O episódio recente em que a BBC — outrora símbolo universal da “imparcialidade jornalística” — foi flagrada adulterando o discurso de Donald Trump é um acontecimento de rara importância moral. Por um instante, o mundo inteiro pôde enxergar o que observadores menos distraídos vêm apontando há anos: a imprensa contemporânea, herdeira bastarda do Iluminismo e da Revolução Francesa, transformou-se num departamento de propaganda e desinformação. Hoje, é paga não para levar a realidade ao público, mas para cavar um abismo intransponível entre este e aquela.

Como mostra a matéria de Isabela Jordão, a BBC suprimiu trechos essenciais de um discurso no qual, em 6 de janeiro de 2021, Trump conclamava manifestantes a “apoiar pacificamente” senadores e deputados republicanos. Ao editar o vídeo, os desinformantes profissionais omitiram a menção aos congressistas e trocaram o verbo “apoiar” por “lutar com todas as forças”, criando artificialmente a impressão de que o então presidente incitava a invasão do Capitólio. Eis aí uma manipulação digna dos veículos oficiais em regimes totalitários. Ninguém esperava ver a BBC rebaixada ao status de um Pravda ou de um Granma.
O escândalo foi tão gritante que, no Reino Unido, produziu reação institucional: o Parlamento exigiu explicações; os chefes da emissora, envergonhados, renunciaram; e o presidente americano, com razão, anunciou um processo de US$ 1 bilhão por difamação. Ao que parece, o crime de manipular a verdade ainda causa algum constrangimento no mundo civilizado. Mas não no Brasil.

Se, lá fora, a manipulação midiática britânica choca, aqui ela é rotina de redação. As mentiras da imprensa autoproclamada “profissional” tornaram-se parte estrutural, e já naturalizada, de um mecanismo totalitário de perseguição política e imposição de consenso. O mais grave no caso brasileiro é que, aqui, a falsificação midiática se converte em fundamento jurídico. Quantos inquéritos e procedimentos ilegais conduzidos por nossos juristocratas do STF e do TSE não tiveram origem em matérias mentirosas — como a infame peça de denuncismo de Guilherme Amado, do portal Metrópoles, que resultou na prisão política de Filipe Martins? E quantas não foram as matérias subsequentes, encomendadas justamente para, mediante o assassinato de reputação da vítima, normalizar e justificar a perseguição disfarçada de decisão judicial?

A BBC mentiu sobre Trump — e caiu em desgraça. Já a Globo mente sobre o Brasil — e recebe mimos e patrocínios oficiais. Em vez de afastados, seus desinformantes profissionais são premiados e condecorados. Eis uma diferença civilizacional. A imprensa britânica, ainda que decadente e envolta numa cultura suicida, sente-se obrigada a preservar ao menos as aparências de ética profissional: quando é apanhada com a mão amarela, tenta escondê-la. A brasileira, ao contrário, exibe a mão amarela como troféu, tratando a manipulação como ato de bravura.
Em vez de autocrítica, a reação dos nossos radicais de redação, quando flagrados mentindo, é o refúgio num corporativismo histérico, autoindulgente e quase psicótico, que os alheia não só do público, mas da própria realidade. Que uma professora universitária de jornalismo, como Sylvia Moretzsohn, defina a profissão como a arte de “pensar contra os fatos” é sintoma eloquente desse estado terminal.
Os desinformantes brasileiros têm as costas quentes. Há todo um sistema pseudo-judiciário que depende das peças de manipulação por eles produzidas.
A Rede Globo e seus satélites – Folha, Estadão, UOL, CNN e outros templos do antijornalismo — transformaram a manipulação em engrenagem estrutural do poder. Em vez de relatar os fatos, produzem-nos. Os extremistas de microfone já não se dão ao trabalho de fiscalizar o Poder: preferem exibir, com orgulho (entre uma troca e outra de mensagens com juristocratas, entre um convescote e outro na casa de Kakay ou Zé Dirceu), a carteirinha de pertencimento ao clube. Com a chancela dos camaradas togados, converteram-se numa verdadeira polícia do pensamento, dotada da prerrogativa de decretar o que é “verdade” e o que é “desinformação”, quem é “democrata” e quem é “terrorista”.

O que a BBC faz de vez em quando, a Globo faz o tempo todo — chegando até ao cúmulo de inverter gráficos para ocultar a alta de popularidade de um adversário político. Quando uma operação judicial de conotação política é lançada contra o inimigo da hora, lá estão os telejornais, munidos de vazamentos seletivos, prontos para fabricar o consenso moral que sustentará a “decisão técnica” do ministro da Suprema Corte. O despacho vem pronto: basta copiá-lo da escaleta.
Conclui-se, pois, que o caso BBC vs. Trump não é apenas um escândalo estrangeiro: é o espelho invertido do nosso abismo. Lá, ao que tudo indica, a manipulação será punida depois de exposta. Aqui, ao contrário, o punido será quem a denunciar. Os desinformantes brasileiros têm as costas quentes. Há todo um sistema pseudo-judiciário que depende das peças de manipulação por eles produzidas. A BBC mentiu. Mas a Globo governa.
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Flávio Gordon, li o livro 1984 de George Orwell no final dos anos 1980.
Julguei que estava diante de literatura de ficção, mas a realidade estampa com clareza o que o autor pensava em 1948 quando escreveu sua obra.
Acredito que na época nem Orwell consideraria sua visão do mundo como algo que os terráqueos vivenciariam 70 anos a frente.
Soberbo. Parabéns, Flávio!
A fruto da imprensa lixo mundial
Pois é, como exemplo, quem acompanha as informações da COP 30 pela mídia tradicional, acha que está uma maravilha, e não como as reportagens da Revista Oeste.
1) Puxa, Dr. Gordon… seu texto, em cada afirmação nele contida, é de uma precisão e de uma sensibilidade picométricas, ou seja, 1.000 vezes mais do que a nanometria permite atualmente, sendo esta o limiar da mensurabilidade humana. O senhor é uma das raridades que me fazem repensar sobre se o fim do mundo seria realmente o melhor a acontecer neste momento da História.
2) Sobre sua simetria reversa, que é também uma assimetria reversa, quero acrescentar, não para complementar ou corrigir, o seguinte ponto: o episódio capitólico aconteceu 06/01, quando Donald ainda era o presidente dos Estados Unidos (Biden iria assumir por volta de 20 de janeiro). Portanto, é lógico que ele era o responsável por manter a segurança da Casa Branca e por isso é até hoje molestado pela mídia e pela Justiça.
3) Já no país para o qual a realidade é substituída pelo modelo construído pelos burocratas de plantão, de má índole, por sinal, o presidente responsável por manter a segurança da Praça era Lula, que JAMAIS foi molestado, como se o fato de ser petista fosse um álibi inquestionável.
4) Tachar um ato como crime com base em bandeiras e bonés não confere a suspeitos o direito de não ser inquirido. Quando o bolsonarista do Paraná sobreviveu aos tiros trocados com um desafeto do partido antagônico, o crime definido em lei era de um matador versus outro que foi morto. Um assassinato, legítimo ou não, foi cometido. Estamos fora da lei se julgamos crimes como esse crime olhando para ideologias professadas ou para lapelas dos envolvidos.
5) Quer o senhor acredite ou não acredite em Deus, desejo que Ele o proteja sempre e faça valer os frutos prometidos nos juramentos das carreiras que V. Sa. decidiu seguir.