Você consegue imaginar perder quatro dedos da mão no século XV e ainda assim encontrar um jeito de continuar a vida? Uma prótese de ferro de quase 500 anos foi achada em Freising, na Baviera, durante uma obra de tubulação. O dispositivo substituía os dedos de um homem comum e ainda guardava restos do tecido usado como acolchoamento entre o metal e a pele.
Como a prótese de ferro foi encontrada durante as obras em Freising?
O achado não veio de uma escavação arqueológica planejada. Trabalhadores que instalavam tubulações nas proximidades da Igreja Paroquial de São Jorge depararam com os restos mortais durante a execução da obra, num contexto urbano que raramente oferece condições ideais para preservação simultânea de materiais orgânicos e metálicos.
A datação por radiocarbono confirmou que o homem tinha entre 30 e 50 anos na época da morte. Marcas nos ossos indicam que a amputação ocorreu antes do óbito, ou seja, ele viveu por algum tempo com a prótese de ferro encaixada no coto da mão esquerda.

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Como era construída a mão artificial medieval encontrada em Freising?
Segundo o comunicado oficial do BLfD, a peça substituía os dedos indicador, médio, anelar e mínimo da mão esquerda. O Dr. Walter Irlinger, chefe de departamento do BLfD, descreve os dedos como formados individualmente em chapa metálica, imóveis e dispostos paralelamente, levemente curvados para imitar a posição natural de repouso da mão. Entre os elementos identificados na estrutura estão:
- Estrutura oca feita de ferro e metais não ferrosos, moldada dedo a dedo em chapa metálica
- Resíduos têxteis no interior, usados como acolchoamento entre o metal e a pele do coto
- Sistema de fixação provavelmente composto por tiras de couro presas ao que restava da mão
- Polegar preservado com o osso ainda preso internamente à estrutura metálica, único dedo natural restante
O que torna a prótese de ferro de Freising um achado raro na Europa?
Em toda a Europa Central do final da Idade Média e início da Idade Moderna, são conhecidas apenas cerca de 50 próteses desse tipo. A combinação de elementos preservados no exemplar de Freising é ainda mais incomum, pois estrutura metálica, acolchoamento têxtil interno e posição do polegar raramente sobrevivem juntos ao longo de séculos.
Conforme apurado pelo Study Finds, os dedos da prótese de ferro são imóveis e paralelos, diferenciando o exemplar de Freising das peças mais sofisticadas conhecidas do mesmo período, como a célebre Mão de Ferro do cavaleiro Götz von Berlichingen.
Qual a diferença entre a prótese de Freising e a Mão de Ferro de Götz von Berlichingen?
A prótese mais famosa do período é a Mão de Ferro do cavaleiro Götz von Berlichingen, que perdeu a mão direita em 1504 durante um canhoneio no Cerco de Landshut. Ao contrário da prótese de ferro encontrada em Freising, a de Götz von Berlichingen possuía dedos totalmente articulados e móveis individualmente, sendo considerada um prodígio da engenharia mecânica medieval.
A comparação entre as duas peças revela o espectro da prótese medieval: de um lado, dispositivos funcionais acessíveis a homens comuns; de outro, encomendas de alta complexidade mecânica reservadas à nobreza com recursos para financiá-las.

Por que Freising concentrava casos de amputação no século XV e XVI?
O BLfD ressalta que Freising foi palco de ofensivas militares em diversas ocasiões, entre elas a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), o que provavelmente levou a um aumento das amputações e da demanda por próteses na região. A cidade, por sua posição geográfica na Baviera, esteve exposta a conflitos recorrentes durante todo o período coberto pela datação do esqueleto.
O contexto militar explica tanto a amputação quanto a existência da prótese de ferro. Homens que perdiam membros em combate precisavam de soluções funcionais para continuar trabalhando, e artesãos especializados em metal já dominavam as técnicas necessárias para fabricar peças como a encontrada em Freising.
O que o achado de Freising revela sobre a medicina medieval na Baviera
A presença do acolchoamento têxtil no interior da prótese de ferro indica um cuidado com a interface entre metal e tecido humano que vai além do puramente funcional. Quem fabricou a peça tinha conhecimento prático de como o coto reagia ao contato prolongado com metal rígido, e adotou uma solução que reduzia atrito e pressão sobre a pele.
Para um homem comum do século XV, sobreviver a uma amputação de quatro dedos, adaptar-se a uma prótese e continuar vivendo por anos após o procedimento representa uma combinação de resistência física e acesso a recursos artesanais que a arqueologia raramente documenta com tanta precisão. O esqueleto de Freising é um desses casos excepcionais.








