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Cultura

Uma baleia em busca de um arpão

A interpretação de Brendan Fraser nos faz enxergar além de sua aparência

A Baleia (2022) foi uma peça de teatro de Samuel D Hunter adaptada por ele mesmo para o cinema e dirigida por Darren Aronofsky. Aronofsky já dirigiu filmes estranhos sobre decadência e enlouquecimento, como Réquiem Para um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010).

Em A Baleia vemos Brendan Fraser com uma maquiagem que dá a impressão que ele pesa provavelmente mais de 150 quilos. Charlie não consegue caminhar mais. Ele se arrasta com um andador a apanha as coisas do chão com uma mão mecânica. Sua pressão arterial está no teto, seu coração é uma capa de gordura. E ele continua pedindo pizza no Gambino e guardando um estoque de chocolate na gaveta.

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Charlie dá aula de redação à distância para um grupo de alunos entediados. Mas mantém a câmera de seu computador desligada, alegando um “defeito técnico”. Ele é um ótimo professor, motivador, que pede aos alunos que contem suas verdades. Mas não liga a câmera. O título não é apenas uma referência ao seu tamanho. Charlie tem uma obsessão pelo romance Moby Dick, de Herman Melville. E só saberemos a razão disso no final.

O filme praticamente inteiro é passado na sala de Charlie, o que reforça a impressão de teatro filmado. Poucas pessoas entram na sua vida. Uma é Liz (Hong Chau), uma enfermeira possessiva e controladora, mas que gosta de Charlie de verdade. Outra é Ellie (Sadie Sink) sua filha adolescente que deve ter vindo diretamente do inferno. Temos também Thomas (Ty Simpkins), o pregador de uma seita – a parte mais fraca do filme.

O tempo todo vemos que o corpanzil de Charlie é apenas um formato para sua alma iluminada. Ele é bom com todos que conhece, vê sempre o melhor lado de cada um. O peso que carrega é fruto de culpas do passado com as quais não consegue lidar.

Filmes não devem ser comparados. Mas é interessante assistir A Baleia em seguida ao badalado A Substância, outra história de corpos distorcidos. O filme com Demi Moore desfila um monte de gente com as quais não nos conectamos até o patético fim patético. Em A Baleia, Brendan Fraser dá um show. Sua aparência é quase um detalhe. Torcemos por ele, mesmo sabendo que essa torcida provavelmente não vai adiantar.

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