Você já imaginou que o maior predador de uma região poderia não ser o que a ciência esperava? No sudeste da Austrália, fósseis com mais de 120 milhões de anos revelaram o megaraptorídeo mais antigo já registrado no mundo, além da primeira evidência confirmada de carcharodontossauros no continente, dois achados que obrigam os pesquisadores a repensar como esses animais se espalharam pelo hemisfério sul.
O que são os megaraptorídeos e por que esta descoberta é tão significativa?
Os megaraptorídeos eram dinossauros terópodes bípedes conhecidos como “predadores de mãos”, um apelido que vem de suas garras enormes e recurvadas. Mediam entre seis e sete metros de comprimento e estavam entre os maiores carnívoros de seu tempo.
Até esta descoberta, os registros mais antigos desse grupo eram mais recentes. Os fósseis encontrados na costa de Victoria empurraram essa data para entre 121,4 e 118 milhões de anos atrás, na formação geológica Strzelecki Group, na Bass Coast, tornando-os os exemplares mais antigos da linhagem conhecidos até hoje.
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Como os fósseis foram encontrados e quem conduziu a pesquisa?
A pesquisa foi liderada pelo Museums Victoria Research Institute e pelo doutorando da Monash University, Jake Kotevski. Os resultados foram publicados no Journal of Vertebrate Paleontology, com dados inéditos sobre a história evolutiva dos predadores do Cretáceo.
No total, cinco fósseis de terópodes foram analisados, recuperados em duas formações geológicas distintas. Além do Strzelecki Group, outro conjunto de ossos foi localizado na Eumeralla Formation, na Otway Coast, com idade entre 113 e 108 milhões de anos. Cada sítio contribuiu com informações complementares sobre a composição do ecossistema local.

Por que os carcharodontossauros australianos surpreenderam os cientistas?
Os carcharodontossauros, cujo nome significa “lagarto de dentes de tubarão”, eram conhecidos em outros continentes como os maiores predadores de seus ecossistemas. Na América do Sul, chegavam a 13 metros de comprimento, tamanho comparável ao do Tyrannosaurus rex.
Na Austrália, porém, os fósseis revelaram animais de apenas dois a quatro metros. Em vez de dominar a cadeia alimentar, os carcharodontossauros ocupavam um papel secundário, enquanto os megaraptorídeos assumiam o topo da hierarquia. A hierarquia estava, literalmente, de cabeça para baixo.
“É fascinante ver como a hierarquia de predadores em Victoria diferiu da da América do Sul”, afirmou Jake Kotevski. “Aqui, os papéis estavam invertidos, destacando a singularidade do ecossistema australiano do Cretáceo.”

Quais grupos de dinossauros coexistiam naquele ecossistema australiano?
Segundo o Museums Victoria Research Institute, os fósseis indicam que ao menos três grupos distintos de terópodes habitavam a mesma região ao mesmo tempo. Esse nível de diversidade dentro de um único ecossistema era desconhecido para o período na Austrália.
Os grupos identificados foram:
- Megaraptorídeos: os maiores predadores locais, com seis a sete metros, e predadores de topo do ecossistema victoriano
- Carcharodontossauros: registrados pela primeira vez na Austrália, com dois a quatro metros, ocupando posição intermediária na cadeia alimentar
- Unenlagiíneos: também chamados de “raptores do sul”, ágeis e com cerca de um metro de comprimento, funcionando como predadores de pequeno porte
A coexistência desses três grupos em um mesmo território sugere uma divisão de nichos ecológicos sofisticada, algo que os pesquisadores ainda estão mapeando.
Para entender melhor como esses achados foram feitos e o que eles significam para a paleontologia, o canal Museums Victoria, com mais de 6,95 mil inscritos, publicou um vídeo em que Jake Kotevski e o paleontólogo Tim Ziegler detalham as descobertas diretamente dos sítios fossíliferos:
O que esses fósseis revelam sobre a conexão entre os continentes do hemisfério sul?
Uma das implicações mais relevantes da descoberta é o que ela sugere sobre a dispersão dos dinossauros no hemisfério sul. Conforme detalhado pelo Museums Victoria, os fósseis indicam uma conexão entre a Austrália e a América do Sul por meio da Antártida durante o Cretáceo Inicial.
Os achados sustentam essa hipótese por meio de evidências complementares:
- Idade dos fósseis: datados entre 121,4 e 108 milhões de anos, os registros australianos coincidem com o período em que Gondwana ainda permitia passagens terrestres entre os continentes do sul
- Parentesco filogenético: os megaraptorídeos e carcharodontossauros de Victoria compartilham características evolutivas com espécies sul-americanas, indicando ancestrais comuns antes da separação continental
- Rota antártica: a posição geográfica da Antártida entre os dois continentes aponta para ela como o corredor de migração mais provável para esses grupos de predadores
Naquela época, os três continentes ainda faziam parte do supercontinente Gondwana e compartilhavam passagens terrestres. Isso permitiu que grupos de dinossauros migrassem entre as massas de terra antes da deriva continental, gerando trajetórias evolutivas distintas em cada região.

Como a ausência de saurópodes moldou os predadores australianos do Cretáceo?
De acordo com análise publicada pela Science, a ausência de saurópodes, os dinossauros de pescoço longo que serviam de presa principal para os grandes carnívoros em outros continentes, pode explicar por que os carcharodontossauros australianos nunca cresceram tanto.
Sem presas de grande porte disponíveis, não havia pressão evolutiva para desenvolver corpos maiores. Os megaraptorídeos, por outro lado, podem ter encontrado vantagem competitiva ao utilizar suas garras para capturar presas menores e mais ágeis, consolidando sua posição no topo da cadeia. O ecossistema de Victoria funcionava com regras próprias, e esses fósseis são a primeira janela real para entender como.
“Os achados desafiam as suposições anteriores sobre a hierarquia de tamanhos dos predadores de Gondwana, ressaltando a fauna singular do Cretáceo em Victoria”, afirmou o Dr. Thomas Rich, pesquisador associado ao projeto.








