E se as leis ambientais do Brasil fossem aplicadas na Europa?

"Macron poderia criar um esquema igual para a França — ele vive à beira de um ataque de nervos diante do nosso agro", afirmou J.R. Guzzo
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O Brasil pode propor, também, ao presidente da França que os agricultores europeus não cheguem a mais de 50 metros dos seus rios, nem toquem nas matas ciliares
O Brasil pode propor, também, ao presidente da França que os agricultores europeus não cheguem a mais de 50 metros dos seus rios, nem toquem nas matas ciliares | Foto: Divulgação/Flickr

(J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 28 de fevereiro de 2021)

Se o agronegócio e o governo brasileiros soubessem se defender um pouco melhor na guerra religiosa, e em geral suja, que há anos se dedica a destruir o sucesso da agricultura e da pecuária do Brasil nos mercados mundiais, bem que poderiam propor aos países europeus, os mais excitados em traficar a crença de que a soja e o boi estão acabando com “a Amazônia”, uma nova abordagem para este negócio todo. Que tal, a partir de agora, a França, a Alemanha, a Inglaterra e outros passarem a aplicar em todas as suas propriedades agrícolas as mesmas regras e as leis que o produtor rural brasileiro é obrigado a obedecer aqui dentro — e obedece mesmo, ponto por ponto, sob pena de perder o seu negócio?

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Pelo que dizem lá fora da gente, não deveria haver problema nenhum em se fazer isso, não é mesmo? Afinal, presidentes da República, primeiros-ministros, reis, rainhas, os funcionários que mandam nas organizações públicas, mais as classes intelectuais e a mídia, repetem há anos que o Brasil é uma terra de ninguém em termos de responsabilidade ambiental; aqui vale tudo. Bandos de bilionários andam por aí derrubando uma floresta por dia para socar soja, milho e boi em cima. Não há lei nenhuma para controlar essa gente. Os governos deixam fazer tudo — o governo atual, então, praticamente organiza incêndios no Pantanal e está mandando derrubar as últimas árvores da Amazônia. Em suma: é nisso que acreditam, ou que fingem acreditar.

Nesse caso, aplicar a lei brasileira na Europa não iria incomodar ninguém; tudo continuaria, lá, exatamente como é agora, pois leis que não existem não mudam nada. Não é assim? Mas aí é que está: as leis ambientais brasileiras existem, estão entre as mais duras do mundo e, se um dia pudessem ser aplicadas na agricultura e na pecuária dos países europeus, provocariam uma revolução.

Apenas uma exigência, uma só, à qual o produtor rural brasileiro já se acostumou, como está acostumado com o sol e a chuva: 20% da área de todas as propriedades rurais brasileiras (mais que isso, dependendo da região) têm de ser reservadas para matas. O proprietário não pode tirar um galho de árvore nenhuma. Não pode ganhar um tostão com esse quinto da sua propriedade. Mais: se não houver mato na sua terra, tem de plantar, com dinheiro do seu próprio bolso, ou então comprar, também com dinheiro do seu próprio bolso, uma nova área só com árvores para juntar à sua terra. É óbvio que não recebe nenhuma compensação do Estado, nem abatimento de um centavo de imposto, pelo investimento que faz em favor do meio ambiente; ao contrário, a única coisa que recebe são multas a cada vez que a vigilância por satélite ou o fiscal detectam que está faltando alguma árvore que deveria estar lá.

Então: podemos sugerir, por exemplo, que o presidente Macron crie um esquema igual para a França — já que ele vive à beira de um ataque de nervos diante do agro brasileiro. O Brasil pode propor, também, que os agricultores europeus não cheguem a mais de 50 metros dos seus rios, nem toquem nas matas ciliares. Melhor ainda: por que não aplicam por lá o novo “zoneamento econômico e ecológico” de Mato Grosso? Essa última criação dos ambientalistas militantes em nosso serviço público considerou 4 milhões de hectares do Vale do Araguaia como “zona úmida” e em “zona húmida”, por decisão dos autores do “zoneamento”, não se pode produzir nada, nem peixes criados em tanques de água.

Seria interessante ver o que aconteceria se os governos ecológicos da Europa declarassem “zonas húmidas” de 4 milhões de hectares nas bacias do Rio Sena, ou do Rio Reno, ou do Rio Pó — e botassem o povo de lá para fora.

Leia também: “O agro sob novo ataque”, reportagem publicada na Edição 49 da Revista Oeste

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9 comentários

  1. Infelizmente o Macron não terá acesso a este texto. Mas alguém poderia enviar, de forma oficial, pela Embaixada, incluindo a alguns jornais europeus.

  2. Se Brasil resolver não fazer negócio com quem não têm a mesma área preservada ( 64% do território nacional) faria negócio com poucos países.

  3. A França tem somente 28% de preservação de florestas, enquanto o Brasil possui 59% do território,
    Este presidente francês não conhece nada, Está preocupado com o nosso agronegócio que é um dos melhores do mundo.

  4. É mais uma guerra comercial suja de um continente quebrado. Eles não conseguem proteger nem a madeira das catedrais, a sua última fonte de renda, o turismo.

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