Imagine caminhar por um lugar que já foi um lago profundo e hoje é um deserto congelado, com pedras antigas revelando segredos de bilhões de anos. É exatamente isso que a missão Perseverance vem mostrando em Marte, ao explorar a cratera Jezero, um antigo lago marciano que pode ter abrigado condições favoráveis à vida. Desde 2021, o robô da NASA investiga essa região e, em 2026, a atenção se volta especialmente para a borda oeste, onde rochas antigas e encostas íngremes ajudam a reconstruir a longa história do planeta vermelho.
Por que a borda da cratera Jezero explorada pelo rover Perseverance é tão importante?
A borda da cratera Jezero funciona como uma estante de livros antigos, com páginas abertas da história de Marte à vista. Ali aparecem rochas que foram trazidas à superfície por grandes impactos, permitindo que cientistas estudem partes da crosta marciana formadas há mais de 3,5 bilhões de anos.
Nessa área, a Perseverance encontra principalmente rochas ígneas fragmentadas, que um dia estiveram derretidas e depois se solidificaram. Elas guardam pistas de resfriamento de magmas e da passagem de água quente, como se cada bloco fosse um capítulo da transformação do planeta de um ambiente mais úmido para o cenário frio e seco atual.

Como as rochas e minerais contam a história da antiga água em Marte?
A exploração geológica feita pela Perseverance revela uma variedade impressionante de rochas e minerais na borda oeste de Jezero. Algumas amostras são extremamente antigas e exibem texturas pouco comuns, indicando trajetórias complexas de cristalização, fraturas e alteração por líquidos que circularam por ali, possivelmente em diferentes profundidades da antiga crosta marciana.
Entre os achados mais interessantes estão rochas ricas em minerais do grupo da serpentina, que na Terra se formam quando água reage com certas rochas vulcânicas e podem gerar hidrogênio, fonte de energia para alguns microrganismos. Em Marte isso não comprova vida, mas mostra que processos capazes de criar ambientes energéticos já aconteceram, junto com minerais como carbonatos e sulfatos, que ajudam a entender se a água era mais ácida ou mais básica.

O que acontece com as amostras coletadas pela missão Perseverance em Marte?
A missão Perseverance foi planejada com um objetivo ambicioso, guardar pequenas porções do planeta em tubos selados para, um dia, trazê-las à Terra. Cada amostra é escolhida com muito cuidado, depois de análises em que a equipe estuda textura, tipo de mineral e o contexto em que aquela rocha se formou, usando câmeras de alta resolução e espectrômetros embutidos no rover.
Leia também: Mistério no cinturão de asteroides intriga cientistas e levanta chance de vida em planeta anão
Depois dessa seleção, o braço robótico perfura a rocha e deposita o material em cilindros metálicos esterilizados, que recebem identificação e são guardados dentro do rover ou deixados no solo. A NASA e a Agência Espacial Europeia discutem foguetes menores, veículos de resgate e parcerias para tentar trazer esse material antes da década de 2040.
Se você quer saber mais, separamos o vídeo do canal “Astrum Brasil” falando sobre esse relato:
Quais são as expectativas científicas para o retorno das amostras?
Quando cientistas imaginam essas rochas chegando à Terra, pensam em um salto de conhecimento sobre possíveis sinais de vida passada em Marte. Os instrumentos da Perseverance já revelam muito, mas laboratórios terrestres permitem análises em nível atômico e molecular, abrindo espaço para perguntas mais detalhadas sobre a química fina dos minerais e possíveis rastros orgânicos.
Entre os principais objetivos que orientam a escolha e o retorno dessas amostras, estão metas que ajudam a entender se Marte já foi um mundo realmente habitável:
- determinar com precisão a idade das rochas ígneas coletadas na borda da cratera, usando métodos radiométricos como o decaimento do urânio em chumbo
- medir quanto tempo a água alterou quimicamente essas rochas e por quanto tempo o ambiente permaneceu úmido
- investigar se existem compostos orgânicos complexos preservados em minerais resistentes à radiação
- comparar a composição da crosta marciana com rochas terrestres para entender diferenças na evolução dos dois planetas
- testar métodos avançados de detecção de possíveis bioassinaturas em ambientes extremos
Esses estudos podem esclarecer o passado de Marte e ajudar a responder uma questão central da ciência moderna, se os processos que levaram ao surgimento da vida na Terra poderiam ter ocorrido de forma semelhante em outros mundos rochosos do Sistema Solar.









