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Megaoperação mira décadas de domínio do Comando Vermelho no Rio

Facção mantém seu quartel-general nos complexos da Penha e do Alemão

Popular passa diante de muro pichado com as iniciais do Comando Vermelho | Foto: Alaor Filho/Estadão Conteúdo crime
Popular passa diante de muro pichado com as iniciais do Comando Vermelho | Foto: Alaor Filho/Estadão Conteúdo

A megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão realizada na manhã desta terça-feira, 28, deixou mais de 60 mortos e expôs o poderio acumulado pelo Comando Vermelho ao longo de quase cinco décadas de atuação em favelas do Rio de Janeiro.

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A ação, batizada de Contenção, mobilizou 2,5 mil agentes das Polícias Civil e Militar e resultou em mais de 80 prisões. A operação tornou-se a mais letal da história do Estado, superior aos 28 mortos registrados na ação do Jacarezinho em 2021.

O governador Cláudio Castro definiu a operação como uma ação de Estado de Defesa. “Esta operação tem muito pouco a ver com segurança pública”, afirmou. “É uma guerra que está passando os limites de onde o Estado deveria estar defendendo sozinho.”

Comando Vermelho nasceu das guerrilhas

O Comando Vermelho surgiu no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, em 1979. A organização nasceu da convivência entre presos políticos e criminosos comuns durante o regime militar. Inicialmente chamada Falange Vermelha, a facção se estruturou a partir de técnicas organizacionais aprendidas com militantes comunistas opositores ao regime.

Segundo o livro Comando Vermelho: A História Secreta do Crime Organizado, escrito pelo jornalista Carlos Amorim e premiado com o Jabuti, os detentos comuns aprenderam técnicas de guerrilha urbana, leram textos de Karl Marx e Che Guevara e desenvolveram uma estrutura organizacional baseada nos movimentos revolucionários.

No mesmo ano de sua criação, um confronto marcou a tomada definitiva de poder pelo Comando Vermelho no presídio. A partir daí, a facção estabeleceu um código de conduta que incluía o sistema da “caixinha”, em que parte dos lucros era destinada ao custeio da liberdade de companheiros presos.

A mudança estratégica do CV ocorreu em 1982, quando a organização deixou os assaltos a bancos para concentrar-se no tráfico de drogas. Com a transferência de lideranças para outros presídios, a facção espalhou-se pelo sistema carcerário e, posteriormente, por favelas do Rio.

Nos anos 1980, a facção criou uma extensa rede de distribuição de drogas e armas e estabeleceu controle sobre várias favelas do Rio. A partir dos anos 1990, expandiu operações para outros Estados brasileiros e países vizinhos.

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Alemão e Penha: bases estratégicas da expansão territorial

O Complexo do Alemão tornou-se o quartel-general do Comando Vermelho por causa de sua posição estratégica. A região tem fácil acesso às principais vias rodoviárias do Rio, como Avenida Brasil, Linha Amarela, Linha Vermelha e Avenida Pastor Martin Luther King Jr., o que facilita o recebimento e o escoamento de drogas, além de oferecer diversas rotas de fuga.

O território expandiu-se depois da abertura da Avenida Brasil, em 1946, que transformou a região no principal polo industrial da cidade. Atualmente, o Complexo do Alemão reúne 15 comunidades e tem cerca de 70 mil habitantes.

Complexo do Alemão é tomado pelo Comando Vermelho | Imagem: Mapa das Facções/Reprodução
Complexo do Alemão é tomado pelo Comando Vermelho | Imagem: Mapa das Facções/Reprodução

O Complexo da Penha tornou-se um ponto estratégico para a expansão territorial do Comando Vermelho, especialmente em direção à zona sudoeste, nas comunidades de Jacarepaguá. Situado entre as principais vias expressas do Rio, funciona como centro de deslocamento de homens armados e base para os principais líderes da facção.

Segundo denúncia do Ministério Público do Rio, Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, é o principal líder do Comando Vermelho no Complexo da Penha e em outras comunidades da zona oeste. O Disque Denúncia do Rio oferece R$ 100 mil por informações sobre ele, o maior valor da história, ao lado de Fernandinho Beira-Mar.

A expansão do CV

De acordo com o Mapa dos Grupos Armados, parceria entre o Instituto Fogo Cruzado e a Universidade Federal Fluminense, o Comando Vermelho foi a única facção que expandiu território em 2023. A organização ultrapassou as milícias e passou a responder por mais da metade das áreas dominadas por grupos criminosos na Região Metropolitana do Rio.

Os números confirmam o que as ruas do Alemão e da Penha ainda mostram: 45 anos depois de surgir nas celas da Ilha Grande, o Comando Vermelho continua a impor sua presença e testar os limites da autoridade do Estado.

Leia também: “A ousadia do crime organizado”, reportagem de Edilson Salgueiro publicada na Edição 243 da Revista Oeste

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