De um corpo para uma vara de porcos

Pensar, ouvir e ler, dizer e escrever, são atos que requerem coragem, muita coragem
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Coppo di Marcovaldo (atribuição), Inferno, mosaico. Batistério de São João, Florença, Itália
Coppo di Marcovaldo (atribuição), Inferno, mosaico. Batistério de São João, Florença, Itália

Certos intelectuais e artistas brasileiros já não enganam mais, sentimos vontade de erguer o volume e proclamar que sua incompreensão já é demais, nunca se viu alguém tão incapaz de compreender que o nosso amor pela verdade é grande, maior do que tudo o que existe.

Eles têm que acreditar em nós, ninguém pode destruir assim um grande amor, que é o amor de olhar para as pessoas, para as coisas e para os fatos como são, não como outrem determinou que fossem!

Outrem é uma palavrinha danada de insidiosa e sutil: não é exatamente o outro, uma vez que o outro pode ser também o Outro, isto é, aquele que não queremos designar explicitamente, seja na expressão “como diz o outro”, seja numa personalidade talvez abominável e que por isso é um codinome de Satanás no português, podendo ser um indivíduo ou uma coleção deles, a Legião, como o próprio Demônio disse ao ser expulso de um corpo: o nosso nome é Legião.

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Marcos, Mateus e Lucas

No português, dá um bom trocadilho esta passagem evangélica, narrada por três dos quatro evangelistas canônicos, sendo que Marcos e Lucas dizem que era uma só pessoa, mas Mateus reporta que eram dois.

De todo modo, a Legião deixou o corpo que habitava e dominava e meteu-se numa vara de porcos, pois como sabemos os porcos sempre se juntam num lugar, e os limpos em outro. De corpo para porco, então. Para quem quiser ler, reler ou conferir, é uma passagem encantadora e bem escrita, também bem traduzida, está em Marcos 5: 1-20; Mateus 8: 28-34 e Lucas 8: 26-39.

Não caluniemos, porém, o caluniador, significado em hebraico de Satanás, pois ele se torna invejável diante de políticos que fazem aliança com quaisquer outros, mesmo contrários a eles mesmos – não, diferentes apenas – e até mesmo hostis. E Satanás, não! Ele enfrenta uma força poderosíssima, o próprio Onipotente, e não faz acordo de jeito nenhum. Sabe que o final jamais será feliz para ele, mas arrosta a luta até o mais amargo fim. Mesmo tentando e vencendo algumas vezes, sabe que no fim a derrota será inevitável, mas o Coiso, esta qualidade ele a tem, é coerente.

Eles que parem de dar ouvidos à maldade alheia, ainda que sua estupidez não lhes permita ver que muitos de nós os amamos, mas não a todos, é claro (risos), uma vez que continuam valendo famosos versículos do Apocalipse.

Coppola e Conrad

Neste caso, não é um trecho do grande e memorável filme Apolcapyse Now, de Francis Ford Coppola, baseado em O coração nas trevas, romance do escritor britânico de origem polonesa Joseph Conrad, Prêmio Nobel de Literatura, que tem papéis magistrais de Marlon Brando e Robert Duval, entre outros. O filme é – como se diz, mesmo? – cult.

É sobre um horror ainda mais antigo e está no capítulo três, versículos 15 e 16 do Apocalipse de São João, tema de doutorado de um padre brasileiro com dois doutorados, que atualmente trabalha no Rio de Janeiro: Pedro Paulo dos Santos, e é autor do livro Apocalipse: do Espírito da Verdade ao Espírito da Profecia. A obra, de profundas reflexões contra correntes dominantes, que desarrumam as ideias para melhor ordená-las, pode ser adquirida também nas lojas da Magazine Luíza, vejam vocês.

O padre ou pastor João Ferreira de Almeida traduziu assim um trecho memorável do Apocalipse: “Conheço as tuas obras, sei que nem és frio nem quente; quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”.

Bolsonaro, Temer, Lula e Dilma

Sim, a mesóclise não é propriedade particular do ex-presidente Michel Temer, às vezes ela até evita cacófatos e cacofonias. Esse tipo de colocação do pronome oblíquo átono entre o radical e a desinência do futuro, seja do presente, seja do pretérito, já recebeu dois cartões amarelos, mas nenhum cartão vermelho, como o trema, que deixou imensas saudades.

Mas, bem entendido, o trema só foi expulso do campo na escrita, alterando a forma e não o gosto da linguiça, e não da fala. Tanto que o presidente Bolsonaro põe trema até onde não tem: ele costuma dizer “qüestão” em vez de questão. É tratado por esses “certos intelectuais e artistas” citados nesta coluna como se fosse famosa personagem de um cantor e compositor que é preferência nacional, pois é uma espécie de Geni fora de lugar: “Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni”.

Diferentemente da injustiçada moça, entretanto, o presidente tem o estranho prazer masoquista de atiçar quem não está quieto, mas daria menos trabalho se não fosse provocado. De todo modo, aqueles que dele nada perdoam ou relevam são os mesmos que exageram na clemência e na misericórdia espargidas em baldes sobre seus antecessores e antípodas, os ex-presidentes Lula e Dilma.

Quanto ao ex-presidente Michel Temer, nem parece que o elegeram na mesma chapa da conhecida senhora fora da casinha, pois nem bem substituiu a titular, depois da autorização do juiz Ricardo Lewandowski, conhecido por ter sido revisor do relator, seu colega de Corte, Joaquim Barbosa, com quem convivia às turras, mesmo que tivessem sido indicados ao STF pelo mesmo então presidente Lula. Foi Lewandowski quem determinou que ela devia sair de campo para a entrada do reserva, mas passaram a pedir que o reserva fosse expulso sem sequer ter tocado na bola, quanto mais nos adversários.

Millôr e Roberto Carlos

De resto seria perda de tempo dar atenção a idiotas que não usam a inteligência uma vez só, eles vão ficar sozinhos por tomar decisões na vida sem pensar. Ainda dá tempo de recomendar a cada um, uma vez que alguns entre eles são realmente artistas e intelectuais de referência. Mas seus seguidores parecem viver em manadas. Afinal, pensar, ouvir e ler, dizer e escrever, são atos que requerem coragem, muita coragem.

Eles que contemplem outros atos que executam sozinhos na vida, incluindo o que fazem no banheiro, que às vezes é “o último refúgio da liberdade”, como dizia Millôr Fernandes, e se deem conta de que é possível, sim, na estação da vida em que se encontram, fazer alguma coisa sozinhos: discordar das manadas, por exemplo.

Se não nos cabe a carapuça sugerida pelo cantor Roberto Carlos, contemos ao menos até três, se precisar contemos outra vez, e agradeçamos a esse rei extraordinário que, quase sempre em parceria de Erasmo Carlos, enriqueceu o cancioneiro nacional com letras e músicas inolvidáveis.

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4 comentários Ver comentários

  1. Deonísio: De repente, não mais que de repente, deparo-me diante de um monumento de alegorias, que é aqui por você exposto. Arrebatador, magnífico, memorável seu texto !!! Que bom começar a minha semana em paz com a erudição, cultura e inteligência. Você coloca luz e claridade direto em nossas veias, nessa escuridão perpetrada por “intelectuais de araque” e suas manadas !!! Apesar dos meus 7.1, ainda continuo aprendendo. Vou comprar o livro do Pedro Paulo dos Santos, para mais algum aprendizado !!! Deonísio, muito obrigado. Continuo muito feliz por ser assinante da Revista Oeste e ter o privilégio de ler artigos como os seus !!!

  2. 👆 Magnífico!
    Cada brasileiro deveria ler, sobretudo, as manadas! Mas se lessem não adiantaria, porque, provavelmente, não entenderiam…

    Deonísio, meu querido, teu jeito de dizer as coisas é admirável e apaixonante.

  3. Excelente e parabens a Deonísio Silva, que bom começar a semana fazendo uma leitura desta sua coluna que reflete o mometo presente dos ditos “intelectuais” .

  4. Deonísio estava inspirado, hoje. Romance, drama, poesia, sarcasmo, ironia, tudo misturado.
    E a vara inteira se suicidou, não é?

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