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O camaleão Carlo Ancelotti

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O camaleão Carlo Ancelotti

Carlo Ancelotti assumiu a Seleção Brasileira em maio de 2025 | Foto: Rafael Ribeiro/CBF

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Mateus Conte, Oeste Esporte

Em 1995, os torcedores do clube italiano Parma tinham motivos de sobra para comemorar. O time acabara de conquistar a Copa da Uefa e consolidava-se como uma das forças emergentes do país. Naqueles dias, a imprensa local passou a noticiar uma negociação capaz de animá-los ainda mais: Roberto Baggio, vencedor da Bola de Ouro dois anos antes e vice-campeão do mundo pela Itália em 1994, havia chegado a um acordo com a diretoria para defender os Ducali.

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Ele nunca vestiu a camisa do Parma. O responsável pelo veto foi o treinador da equipe, um técnico ainda em começo de carreira chamado Carlo Ancelotti. O problema não era financeiro, disciplinar nem pessoal. Baggio queria jogar como trequartista, atrás dos atacantes; Ancelotti, discípulo de Arrigo Sacchi, enxergava o futebol a partir de um rígido 4-4-2. No Milan, onde fora jogador do treinador que revolucionou o futebol italiano dos anos 1980, aprendera uma ideia inegociável: o sistema vinha antes do talento individual. Se um jogador não se encaixava naquele esquema, cabia ao jogador adaptar-se a ele, não o contrário. A vontade de Ancelotti prevaleceu, e Baggio transferiu-se para o Milan, onde venceria o Campeonato Italiano naquele mesmo ano.

A lógica aprendida com Sacchi ainda o acompanharia por algum tempo. No entanto, quando assumiu a Juventus, Ancelotti encontrou um problema semelhante, mas em escala ainda maior: Zinedine Zidane. Se insistisse no antigo raciocínio, teria de pedir ao francês que se adaptasse ao esquema que considerava ideal. Mas fez o contrário: alterou o esquema, reorganizou a equipe e construiu um time ao redor de Zidane. Naquele momento, ele começou a abandonar a ideia de que grandes jogadores deveriam servir ao sistema e passou a construir sistemas capazes de servir aos grandes jogadores. Anos depois, ao revisitar aquela fase da carreira, chegaria a chamar sua antiga devoção tática de “fanatismo”.

A transformação não ficou restrita à prancheta. Ao longo da carreira, o treinador passou a lidar com jogadores da mesma forma que reorganizava seus times: adaptando-se ao que tinha nas mãos.

No Milan, encontrou um elenco repleto de lideranças estabelecidas. Paolo Maldini era o capitão, principal referência do grupo e um jogador cuja autoridade antecedia a chegada do treinador. Ancelotti não tentou substituir essa hierarquia; trabalhou com ela. Depois das vitórias, os dois tinham um ritual simples: um abraço antes de seguirem para o vestiário. Anos mais tarde, Maldini resumiria Ancelotti numa definição improvável: um “comediante”.

O humor, aliás, tornou-se uma ferramenta recorrente. No Chelsea, o auxiliar Ray Wilkins contava que o italiano estava sempre fazendo piadas no centro de treinamento, enquanto o centroavante Didier Drogba lembraria daqueles meses como um período em que o elenco trabalhava sorrindo. No Real Madrid, o treinador gostava de brincar até com Cristiano Ronaldo. Certa vez, avisou ao português que ele ficaria fora da partida do dia seguinte. Cristiano ficou perplexo; era apenas uma piada.

A melhor medida de sua relação com jogadores aparece em momentos menos leves. Quando o brasileiro Emerson chegou ao Milan, em 2007, sofreu uma lesão na tíbia e viveu meses difíceis. Em uma partida, pediu para ser substituído ainda no primeiro tempo e, constrangido, desculpou-se com o treinador. Ancelotti o abraçou. “Fica tranquilo”, respondeu. “Cuida dessa perna. Quando você estiver bem, vou estar te esperando.”

Esse tipo de episódio ajuda a entender por que tantos jogadores descrevem Ancelotti de maneira diferente da maioria dos treinadores com quem trabalharam. Kaká o considera um dos técnicos que melhor soube gerir pessoas. Amoroso resume uma de suas principais qualidades de forma direta: preservar o talento do atleta.

No Real Madrid, Ancelotti encontraria a versão mais extrema do problema que aprendera a administrar ao longo da carreira: liderar sem disputar espaço com as estrelas. Cristiano Ronaldo tinha a força de um clube dentro do clube; Luka Modrić, Toni Kroos, Sergio Ramos e Karim Benzema formavam um vestiário habituado à pressão permanente e à obrigação de vencer. Em vez de disputar protagonismo com jogadores desse tamanho, o italiano preferiu outro caminho: aproximar-se.

Essa característica ajuda a explicar um dos paradoxos da carreira de Ancelotti. Diferentemente de técnicos como Guardiola, Klopp ou do próprio Sacchi, ele nunca criou uma escola reconhecível nem um sistema associado ao próprio nome. Seus times mudaram demais ao longo dos anos para caber numa fórmula única. “Ele é um camaleão”, resume Leonardo, campeão do mundo em 1994, que trabalhou com Ancelotti no Milan e no Paris Saint-Germain, à BBC. “Aonde vai, ele se adapta às pessoas, à equipe, aos jogadores. Ele é campeão mundial neste aspecto.”

O teste máximo para Ancelotti

A definição ajuda a entender por que seus times raramente se parecem entre si e por que, mesmo sem uma revolução tática associada ao próprio nome, Ancelotti se tornou um dos técnicos mais vencedores do futebol. Também explica por que a Seleção Brasileira representa o teste máximo para sua capacidade de adaptação. 

Foi esse treinador que desembarcou no Brasil. Desta vez, porém, Ancelotti teria de trabalhar num ambiente sem a ferramenta que sempre teve à disposição nos clubes: o tempo. Restavam poucos jogos antes da Copa do Mundo e uma seleção ainda tentando se encontrar.

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A dificuldade era inédita. Durante décadas, Ancelotti construiu sua reputação em clubes onde tinha semanas, meses e temporadas inteiras para moldar relações, corrigir problemas e compreender jogadores. Na seleção, a lógica era outra: poucos treinos, grupos fragmentados e um calendário comprimido pela proximidade da Copa do Mundo.

Em vez de tentar reproduzir a rotina dos clubes, o treinador passou a trabalhar por concentração. Em março deste ano, por exemplo, dedicou parte dos treinamentos a cobranças de pênaltis, num esforço para aproveitar sessões que duravam apenas alguns dias. “Talvez eu precisasse disso depois de tantos anos treinando jogo após jogo”, disse à emissora TNT Sports. “Tenho mais tranquilidade agora, mais foco na minha equipe.”

Antes de qualquer ajuste tático, Ancelotti começou pelo idioma. Passou a estudar português com aulas particulares e surpreendeu até o professor Roberto Piantino ao pedir encontros extras aos sábados. Em uma das aulas, Piantino preparara uma explicação sobre verbos no imperativo. Ancelotti interrompeu. “Não uso imperativos”, disse. “Não é meu estilo.” A frase parece pequena, mas traduz a transformação do treinador. O Ancelotti que, no Parma, acreditava que jogadores deveriam se adaptar ao sistema parecia agora interessado em compreender antes de impor.

Na seleção brasileira, o método reaparece. Casemiro, com quem Ancelotti trabalhou por anos no Real Madrid, revelou em entrevista ao ex-zagueiro Rio Ferdinand um episódio do jogo contra o Paraguai, decisivo para a classificação à Copa do Mundo. No intervalo, o vestiário estava tomado por conversas simultâneas. Ancelotti interrompeu o falatório, pediu alguns minutos, saiu para fumar um cigarro e voltou pouco depois para falar com o elenco. “Depois, ele voltou, falou e todos perceberam: ‘Ok, esse cara é diferente’”, recordou.

A convocação de Neymar é o exemplo mais visível dessa lógica. Aos 33 anos, o atacante chegou cercado por questões físicas, lesões e um debate interminável sobre seu lugar na seleção. Ancelotti fez uma aposta: se Neymar ainda fosse capaz de decidir jogos, caberia à comissão encontrar uma forma de recuperá-lo e integrá-lo.

Desde que assumiu, o treinador deixou claro que pretendia contar com o atacante na Copa do Mundo, desde que reunisse condições para isso. Não era uma homenagem a um ídolo nem apego ao passado recente da seleção. O raciocínio é pragmático: jogadores extraordinários não se descartam sem tentativa. No Brasil, diante de um craque fisicamente vulnerável, mas ainda capaz de desequilibrar partidas, Ancelotti volta ao mesmo desafio: aproveitar ao máximo o que ainda existia de extraordinário.

Entre Baggio e Neymar passaram-se três décadas, mais de 30 títulos, centenas de jogadores e alguns dos vestiários mais pressionados do futebol mundial. A pergunta mudou junto com o treinador: como extrair o melhor do que se tem nas mãos — e no campo.