Quando um mapa revela crateras quase perfeitas no fundo do mar, a explicação parece simples demais para ser questionada. Mas novas análises mostram que essas marcas no oceano podem nascer de animais, sedimentos em movimento, gelo antigo e vazamentos reais de metano.
Por que as crateras do fundo oceânico intrigam os cientistas?
As depressões conhecidas como pockmarks, ou marcas de picada, aparecem em grande quantidade no fundo dos oceanos. Durante décadas, a explicação mais repetida foi a liberação de metano ou outros fluidos, capazes de subir pelo sedimento e deixar cavidades circulares.
Essa explicação continua válida em muitos lugares, mas deixou de ser suficiente para todos os casos. Segundo a ScienceAlert, novas análises indicam que parte dessas estruturas pode ter origem em processos bem menos óbvios do que vazamentos de gás.

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Como botos podem formar crateras no Mar do Norte?
No Mar do Norte, um estudo liderado pelo geocientista Jens Schneider von Deimling, da Universidade de Kiel, mostrou que dezenas de milhares de depressões rasas não estavam ligadas ao metano. A explicação envolvia botos-comuns e lançãos, pequenos peixes que vivem enterrados no sedimento.
De acordo com a pesquisa publicada na Communications Earth & Environment, os botos mergulham para caçar esses peixes, revolvem o fundo e deixam pequenas marcas que se acumulam ao longo do tempo. Conforme a EurekAlert, foram identificadas 42.458 estruturas associadas a esse comportamento animal.
Esse caso muda a leitura de muitas marcas oceânicas porque mostra que o mesmo formato visual pode ter origens distintas:
- Botos-comuns perturbam o sedimento ao buscar alimento no fundo do mar.
- Lançãos enterrados deixam pequenas depressões ao emergir ou serem capturados.
- Mapas de alta resolução podem confundir essas marcas com pockmarks clássicos de fluidos.
- Milhares de crateras rasas podem ter sido atribuídas ao metano sem necessidade.

O que explica as crateras na costa da Califórnia?
Na costa de Big Sur, na Califórnia, outro campo de depressões chamou atenção por ocupar uma área comparável à de Los Angeles. Pesquisadores do Monterey Bay Aquarium Research Institute, do USGS e da Universidade Stanford não encontraram evidência significativa de gás ou fluidos no local.
O estudo, publicado no Journal of Geophysical Research: Earth Surface, apontou para um mecanismo diferente: a gravidade. O fundo oceânico tem uma inclinação suave, e sedimentos escorregam encosta abaixo há pelo menos 280.000 anos, com um evento mais recente há cerca de 14.000 anos.
Para visualizar a escala desse mistério na costa da Califórnia, o canal Ridddle PT, com 243 mil inscritos, publicou um vídeo com 86.821 visualizações sobre os buracos circulares encontrados no fundo do oceano em Big Sur:
Quando o metano realmente forma crateras no oceano?
O metano não saiu da história. No Mar de Barents, no Ártico, crateras gigantes foram associadas ao fim da última era glacial. Há cerca de 12.000 anos, uma camada de gelo de até 2 quilômetros cobria o fundo do mar e aprisionava metano em forma de hidratos.
Com o aquecimento e o recuo do gelo, esse gás se concentrou e foi liberado de forma abrupta, abrindo depressões de grandes dimensões. Mais de 600 flares de gás ainda borbulham ao redor dessas formações, sinal de que o processo continua ativo em algumas áreas.
As três explicações principais ajudam a entender por que as mesmas formas podem enganar até análises especializadas:
- Metano pode escapar do subsolo e deslocar sedimentos em regiões específicas.
- Deslizamentos submarinos podem ampliar depressões ao longo de encostas suaves.
- Animais marinhos podem produzir marcas semelhantes durante a alimentação.
- Gelo antigo pode prender hidratos e liberar gás após mudanças climáticas.
Por que essas crateras importam para cabos, dutos e parques eólicos?
As crateras do fundo oceânico não são apenas curiosidades geológicas. Elas afetam a forma como cientistas interpretam o ciclo global do carbono, porque marcas atribuídas ao metano podem indicar emissões reais em alguns lugares, mas não em outros.
Também há impacto prático para estruturas humanas instaladas no mar. Cabos submarinos, dutos e parques eólicos offshore dependem de uma leitura precisa do relevo, da estabilidade dos sedimentos e dos riscos de movimentação no fundo oceânico.
O fundo do oceano guarda mais de uma resposta para o mesmo mistério
A nova leitura sobre os pockmarks mostra que formas parecidas podem nascer de histórias completamente diferentes. Em um lugar, a origem pode estar no metano; em outro, na caça de botos-comuns; em outro, em sedimentos que escorregam lentamente por milhares de anos.
Essa mudança é importante porque reduz explicações automáticas e obriga a ciência a olhar cada região com mais cuidado. No fundo do mar, uma cratera circular pode parecer simples no mapa, mas carrega uma história feita de clima, vida animal, gravidade e tempo geológico.









