Durante anos, o bonobo foi apresentado como o primata que a evolução teria “domesticado”: tolerante, afetivo e capaz de resolver conflitos sem violência. Essa narrativa acaba de ser derrubada por um estudo publicado na revista Science Advances, baseado em mais de 15 anos de observação e dados de 198 animais em 16 zoológicos europeus.
O que o novo estudo descobriu sobre a agressividade do bonobo?
A pesquisa foi liderada pelo cientista comportamental Emile Bryon, da Universidade de Utrecht, em colaboração com pesquisadores da Universidade de St Andrews, na Escócia. O estudo analisou 22 grupos de grandes símios, sendo 9 de chimpanzés e 13 de bonobos, distribuídos em zoológicos de toda a Europa.
Segundo o estudo publicado no PMC, bonobos e chimpanzés apresentam níveis semelhantes de agressividade total. O que muda não é a quantidade de violência, mas a direção que ela toma em cada espécie, uma distinção que passou despercebida durante décadas de pesquisa.

Leia também: Epicteto, filósofo grego, disse: “Primeiro diga a si mesmo quem você quer ser; depois, faça o que precisa ser feito”
Se esse primata não é pacífico, em que ele difere do chimpanzé?
Nos chimpanzés, a violência é predominantemente masculina e se dirige contra outros machos rivais e, especialmente, contra as fêmeas do grupo. No bonobo, a agressão parte de ambos os sexos, mas recai desproporcionalmente sobre os machos, com as fêmeas exercendo a maior parte das investidas contra eles.
Nas palavras do pesquisador Bryon: “Nos chimpanzés, a agressão vem principalmente dos machos e é dirigida a todos. Nos bonobos, a agressão vem de todos, mas é direcionada principalmente aos machos.” A descoberta surpreendeu parte da comunidade científica, que esperava encontrar diferenças mais marcantes na quantidade total de violência entre os dois primatas.
Os comportamentos registrados ao longo da pesquisa incluíram:
- Perseguições intimidatórias entre indivíduos do mesmo grupo
- Ataques físicos diretos classificados por intensidade
- Agressões de fêmeas contra machos em contextos de disputa social
- Coalizões femininas para exercer pressão sobre machos do grupo
- Interações agonísticas registradas com auxílio de inteligência artificial
Como o estudo foi conduzido ao longo de mais de 15 anos?
Os pesquisadores registraram milhares de horas de interações sociais e utilizaram inteligência artificial para classificar sete tipos de comportamentos agressivos, de perseguições intimidatórias a ataques físicos diretos. Segundo a revista Science, a metodologia permitiu uma comparação inédita entre as duas espécies em escala e rigor raramente vistos na primatologia.
O fato de os animais viverem em cativeiro impôs limites à análise: não foi possível investigar conflitos entre grupos distintos nem casos com desfechos letais. Por escolha metodológica, os pesquisadores também não analisaram a violência contra filhotes, aspecto em que os chimpanzés se destacam negativamente em estudos com populações selvagens.
Para entender melhor as diferenças físicas e sociais entre as duas espécies, o canal Zoomundo, com mais de 212 mil inscritos, apresenta um panorama completo sobre a biologia e o comportamento dos bonobos, incluindo o papel central das fêmeas na estrutura social da espécie:
O caso mais extremo de violência já registrado em um bonobo selvagem
Os dados de cativeiro encontraram respaldo no campo. Em outubro de 2025, pesquisadores do Instituto Max Planck de Comportamento Animal publicaram na revista Current Biology o caso mais extremo de violência já documentado em bonobos selvagens: cinco fêmeas na República Democrática do Congo atacaram coletivamente um macho chamado Hugo por cerca de 30 minutos, causando ferimentos graves que provavelmente resultaram em sua morte.
Segundo a Live Science, os pesquisadores suspeitam que o ataque foi uma resposta ao comportamento anterior do macho, que havia tentado agarrar o filhote de uma das agressoras. A intensidade do episódio foi sem precedentes na literatura científica sobre a espécie.

A hipótese da autodomesticação do primata também foi questionada
O estudo questiona ainda a chamada hipótese da autodomesticação dos bonobos, que sugeria que a espécie havia passado por uma seleção evolutiva contra a agressividade, tornando-se naturalmente mais tolerante ao longo do tempo. Os resultados não sustentam essa hipótese: os machos de bonobo não são marcadamente menos agressivos do que os de chimpanzés.
A conclusão central é que a agressão não desaparece quando as estruturas sociais mudam. Ela muda de direção e continua fazendo parte da complexa rede de poder, alianças e sobrevivência que molda as sociedades dos primatas, incluindo a nossa. Chimpanzés e bonobos compartilham mais de 98% do DNA humano, e o que eles revelam sobre si mesmos também diz algo sobre nós.









