Copa sem Firula

A Espanha é como o Brasil de 1970, sem o mesmo talento

Eugenio Goussinsky Eugenio Goussinsky
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A Espanha é como o Brasil de 1970, sem o mesmo talento

Oyarzábal inicia a marcação desde o ataque na seleção Espanha | Foto: Reprodução/Federação Espanhola

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A Copa do Mundo costuma ser um modelo tático para o futebol nos quatro anos posteriores. A expectativa é a de que a seleção espanhola seja uma das protagonistas da Copa do Mundo de 2026, que se inicia nesta quinta-feira, 11. Seu esquema, porém, ajuda a evidenciar como era avançado o sistema da Seleção Brasileira tricampeã na Copa de 1970.

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O técnico do Brasil na época, Zagallo, com suas falas eloquentes, costumava dizer que aquele time jogava com três tipos de marcação: pressão, meia-pressão, campo todo pressão. Esses conceitos são a base de qualquer esquema tático. Regem o ritmo e o posicionamento dos jogadores.

Se o time estiver entrosado, cada um vai saber o que fazer diante de cada uma dessas situações. Na música sinfônica, seria como uma partitura a indicar a fórmula do compasso, se é dois por quatro, quatro por quatro, etc…

Na vitória por 3 a 1 sobre o Peru, nesta segunda-feira, 8, em Puebla, México, a Espanha encantou por seu toque de bola e posicionamento. E nem contava com Lamine Yamal e Nico Williams nas pontas. Mesmo assim teve uma movimentação na qual os jogadores ocupavam todos os setores, avançando e recuando em blocos.

Há muitas similaridades com os esquemas do Brasil na Copa de 1970. A diferença é que a Seleção Brasileira potencializou ainda mais essas táticas por causa do enorme talento de seus jogadores, ainda maior do que os da Espanha.

É impressionante a facilidade e a sincronia com que joga o meio-campo espanhol: Fábian Ruiz, mais pela direita, Rodri, no centro e Pedri, mais pela esquerda, dão a impressão de que cada um joga por três.

Essa verdadeira ilusão de ótica tem sentido: tocam tão rápido, com tanta proximidade um para o outro, que passa a noção de que a jogada é individual, tamanha é a solidez do coletivo.

Mas eles, sob o comando do técnico Luis de la Fuente, variam este tipo de pressão, com uma movimentação similar à da Seleção Brasileira de 1970. De la Fuente é um visionário por também conhecer o passado.

O atacante Oyarzábal inicia a marcação lá na frente, acompanhado dos dois meias. Rodri também se aproxima. Assim como os laterais e os zagueiros, nesta marcação que Zagallo chamaria de campo todo pressão. A partir daí, há a variação para a meia-pressão e a pressão. Até a postura dos laterais é similar, principalmente na esquerda: as funções de Cucurella e de Everaldo se parecem. Ambos dão suporte aos avanços do meio-campo e só vão ao ataque em jogadas cruciais.

Brasil em 1970, antes da Espanha

A pressão é marcar o adversário de perto na região da bola, tentando dificultar a jogada e forçar o erro. A meia-pressão é recuar um pouco, não atacar o portador da bola de forma agressiva, mas fechando espaços e linhas de passe, esperando o momento certo para dar o bote.

Campo todo pressão é mais abrangente do que a pressão: todos os jogadores participam da marcação em qualquer setor do campo. Quando o adversário tem a bola, a equipe inteira avança para pressionar, inclusive atacantes e meias.

Foi o que o Brasil fez, por exemplo, no quarto gol contra a Itália, em 1970. Tostão ajudou o meio, Everaldo marcou o avanço e tocou para Gérson que tocou para Clodoaldo. O resto, é conhecido, e gerou o quarto gol.

Antes, a Seleção Brasileira já havia, em outros jogos, feito a marcação por pressão. Por exemplo, na estreia, depois de sofrer o primeiro gol, contra a Tchecoslováquia. A equipe aumentou a intensidade. Jairzinho, Tostão e Pelé passaram a atacar mais rapidamente a saída de bola tcheca.

Não era uma pressão do time inteiro no campo todo, mas uma tentativa de recuperar a posse logo depois da perda, especialmente no campo adversário. Empatou com gol de falta de Rivellino. E no segundo tempo, explorou os avanços dos meio-campistas tchecos. Pelé e Jairzinho marcaram gols, depois de lançamentos de Gérson.

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No jogo seguinte, contra a Inglaterra, então campeã mundial, a ousadia ganhou um pouco mais de cautela. O adversário, afinal, tinha jogadores criativos, como Bobby Charlton, e vigorosos, como Alan Ball. O Brasil, então, entrou com uma meia-pressão.

A Seleção Brasileira passou boa parte do jogo sem pressionar os zagueiros ingleses na saída de bola. Tostão e Pelé fechavam espaços, enquanto Gérson, Clodoaldo e Rivellino protegiam o meio-campo. A ideia era impedir a progressão inglesa e recuperar a bola numa zona intermediária para contra-atacar.

Contra a fechada defesa inglesa, a jogada individual de Tostão, que tocou na área para Pelé acionar Jairzinho, foi determinante. O jogo foi uma disputa de estratégias. O cronista Armando Nogueira, que estava no estádio, descreveu a partida como a melhor da história do futebol.