Entrei na dark web. Comprei um contêiner de heroína? Planejei um golpe milionário no Banco do Brasil? Recebi um plano de construção de uma bomba atômica rudimentar para ser usada em algum atentado que me vier à cabeça num dia de mau humor?
Calma lá! Essa imagem da dark web é caricatural. Não que criminosos, terroristas e traficantes não estejam lá. Eles estão. Mas a dark web não é só isso. Vamos ver algumas definições.
O iceberg da internet
Você está lendo este artigo na chamada surface web (ou “web da superfície”). É a internet acessível por mecanismos de buscas como o Google e o Yahoo. Na superfície estão os sites de compras, as redes sociais, a Wikipedia. É imensa, certo? Mas, se você imaginar a internet como um iceberg, tudo ao que temos acesso nessa superfície representa apenas 4% da rede. O cálculo é aproximado. A internet é como o universo, talvez a gente nunca conheça seu tamanho exato.
Abaixo da superfície vem a deep web (ou “web profunda”). Segundo os mesmos cálculos, a deep web corresponde a 90% da internet. Lá estão os dados que o Google e outros mecanismos de busca não podem alcançar. São sites fechados por senhas e outros mecanismos de proteção.

Por exemplo: os dados sigilosos do banco no qual você tem conta estão na deep web. Os registros dos assinantes de Oeste, também. Os arquivos governamentais, os dados médicos do seu exame de sangue, os relatórios científicos das pesquisas acadêmicas, tudo a que a gente não pode ter acesso sem uma senha. Como nosso e-mail, por exemplo.
Os 6% mais ocultos da internet representam a dark web, a “internet sombria”. A principal característica dessa base do iceberg não é necessariamente o crime ou o desfile de perversões humanas. É o anonimato.
Nas profundezas
Na dark web, você pode navegar sem ser identificado. Por isso, ela pode servir tanto à liberdade quanto às atividades ilícitas.
Para você navegar por essas profundezas, é necessário um browser diferente: o TOR, que significa the onion router, ou “o roteador cebola”. O termo “cebola” vem do fato de que a sua navegação vai passar por tantas camadas diferentes em tantos pontos do mundo que se torna praticamente impossível localizar sua identidade.
Se você usar ao mesmo tempo o TOR e um aplicativo de VPN (que oculta seu endereço na internet), sua identidade desaparecerá de vez. A dark web não é um lugar para você preencher formulários, divulgar o e-mail e deixar telefone para contato. Ela existe para que você navegue coberto por um manto de anonimato.

A dark web não é lugar para brincar de achar coisas aleatoriamente. Você precisa de um guia de sites seguros. Caso você também resolva se aventurar e baixe o navegador TOR, poderá procurar algumas listas de links aprovados.
É crime navegar pela dark web?
Não. A não ser, claro, que você viva, por exemplo, na Coreia do Norte, onde praticamente tudo é crime. Acessar a dark web é perfeitamente legal — desde que não a use para atividades criminosas. Simples assim.
Tecnologicamente, o browser TOR é um passo atrás. Ele não funciona com o sistema de links que se tornou a norma nos navegadores que usamos no dia a dia na surface web. Como nos velhos browsers, você precisa colocar o endereço na barra de busca — o endereço sempre termina em “.onion”. E ele também é bem mais lento para apresentar o resultado. (Lembre-se: ele está passando por camadas e mais camadas de segurança ao redor da Terra…)
Repetindo: a dark web não é um lugar para se aventurar. Essa parte de baixo do iceberg está cheia de sites com vírus, golpes, phishing e atividades criminosas. Só o fato de entrar num site de pornografia infantil, por exemplo, constitui crime.
Entre os crimes cometidos na dark web estão tráfico de drogas, venda ilegal de armas (inclusive pesadas), venda de dados pessoais, ofertas de serviços de hackers, exploração sexual, venda de golpes financeiros, ataques a arquivos de empresas, planejamento de ações terroristas (incluindo manuais de fabricação de bombas), venda de identidades falsas e até anúncios de assassinos por encomenda.
Alguns casos de crimes pela dark web
Silk Road (2011-2013): foi o primeiro grande mercado negro da dark web. Vendia drogas, documentos falsos e serviços ilegais. Foi desmantelado pelo FBI. Seu fundador, Ross Ulbricht, pegou prisão perpétua.

AlphaBay (2014-2017): chefiado por Alexandre Cazes, tornou-se o maior mercado da dark web da sua época. Tinha mais de 400 mil usuários ativos. Cazes foi preso em operação conjunta do FBI e da Europol e supostamente se suicidou na prisão. Quando o site foi desmobilizado, milhares de usuários envolvidos se mudaram para o Hansa Market. Era uma armadilha da polícia holandesa, num tipo de operação chamado honeypot (“pote de mel”).
Welcome to Video (2015-2018): produziu e distribuiu mais de 250 mil vídeos com pornografia infantil para 1,2 milhão de usuários. Sua base estava situada na Coreia do Sul, e seus “clientes” pagavam em bitcoin. Seu criador, Son Jong-woo, foi preso na Coreia e extraditado para os EUA. Foram presas 337 pessoas da rede, inclusive no Brasil.
DarkMarket (2021): uma rede baseada na Europa Oriental (especialmente Moldávia e Ucrânia). Oferecia drogas, falsificações e tráfico de dados. O site foi derrubado por policiais alemães com o apoio da Europol.
O Brasil é um dos países com maior atividade criminosa na dark web. Tráfico de dados bancários, e-mails, arquivos da Serasa, cartões clonados, tutoriais de fraudes são quase rotina por aqui.
O outro lado
A mesma camada de anonimato que acoberta criminosos serve para proteger quem combate regimes totalitários. Por meio da dark web, cidadãos sob ditaduras podem divulgar documentos para fora de seus países usando plataformas como o SecureDrop. Existe até a possibilidade de criar blogs informativos por meio da dark web, sem que seus autores sejam identificados.
Jornalistas de países sob pesada repressão, como China, Irã, Rússia e Mianmar, migraram para o TOR para divulgar fatos que seus governos não permitem. Alguns órgãos de imprensa já possuem versões específicas para a dark web: BBC News, New York Times, ProPublica, Guardian e Intercept — o fato de esses órgãos estarem mais à esquerda é mais um exemplo de quanto a direita anda ausente onde é tão necessária.
A dark web é terreno de criminosos. Mas é também uma porta de escape para quem vive sob regimes obcecados com “controle e regulação” da mídia, da internet e das redes sociais. Combinada com o sistema de VPN e uma rede de internet por satélites, torna o usuário virtualmente invisível.
Está ficando cada vez mais difícil para os tiranos o controle absoluto do pensamento. Graças à tecnologia, o “Grande Irmão” está cada vez menor.
dagomirmarquezi.com
@dagomirmarquezi
Leia também “O mosquito espião”




Muito bom Dagomir, sempre nos ensinando os meandros da era digital.
Pense num bicho perdido no espaço, sou eu com Bruno Marquese. Eu continuo zerado
Parabéns e obrigado, Dagomir, pela excelente matéria. Você sabe informar com uma didática que faz a geração Paulo Freire ruborizar de vergonha.
Excelente reportagem sobre o TOR/Darweb, mas faltou falar sobre as origens:
Origens do Tor: Financiamento do Governo dos EUA
O Tor foi desenvolvido inicialmente em meados da década de 1990 por matemáticos e cientistas da computação do Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA (NRL), com trabalhos iniciais de Paul Syverson, Roger Dingledine e Nick Mathewson.
Posteriormente, a DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa) e outras entidades governamentais como a CIA financiaram o desenvolvimento do Tor para proteger as comunicações de inteligência (por exemplo, espiões, diplomatas e denunciantes).
Objetivo da CIA era Ajudar agentes a se comunicarem com segurança em ambientes hostis sem expor seus endereços IP. Desta forma era importante que outras pessoas tambem usassem para proteger os agentes e informantes da CIA.
Reza a lenda que a CIA e NSA tem acesso a “backdoors” e conseguem acessar todas informcoes, o que eu acredito ser plausivel. (fonte Deepseek).
Sempre uma aula esclarecedora da Internet e do mundo digital, obrigada Dagomir Marquezi. Sempre aprendo com quem conhece os meandros profundos da Internet. Sei que muitas vezes golpes bancários são aplicados e nunca o banco explica ao usuário o que de fato ocorreu..Sim devolvem o dinheiro é nunca dizem quem foi.Hole compreendi.
Sem dúvida é uma excelente opção para nós brasileiros agora censurados pelos psicopatas!!!!!