Ozires Silva: o homem que convenceu um presidente de que o Brasil precisava fabricar aviões

Fundador da Embraer e ex-presidente da Petrobras, executivo analisa momento de setores-chave do país
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Aos 91 anos, Ozires Silva é presidente do Conselho Estratégico da Ânima Educação
Aos 91 anos, Ozires Silva é presidente do Conselho Estratégico da Ânima Educação | Foto: Divulgação

São 91 anos de idade, e a maioria da vida dedicada à gestão de empresas emblemáticas do Brasil. Ozires Silva poderia descansar em cima de um legado que inclui a criação da Embraer, entre outras linhas de currículo de bastante respeito. Mas o veterano executivo continua na ativa, hoje como presidente do Conselho Estratégico da Ânima Educação.

Além de tirar o sonho Embraer do papel, e de décadas depois liderar o processo de concessão da fabricante de aviões à iniciativa privada, Ozires comandou a Petrobras nos anos 80, num dos momentos mais delicados da história econômica brasileira. De quebra, ainda foi presidente da Varig e duas vezes ministro — Infraestrutura e Comunicações.

Em conversa com Oeste, Ozires Silva comentou sobre o momento desafiador da Petrobras, diante de um cenário global de crise de combustíveis e falou sobre a necessidade de a empresa de economia mista buscar inovação. O executivo ainda exaltou a fase da Embraer conquistando o mundo e revisitou um episódio importante da carreira, quando convenceu um presidente da República de que o país precisava ter uma fabricante de aviões.

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Petrobras: inovação para perpetuar sucesso

Ozires Silva foi o 19º presidente da história da Petrobras, entre 1986 e 1988. Naquele momento, com o país presidido por José Sarney, a economia nacional vivia sobressaltos quase semanais, com planos sucessivos na batalha contra a inflação. Hoje, o Brasil lida com um cenário menos grave, mas desafiador, em meio à instabilidade provocada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia.

“O mercado mundial de energia é crescente em todos os tempos, mesmo agora nós vemos que com as disputas e guerras atuais, o petróleo tem importância capital. Isso atinge a Petrobras e todas as empresas do setor no mundo”, comentou Ozires Silva, clamando por uma reflexão sobre identidade.

“A Petrobras precisa encontrar a sua participação, e também inovar, para se perpetuar como empresa de sucesso. Energias alternativas são necessárias, mas ainda não conseguem substituir o petróleo em muitas áreas”.

Coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), o executivo havia sido o último militar na presidência da Petrobras até o general Joaquim Silva Luna, que deixou o cargo no fim de março e foi substituído pelo empresário José Mauro Ferreira Coelho. Para Ozires, este detalhe de currículo não é relevante para escolher nomes para a empresa.

“Sinceramente, sequer notei esse fato. Os presidentes da Petrobras são indicados pelo Conselho de Administração em função da estratégia da empresa. Ser militar ou civil não me pareceu ter sido critério de escolha no meu caso nem no caso atual”, comentou.

Embraer além dos aviões tradicionais 

A Embraer nasceu principalmente do sonho e persistência de então major da FAB Ozires Silva nos anos 60. Engenheiro aeronáutico de formação, o militar liderou um grupo de técnicos no desenvolvimento do Bandeirante, avião bimotor turboélice que deu largada a uma história de sucesso da companhia.

Hoje, a Embraer é uma corporação com tentáculos internacionais e cooperação com empresas estrangeiras. É a terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo, que vem se lançando em projetos ousados, como o eVTOL, apelidado de “carro voador”, um veículo elétrico de pouso e decolagem na vertical.

“Fico muito feliz de ver a Embraer de hoje muito conectada com todas as tendências mais contemporâneas. A empresa sempre se dedicou à inovação e a fazer aviões competitivos e que pudessem ser exportados. Essa mentalidade não só se mantém, mas foi ampliada para limites além dos aviões tradicionais”, afirmou Ozires Silva.

Conversa com o presidente

No seu livro “Cartas a um Jovem Empreendedor“, Ozires Silva conta o passo a passo da fundação da Embraer, empresa de economia mista, inicialmente vinculada ao Ministério da Aeronáutica. A criação da companhia enfrentou vários desafios e atrasos, com dificuldades de conseguir investidores e de obter apoio mesmo em esferas burocráticas no governo.

Neste período, numa manhã de domingo de 1968, o major da FAB decidiu trabalhar e foi contemplado por um golpe de sorte. Ganhou de repente uma sessão de uma hora com o presidente Artur da Costa e Silva. Depois disso, a Embraer enfim decolou.

“A conversa com o presidente foi inesperada. Ele estava voando para um compromisso em Guaratinguetá e, por questões meteorológicas, teve que ser dirigido a São José dos Campos, próximo ao Centro Tecnológico da Aeronáutica, onde o projeto do avião Bandeirante estava sendo feito. Como eu estava sozinho no local, fui designado a recebê-lo. Aproveitei a oportunidade para levar o presidente para conhecer o protótipo do Bandeirante”, relatou.

“Na época, tínhamos como pretensão para o Bandeirante que ele fosse um avião capaz de conquistar mercados internacionais. Com a visita do presidente, a equipe que eu liderava se dedicou ainda mais à pesquisa do assunto para viabilizar a vontade que tínhamos para que esse avião fosse relevante, pudesse ser produzido aqui e exportado.”

Países prosperaram com investimento em educação

Atualmente, Ozires Silva leva a experiência executiva à Ânima, um dos maiores grupos privados de educação do país. Perguntado por Oeste sobre as perspectivas para o Brasil em um ano de eleição, o executivo disse que preferia não entrar em política. Mesmo assim, destacou sua visão de que o posicionamento competitivo da nação passa por conferir à educação um papel estratégico.

“Prefiro não falar sobre política, mas sempre apoiarei, no nível pessoal, as questões ligadas ao aprimoramento da educação”, comentou.

“Os países hoje competem entre si nos mercados mundiais através de suas capacidades. A capacidade, em suas várias facetas, depende sempre dos níveis de educação do seu povo. Temos vários casos de países que prosperaram com o investimento em educação de qualidade, qualificadora e inovadora. Temos muito a fazer aqui no Brasil. Nossos resultados ainda são, em média, abaixo do que gostaríamos. A Ânima é uma organização muito comprometida em melhorar nosso cenário educacional e em oferecer educação de qualidade, expresso até mesmo em seu propósito de ‘Transformar o Brasil pela Educação’. Tento dar minha contribuição com eles.”

A sociedade viverá outras pandemias

Além de aeronáutica e administração pública, Ozires Silva levou seu espírito empreendedor a outras áreas. Em 2003, o executivo ajudou a criar em Ribeirão Preto a Pele Nova Biotecnologia, empresa focada em saúde humana e dedicada ao desenvolvimento de tecnologias de regeneração e engenharia tecidual.

A passagem pela indústria da saúde ajudou o executivo a entender o desafio atual do mundo diante da ameaça do coronavírus.

“Desde que a humanidade floresceu, os recursos do planeta têm sido usados para seu proveito próprio. Nesse processo, agredimos a natureza. A pandemia atual, e mesmo outras anteriores, são fruto desse modelo. O que devemos aprender é como melhorar o uso dos recursos que nosso lindo planeta nos oferece.”

“A sociedade viverá outras pandemias no futuro, penso que estamos mais preparados do que nunca. A rápida resposta da medicina com a produção de vacinas foi impressionante. Mas precisamos entender como prevenir o processo pandêmico.”

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