Tem uma coisa curiosa que aparece quando você compara gerações. Muita gente que cresceu nos anos 60 e 70 carrega um tipo de jogo de cintura na hora do aperto que ficou mais raro em quem veio depois. E não, isso não é sobre ser durão ou ter “sofrido mais”. É sobre o tipo de infância que essas pessoas tiveram, e o que ela treinou sem ninguém perceber.
O que era essa resiliência?
Resiliência aqui não significa ser frio ou aguentar tudo calado. Significa resolver problema sem precisar de ajuda na hora e conseguir ficar de boa quando as coisas não saem como planejado. É a diferença entre travar diante de um perrengue e simplesmente partir para a ação.

Quem cresceu naquela época teve muito treino nessas duas coisas. Não por mérito de uma educação melhor, mas porque a vida empurrava pra isso o tempo todo. E é aí que mora a explicação real, longe de qualquer saudosismo.
Por que essa geração teve tanto treino?
Foi uma combinação de fatores da época. As mães entraram no mercado de trabalho em peso, as opções de creche eram poucas e a rotina das famílias era corrida. O resultado foi um monte de criança com tempo livre e sem adulto por perto o dia inteiro.
Essa molecada ia e voltava da escola sozinha, entrava em casa sozinha e passava horas se virando. Quando dava briga na rua, não tinha um adulto ali para apartar. Tinham que negociar entre si. E é justamente esse tipo de situação repetida que vira habilidade.
O lado que ninguém deve romantizar
Aqui entra a parte honesta. Esse mesmo cenário também produziu coisas ruins. Teve criança negligenciada de verdade, criança solitária, criança lidando com situações grandes demais para a idade. Isso não é detalhe pequeno, e aparece com clareza nos estudos sobre o assunto.
Ou seja, não dá para olhar pra trás como se fosse um paraíso perdido. O mesmo abandono que treinou autonomia em uns deixou marcas pesadas em outros. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
O que a ciência diz?
Boa parte dessa conversa vem de uma pesquisa longa feita na Universidade da Califórnia, em Berkeley, que acompanhou pessoas por décadas. Um achado chamou atenção: gente que passou por dificuldades sérias na infância muitas vezes mostrava resultados emocionais melhores na vida adulta do que o esperado.
Mas atenção, porque é fácil distorcer isso. A pesquisa não diz que sofrimento faz bem nem que existe uma causa mágica única. Ela aponta um conjunto de coisas: lidar com mudança, se virar sozinho, se acostumar com a ideia de que nem tudo é previsível.
E hoje, por que ficou mais raro?
A infância mudou de figura. Ficou mais supervisionada e mais cheia de agenda, com adulto por perto para ajudar a resolver quase tudo. Some a isso a chegada das telas, que ocupou o espaço daquele tempo livre sem rumo. O psicólogo Jonathan Haidt fala bastante sobre esse efeito da troca do brincar pelo celular.
A questão não é decidir qual geração é melhor. As crianças de hoje ganharam coisas importantes, como mais espaço para falar de emoções, algo que faltou no passado. O ponto é entender o que se perdeu no meio do caminho para tentar recuperar de um jeito saudável, sem precisar largar ninguém na rua para isso.
Como treinar isso sem voltar no tempo?
Essa habilidade não depende de máquina do tempo. Dá para criar pequenas chances de a criança se virar sozinha dentro de um ambiente seguro: deixar resolver um probleminha antes de correr para ajudar, aguentar um tédio sem entregar a tela na hora, lidar com uma frustração pequena até o fim.
Vale para adulto também. Encarar um perrengue chato sem terceirizar na hora, tolerar a sensação ruim de algo não dar certo de primeira, insistir mais um pouco. Resiliência se constrói na prática, não nasce pronta. E o melhor é que dá para construir hoje, com cuidado e sem nenhuma dose de abandono.









