Reconheço que já fui um católico melhor do que sou hoje. Já fui mais assíduo em paróquias e, no bom sentido de “gastar”, gastei a minha juventude na igreja, na conhecida renovação carismática. Posso dizer que, ao lado da influência de meus avós e minha mãe, sobre meu caráter, o grupo de oração que passei quase sete anos de minha vida foi um dos pilares mais importantes de minha formação moral.
Fui ao grupo de oração pela primeira vez incentivado por aquilo que empurra 99% dos garotos à Igreja: meninas. A moça que eu gostava na época, amiga de classe, estava participando do grupo católico e, sem muitas dificuldades, ela e meus hormônios me convenceram a ir ao encontro. Não sabia, mas estava entrando numa arapuca santa; quando cheguei na capela onde acontecia o grupo de jovens da Paróquia Espirito Santo de São José dos Campos, lembro-me de pensar que aquilo era uma espécie de palestra, tal como acontecia na escola. Um casal estava à frente, a mulher falava enquanto o marido complementava com comentários esparsos; falavam do amor de Deus, o que, até então, não era um assunto que me atraia. Eu claramente estava atrás da garota; lembro-me, no entanto, que não a achei num primeiro instante, eram 60 adolescentes aglomerados a assistir à exposição.
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Aos poucos, a oratória dos pregadores foi me pegando. Falavam da conhecida e batida história da perseguição, condenação, flagelo e morte de Cristo, seguido da ressureição. Quando percebi, estava sentado num dos bancos e passei a ouvir e me envolver na “palestra”. Eles pregavam não um Deus que morreu “pela humanidade”, por “nossos pecados”, eles individualizavam a mensagem. Cristo havia morrido pelos “meus pecados”, não pela humanidade amorfa, sem nome, mas pelo Pedro. Eu, que desde cedo cresci com o bordão do meu avô: “homem não chora, homem resolve”, na altura dos meus 15 anos estava eu chorando ao lado da menina que queria conquistar ‒ ela havia me achado e sequer tinha percebido. Quando terminou a pregação, percebi que tinha ficado pela menina, sim, mas também por Jesus. Aquele dia mudou tudo.
A pregação me pegou de forma mais profunda e filosófica do que consegui descrever acima, pois sempre foi um cético. E não purpurino isso, não acho um traço distintivo digno de muitos louros; em muitas ocasiões isso me afetou negativamente. Mas fato é que, até aquela metanoia, eu era católico na medida em que os costumes me inclinavam; lembro-me de pensar em algumas ocasiões — e até mesmo oralizar isso em outras: “Eu acredito que Jesus tenha vivido como homem histórico, que os relatos bíblicos contém certa forma de verdades, mas não sei se acredito plenamente no Cristo milagreiro, principalmente o que supostamente ressuscitou”.
Nunca havia lido nenhum tratado materialista, muito menos tinha feito alguma leitura ateísta da bíblia e da história de Cristo. Era apenas meu ceticismo e minha prepotência natural, algo que Roberto Campos chamaria de gonorreia juvenil. Mas era muito difícil para mim acreditar que um homem era Deus, que tinha realizado milagres tal como os descritos, e após morrer humilhantemente, ainda ter voltado em forma gloriosa. Era uma espécie de filme de fantasia que se assistia na Sessão da Tarde na década de 1990 e início dos 2000.
Mas aquela pregação trouxe um elemento novo, ela tirou a abstração da história de Cristo, eu não era mais uma consequência histórica e biológica da espécie que, por ventura, tinha no inconsciente e na tradição social, a influência de um Cristo mitológico. Era mais íntimo. Aquele Cristo não era mais apresentado como mero aparato histórico, ele me incluía em sua trajetória e missão.
Diante daquela perspectiva, duas possibilidades saltaram ante minha mente racionalista: ou a fábula messiânica de Cristo era a estória mais mentirosa de todos os tempos, e com isso, milhões de pessoas se enganaram de forma acachapante, relataram experiências, milagres e contatos com o divino de forma ilusória, numa histeria coletiva continua de dois milênios; ou de fato Cristo morreu por mim, porque meus pecados me condenariam, e ele quis ilustrar na própria carne, abandonando toda sua potência, que mesmo diante do mais aterrador dos erros, da maior humilhação, até mesmo diante da morte, tinha jeito. Bastava segui-lo. Agora, tanto a primeira quanto a segunda, pareciam leituras absurdas, mas uma delas era verdadeira… Ou seja, havia um “absurdo verdadeiro”…
Sim, era absurdo, era irracional acreditar na segunda possibilidade. Mas, o que é racional? Potência seguido de ato? Ato seguido de consequência? Lógica fria e contabilização de possibilidades e fatos? Ok, isso é racional. Mas, comecei a refletir, mesmo diante do meu ceticismo. Já na fase “garoto de grupo de oração”, lembro-me de dizer, a um professo de biologia ateu, algo como: “É preciso muita fé para acreditar que a consciência do homem é fruto de uma aleatoriedade química, que um dia peixes estranhos resolveram caminhar no seco e que, por consequência, depois de milhões de anos dessa ousadia, eles conseguiram inventar, do nada, tanto o isqueiro quanto o conceito de democracia”. Eu já era um teísta nessa altura, só não era um cristão convicto ainda; mas, como diz Chesterton, se consideramos a possibilidade de que Cristo, o Jesus histórico, realmente é Deus, então tudo se modifica nessa equação.
Se Deus existe, ele pode, e pode tudo, inclusive descer como homem, habitar o ventre de uma virgem, inclusive, pode fazer milagres como relatados, pode chorar por Lázaro e trazê-lo à vida, pode amar seus amigos, pode salvar uma adultera e se irritar com a hipocrisia dos doutores. Se Deus existe, então, Jesus não só pode fazer o que dizem que ele fez de Belém a Jerusalém, mas se torna muito mais provável que o tenha feito do que o contrário. É preciso muita ilusão de ótica para enganar multidões que viam seus milagres, é preciso muita retórica e propaganda quase que sobrenatural para convencer seus seguidores a se tornarem tochas humanas em Roma, com estacas enfiadas em seus traseiros, ao invés de simplesmente negá-Lo. Ou, como Santa Blandina, uma jovem escrava convertida que no ano 177 d.C foi torturada no Anfiteatro das Três Gálias, sendo amarrada a uma cadeira de ferro em chamas, depois dependurada em uma rede e chifrada por um touro, para, por fim, ser degolada por não aceitar negar a Jesus Cristo nenhuma vez. É o que diz “A carta de Lyon”, um dos documentos mais historicamente confiáveis sobre os martírios dos cristão.
Se é possível que Deus tenha se encarnado, ensinado seu caminho, preso, torturado, morto e depois ressuscitado, aí então tudo muda. Pois o mesmo cético que não acreditava por ser pouco provável, pode acreditar agora por ser muito menos provável que Deus podendo salvar e amar seus filhos, se negasse morrer e ressuscitar para resgatá-los e mostrar a eles o seu ágape. A Semana Santa, assim, é hoje para mim a realização do mais extremo absurdo já perpetuado: um Deus que me amou de tal maneira, que amou a cada um de nós, de tal forma, que ao contrário de qualquer outro deus mitológico, contrariando toda lógica roteirística, toda racionalização e propaganda da história. Quis ser homem, fraco, padecer das estruturas limitadas de nossa carne para amar de perto, sentir as alegrias e dores nossas, amargar o sofrimento da rejeição e da tortura para mostrar, como homem, que Ele, como Deus, não era alheio às nossas angústias e inclinações. Sim, que Ele ressuscitou — ainda com a skin de homem —, e que aquilo que é racionalmente absurdo, isto é, um homem morto saindo andando da sua gaveta sepulcral, para Deus é a mais sublime e elevada lógica de cuidado: se for para amar seus filhos, Ele não temerá destroçar a lógica fria da possibilidade aferível e o que nos habituamos a chamar de impossível. Se Deus existe, a Páscoa, o sepulcro oco, é a única via possível.
Leia também: “No altar da ideologia”, artigo publicado na Edição 316 da Revista Oeste






































Sugiro uma leitura que possa dissociar o Jesus historico do Jesus da Fé. Pode ajudar nesta confusão aparente neste texto que não levou-me a nada.