No dia 25 de agosto de 1944, o comandante militar alemão na capital francesa, general Dietrich von Choltitz, desobedeceu às ordens de Adolf Hitler para destruir a cidade, baixou o estandarte negro de seu QG no famoso Hôtel Le Meurice — ainda hoje um dos hotéis mais luxuosos da França — e se rendeu ao comandante francês, general Philippe Leclerc. Há 80 anos Paris se libertava da ocupação nazista.
Depois de derrotar as forças alemãs na Normandia, os Aliados avançaram pela França, tentando alcançar as tropas alemãs em retirada. A libertação de Paris não era prioridade, até pelo risco de danificar a cidade. No entanto, em 19 de agosto de 1944, a resistência francesa causou uma revolta contra os alemães. Choltitz recebeu ordens para esmagar a insurreição e destruir a cidade, assim como os alemães fizeram em Varsóvia.
Para evitar o desastre, Charles de Gaulle insistiu em interferir. O Comando Aliado enviou a 2ª Divisão Blindada Francesa do major-general Leclerc, apoiada pela 4ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, do major-general Barton. Um primeiro grupo conseguiu infiltrar-se no coração de Paris na noite de 24 de agosto.
Choltitz tinha longa experiência militar e um histórico de combate respeitável, mas não tinha qualquer chance com a sua pequena força de 20 mil homens contra 3 milhões de cidadãos franceses, especialmente agora que as forças aliadas tinham entrado na cidade. Sabia que não conseguiria manter o controle da capital. E, tal como os Aliados, não desejava ver Paris reduzida a escombros. Acabou sendo persuadido por Raoul Nordling, o cônsul-geral da Suécia, país neutro na guerra, a baixar as armas.
No dia 25 de agosto, as forças francesas e americanas foram calorosamente recebidas pelos parisienses. Choltitz e sua equipe foram capturados no Hôtel Le Meurice. A capitulação foi assinada no Departamento de Polícia Île de la Cité. Depois disso, Choltitz foi levado para a estação ferroviária de Montparnasse, de onde ordenou a rendição de suas tropas. A cidade das luzes foi finalmente libertada após quatro longos anos de ocupação alemã.
A libertação de Paris foi mais um duro golpe para Hitler. Ainda haveria muito a fazer e um longo caminho até Berlim, mas sobravam razões para comemorar. Paris estava em festa.
Rachel Spreiregen, na época uma garota judia francesa de 17 anos — sobrevivente do Holocausto graças a documentos falsos —, estava caminhando perto do hotel quando as tropas francesas livres chegaram. Ela relatou em 2004, 60 anos depois, para o Jornal Washington Post o seguinte:
“As ruas antes desertas começaram a se encher de parisienses. A multidão (…) espontaneamente irrompeu em La Marseillaise, enquanto oficiais alemães, sem chapéu, mãos no ar, marcharam pela Avenue de l’Opéra. O pesadelo acabou. Fiquei impressionada com a magnitude do evento que estava testemunhando. A máquina de guerra alemã não era invencível afinal e, para mim, foram os homens do Dia D que fizeram a diferença. A eles devo minha liberdade e minha vida.”
Muitos franceses acreditavam que a Alemanha ia ganhar a guerra e já tinham perdido a esperança por dias melhores, mas o ceticismo era impossível para Spreiregen. “Estávamos presos em uma corrida mortal entre aqueles que nos descobririam e nos enviariam para os campos de concentração e aqueles que carregavam com eles nossa esperança de vida — os soldados aliados”, disse.
Um grande desfile foi realizado, no dia 26 de agosto, partindo do Arco do Triunfo, descendo pela Avenida Champs-Élysées e prosseguindo até a Catedral de Notre Dame. Os parisienses saudaram o novo presidente do Governo Provisório da República Francesa, Charles de Gaulle, com grande entusiasmo. A França recuperou a sua unidade nacional e soberania.
Muitas das ruas da cidade foram renomeadas em homenagem aos seus defensores, e as muralhas da cidade ostentam cerca de 500 placas em homenagem às vítimas da Libertação.
Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
Leia também “O beijo”
E hoje Paris em declínio novamente.
Muito bacana toda a reportagem. Me deixou feliz. Parabéns a autora.
Não poderia ser outra a foto da semana. Você sempre acerta.
Adoro fotos e parabéns a Revista Oeste por esta iniciativa. No dia 26 de agosto de 2024 irá mostrar uma Paris bem diferente desta foto.