisível, para dizer o mínimo, mas uma coisa com que podemos sempre contar é que celebridades precisem publicar pedidos de desculpas por seu comportamento”.

Seguindo a prática dos campos de reeducação maoistas, um pedido de desculpas muitas vezes não é suficiente. Assim que as desculpas são divulgadas, surgem outras exigências por contrição. Vejamos o caso do jogador de futebol norte-americano do LA Galaxy Aleksander Katai. O clube o obrigou a apresentar um pedido de desculpas não por algo que ele fez, mas porque sua esposa, Tea, postou uma declaração chamando os manifestantes de “gado nojento”! Pobre Katai. Ele se ajoelhou e prometeu que tanto ele quanto sua família “tomariam as providências necessárias para aprender, entender, ouvir e apoiar a comunidade negra”. Contudo, nem mesmo esse ato de auto-humilhação o ajudou. Ele foi cortado do time por algo dito por sua esposa.

Tornou-se lugar-comum para ativistas e intelectuais sentirem-se ostensivamente ofendidos

As desculpas se tornaram uma arma crucial no arsenal da política identitária. Os identitaristas gostam de desempenhar o papel de vítimas permanentes. Sua autoridade moral deriva de seu suposto sofrimento. É por isso que estão continuamente em busca de comentários, gestos e comportamentos ofensivos. Nas décadas recentes, a régua para o que constitui esse dano está cada vez mais baixa, a ponto de até o comentário mais inocente poder voltar para puxar o seu tapete. A exigência agora meramente formal por um pedido de desculpas deveria ser interpretada como uma afirmação de que, “na condição de vítima da sua ofensa, eu sou moralmente superior a você”.

A transformação das desculpas em uma arma decolou na década de 1980. Eis a reflexão do comentarista norte-americano Jonathan Rauch:

“Nos anos 1980 começou a se tornar lugar-comum para ativistas e intelectuais sentirem-se ostensivamente ofendidos. Aqui, ali, em toda parte, eles se ofenderam. As pessoas começaram a exigir desculpas públicas quando ficavam ofendidas. Grupos organizados — ativistas gays, por exemplo — começaram a inspecionar os veículos impressos e as ondas de rádio e TV em busca de declarações ofensivas e prontamente exigir desculpas e retratações quando encontravam motivo para reclamar”.

Como resultado de uma campanha política, a proteção de ser ofendido adquiriu o status de direito.

Hoje em dia, o grande problema de fato não é a transformação das desculpas em arma, mas a reação a isso. Existem muito poucas figuras públicas que têm a força de caráter para defender suas palavras e se recusar a pedir desculpas. O vício da sociedade ocidental em desculpas públicas é um reflexo do fato de que sua elite política e cultural não acredita em si mesma ou, pelo menos, não sabe no que acredita. A rapidez com que indivíduos pedem desculpas por declarações feitas algumas horas antes revela tanto  ausência de convicção firme e covardia moral. Esses atos de covardia moral alimentam ainda mais a proliferação das desculpas públicas.

Houve um tempo em que um pedido de desculpas representava um compromisso positivo com o arrependimento. Hoje em dia as desculpas são a reação a um ultimato público. Elas quase nunca resultam de um ato de reflexão. Essas desculpas em geral sinalizam uma disponibilidade de ser humilhado e ser tratado como alguém que não é digno de ser levado a sério. Infelizmente, quando tantas figuras públicas encenam esse ritual das desculpas, elas encorajam outras pessoas, incluindo os jovens, a considerar sua cultura e suas instituições uma fonte de vergonha, em vez de orgulho.

Em vez de pedir desculpas, precisamos defender aquilo em que acreditamos. Nossas ideias são importantes demais para ser descartadas diante da simples sugestão de que alguém possa considerá-las ofensivas.

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Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra. Colunista da Spiked, é autor de livros considerados clássicos sobre temas como medo, paranoia e guerra cultural, como How Fear Works (2018) e First World War — Still No End in Sight (2016). Seu último livro, Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries, foi lançado em julho pela Routledge.

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4 Comentários

  1. Os métodos dos ativistas correspondem integralmente aos métodos da Juventude Hitlerista. Precisa dizer algo mais? Por fim, essa insanidade perdurará enquanto abaixarmos a cabeça e aceitarmos tais imposições. Basta parar de responder e não pedir desculpas. Simples assim. Se vierem para o confronto, que seja. Não devemos procurar o conflito, mas não podemos fugir dele sob pena de humilhação e submissão.

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  2. Fantástico!!! Para aplaudir de pé. ???????????? Que tenhamos a coragem de defender aquilo em que acreditamos em vez de pedir desculpas pra militância.

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  3. Ótima reflexão!
    Espero ansiosamente pela tradução dos livros do Frank Furedi.

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  4. Fico impressionada de ver essas pessoas se vergarem a uma minoria, como bem foi dito, vitimista e cada vez mais exigente, temos que dar um basta nisso.

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