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Traficantes do Rio usam redes para ostentar poder e divulgar apostas clandestinas

Entre as imagens, adolescentes aparecem com fuzis, fazem gestos da facção e divulgam propagandas de apostas ilegais

Operação Conteção tráfico Rio
Operação Conteção apreendeu armamentos no Rio | Foto: Reprodução/Instagram Secretaria Segurança Rio

Criminosos seguem usando as redes sociais para exibir armas, ostentação e confrontos no Rio de Janeiro. Parte desse material foi usada pela Polícia Civil para relacionar mortos nas operações, em 28 de outubro, nos complexos da Penha e do Alemão ao Comando Vermelho (CV).

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Entre as imagens, adolescentes aparecem com fuzis, fazem gestos da facção e divulgam propagandas de apostas ilegais. Também são comuns registros de motos, roupas de marca, dinheiro e cenas de violência, informa a Folha de S.Paulo.

O subsecretário de inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Pablo Sartori, afirma que esse tipo de conteúdo serve para reforçar a imagem da facção.

“As facções usam as redes sociais como ferramenta interna para as comunidades dominadas, bem como de forma externa, buscando melhorar sua imagem na sociedade. Embora não seja feito de forma tão profissional, é sim uma ação de marketing.”

Famílias de jovens mortos dizem ter tentado afastá-los do crime, mas, segundo o jornal, relatam que muitos eram convencidos pelas promessas de poder e pelo estilo de vida exibido pelos traficantes on-line. A polícia também atribui a aproximação ao contato direto com criminosos pelas redes.

A psicóloga forense Patrícia Barazetti, com mais de 20 anos de carreira, explica que a exposição digital atua sobre indivíduos já fragilizados psiquicamente. Para ela, “quando o sujeito opta por se conectar ao ilícito, ele já tem um afrouxamento de aparelho psíquico muito grande”. Ela completa:  “A moral e a ética não funcionam como deveriam”.

Patrícia observa ainda que “as redes sociais acionam os mesmos circuitos cerebrais de prazer, os mesmos mecanismos compensatórios daquela pessoa que usa droga ou que tem um ganho material” e que isso inclui as bets ilegais.

Segundo ela, muitos apresentam traços narcisistas e acreditam que não serão alcançados. “Essa ostentação vai preencher uma lacuna de identidade e autoestima. Cria um pseudolugar de poder e respeito.”

Há outro aspecto, segundo ela.

“Também existe a questão de se sentir pertencente àquele movimento. Há componentes de impulsividade e déficit de autorregulação.”

A divulgação de apostas ilegais é outro ponto de investigação. A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda encerrou 45 contas de empresas irregulares no primeiro semestre.

No mesmo período, foram removidas 112 páginas de influenciadores e 146 postagens que promoviam esses sites. Em um boletim de ocorrência, uma vítima relatou ter tido dados bancários roubados após acessar uma bet clandestina, e um empréstimo de cerca de R$ 9 mil foi feito em seu nome.

A Meta, responsável pelo Instagram, diz que não permite “o uso de nossos serviços para promover atividades criminosas nem conteúdos que glorifiquem, apoiem ou representem organizações e indivíduos perigosos”.

A empresa garante que tem removido conteúdo suspeito.

“Removemos esse tipo de conteúdo sempre que identificamos violações e estamos continuamente aprimorando nossa tecnologia e treinando nossas equipes para detectar e lidar com atividades suspeitas.”

As denúncias também são importantes, segundo a Meta.

“Também incentivamos as pessoas a denunciarem qualquer conteúdo que considerem contrário aos nossos Padrões da Comunidade. Trabalhamos com autoridades e respondemos a solicitações legais, colaborando com forças de segurança nos termos da legislação aplicável”, acrescentou.

Depois de questionamento da reportagem, conteúdos de Cocão foram retirados.

Uma das lideranças entre os traficantes

O principal alvo das investigações é Alexandre Germano da Conceição Ferreira, 19, o Cocão da Serrinha, considerado uma das lideranças do Terceiro Comando Puro. Com cerca de 40 mil seguidores e nenhuma prisão anterior, ele responde a sete processos em menos de um ano, por crimes como tortura, tráfico e homicídio.

Leia mais: “Comando Vermelho usa escola como depósito de drogas no Rio”

Nas redes, ele exibia confrontos com o CV, armas e propagandas de bets. Uma dessas marcas já havia aparecido em papelotes de cocaína apreendidos. A Polícia Civil apura se essas plataformas servem para lavar dinheiro e se há tentativas de legalização de empresas para reforçar o caixa do grupo.

Golpes que envolvem sites ilegais de apostas também foram registrados. Uma vítima relatou, em boletim de ocorrência, ter tido dados bancários roubados depois que acessou um link de uma bet não autorizada. Foi feito em seu nome um empréstimo de cerca de R$ 9 mil. A polícia considera que os suspeitos seriam ligados ao tráfico.

A Folha não localizou a defesa de Cocão. Procurada pelo jornal, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) não quis se manifestar sobre as publicações de apostas.

Foragido, segundo a Folha, Cocão foi visto em videochamada com o rapper Oruam e com Edgar Alves, o Doca, considerado o principal líder do Comando Vermelho em liberdade. Chamadas desse tipo costumam funcionar como provocações entre facções. Oruam é filho de Márcio Nepomuceno, o Marcinho VP, preso em unidade federal. A defesa dele nega que ele continue sendo liderança do CV. Oruam não se manifestou.

Em ações recentes, como a Operação Contenção, policiais prenderam suspeitos que eram exibidos algemados nas ruas. Paralelamente, investigações do Ministério Público atribuem a integrantes do CV estruturas de trincheiras na mata, registros de contabilidade do tráfico e episódios de tortura.

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