Revista Oeste - Eleições 2022

Não complicarás

Churchill recomendava que das palavras fossem escolhidas as mais simples, e das mais simples a menor
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Foto: Divulgação
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Começo hoje uma coluna de outro viés. Destina-se a explicar certas palavras e convidar os leitores a examinar alguns absurdos de nossa vida política. Por sugestão de Augusto Nunes, comecemos por desincompatibilização.

Churchill recomendava que das palavras fossem escolhidas as mais simples, e das mais simples a menor. A política brasileira segue o caminho contrário: alonga e complica. Ou alguém se preocupou com o que o cidadão entenderia por des-in-com-pa-ti-bi-li-za-ção, esta estranha novena de sílabas, quando a formulou? Há candidatos que erram os prazos e até se atrapalham na pronúncia, como Lula quando diz triplex. Se atender aos puristas e disser tríplex, vai disparar perigosos perdigotos boca afora. Aliás, perdigoto veio do nome do chumbinho para matar perdiz, o latim perdicottus, filhote de perdiz.

Dos consultados, o senador Esperidião Amin foi objetivo: “No sentido ELEITORAL da palavra, é o afastamento do cargo que o cidadão exerce para disputar uma eleição”. Todavia um cipoal de leis define os cargos, os meses de afastamento, como e a partir de quando contar. E valerá a data da publicação do afastamento no Diário Oficial.

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O étimo da palavra é o latim patibilis, que deu compatibilis. Escolheram a dedo uma palavra que tem três prefixos envolvidos: “com”, ”des” e “in”, que indicam quatro coisas numa palavra só. O que era patível, isto é, tolerável, tornou-se compatível: tolerável também, mas em companhia. Depois veio incompatível, indicando o contrário da dupla anterior: com e patível. A seguir, desincompatível, a soma de mais duas: “des” e “in”. Mas não parou aí. Desincompatibilização ainda exigiu “za” e “ção” para designar a ação de impedir.

Do mais e do menos cuidará o Tribunal Superior Eleitoral, instância de poder inexistente em democracias referenciais do mundo. Não seria mais simples a liberdade? Que os eleitores votassem em quem quisessem? Afinal já estão grandinhos para saber quem usa os cargos em que está ou estará.


Professor, escritor e doutor em Letras pela USP, Deonísio da Silva é autor de De Onde Vêm as Palavras (Editora Almedina), entre outros livros.

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5 comentários Ver comentários

  1. Simples e objetivo. O texto do professor Deonísio vão na contramão das vaidades acadêmicas de seus pares. Seguiu os bons conselhos de Churchill, parabéns!

  2. Sinto muito mas neste caso específico, esse prefixos e sufixos são essenciais, não há outra forma de manifestação. Mas foi muito didática a demonstração da formação de nova palavra através desses prefixos e sufixos: patível, compatível, incompatível, desincompatibilizar, e finalmente desincompatibilização. Excelente exemplo.

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