Os aficionados por literatura sabem bem que há livros que nos embalam de uma forma absurda. Foi o que aconteceu comigo em relação ao lançamento da Vide Editorial deste mês, Como destruir a civilização ocidental: e outras ideias do abismo cultural, de um dos melhores filósofos conservadores ainda vivos, Peter Kreeft. Minha história com Peter remonta ao livro Manual de defesa da fé: apologética cristã, escrita por ele e Ronald K. Tacelli.
Aos meus 26 anos, passei por uma espécie de deserto da fé — àqueles experimentados no simbolismo cristão me entenderão —, eu estava realmente em dúvidas sobre minhas crenças e minha existência como um todo. De forma muito interessante, um padre e um amigo agnóstico, vendo minha angústia, recomendaram-me essa obra, o padre pensando em minha reconversão; e o agnóstico, por estar se convertendo e achando o livro maravilhoso.
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Faço essa introdução para deixar claro aos leitores que Peter Kreeft é um confesso cristão católico, escreve e pensa sob essa perspectiva. Entretanto, o que o torna tão instigante não é exatamente a sua defesa de um ponto de vista cristão e conservador, mas a profundidade filosófica que ele engaja em suas análises sobre a existência e a sociedade — tal como foram os cristãos G. K. Chesterton e C. S Lewis outrora.
Kreeft é um autor que, mesmo que você não concorde com ele ou com alguns de seus argumentos, ele o fará pensar, considerar sua posição, tudo isso com uma seriedade filosófica e metodológica típica dos grandes pensadores. Há pouco, por exemplo, terminei também a leitura de Doors in the walls of the world (Portas nas paredes do mundo, em tradução livre), um livro curto, de 130 páginas, onde o referido autor reflete sobre os sinais da transcendência que podem ser notados por meio da imanência, bem como o modo pelo qual as diversas culturas e religiões sempre viram essas “portas através das janelas do mundo” como sinal de algo além delas, do mundo e da efemeridade de nossas existências.
Guerra cultural, “progressismo” e destruição da civilização
Em Como destruir a civilização ocidental, Kreeft faz uma das mais profundas e, ao mesmo tempo, acessíveis reflexões sobre como o “progressismo” esquerdista está desmoronando toda a base cultural ocidental e entregando em seu lugar um tecido ideário e humano disforme, sem essência e arrimo cosmológico. Não só transcendental, mas mesmo jurídico, filosófico e político.
“Progressismo” esse que, por constituição, se reveste de uma fluidez ideológica que não se sustenta e nem entrega a mínima ordem aos indivíduos. O livro aborda, assim, temáticas amplas, sempre focado na reflexão do que é uma sociedade e qual o papel da cultura ou manutenção histórica dessa, para um bom convívio humano. Especialmente no capítulo sete, “Doze valores fundamentais”, e no treze, “Dezessete liberdades”, o autor explora aquilo que poucos comentaristas e pensadores conservadores abordaram de forma tão coesa e profunda — talvez somente o livro Os valores fundamentais, do ótimo filósofo e padre Battista Mondin o tenha igualado.
Em tempos nos quais sequer conseguimos definir o que é uma mulher, em que debatemos “linguagem neutra” e “fluidez sexual”, a clareza moral, o ensino límpido e assertivo são virtudes urgentes de serem cultuadas
Pedro Henrique Alves
Como professor emérito da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, Kreeft carrega em seus mais de 70 livros a virtude da clareza moral e da didática professoral; dificilmente você lerá um livro seu e sairá com a sensação de que não entendeu nada. E, acreditem, em tempos nos quais sequer conseguimos definir o que é uma mulher, em que debatemos “linguagem neutra” e “fluidez sexual”, a clareza moral, o ensino límpido e assertivo são virtudes urgentes de serem cultuadas.
Nessa obra aqui resenhada, o autor nos mostra com nitidez a estratégia do “progressismo” e como a cultura Ocidental vem aceitando seus avanços de forma passiva e abobalhada. Mas não se enganem, não se trata de uma análise empolada dos desenvolvimentos da Escola de Frankfurt e dos cadernos de Gramsci somente, mas, direto ao ponto, Kreeft nos apresenta como a desestabilização moral, confusão filosófica e fraqueza espiritual se mancomunam numa espécie de implosão de tudo aquilo que foi bom e necessário para nos trazer até aqui com segurança, relativa paz e avanço social e econômico.
O objetivo do novo livro de Peter Kreeft

E, para aqueles que não concordarão com tal afirmação, ele pede-nos para olhar para as culturas vizinhas e fazer uma breve comparação para termos uma sensação de que a civilização Ocidental não só foi a mais estruturada e humana, como a mais segura e livre. Comparação que outros renomados analistas sociais atualmente vêm fazendo em seus livros, tal como Douglas Murray, Spencer Klavan e Jonah Goldberg.
Da arte ao ambiente familiar, nada passou incólume à missão destrutiva da revolução cultural esquerdista, aponta-nos Peter Kreeft
Pedro Henrique Alves
A intenção do livro é fazer um voo panorâmico sobre toda terra arrasada que o “progressismo” já conseguiu causar, mas também esmiuçar, quando necessário, as estratégias do ataque. O livro mistura assim uma análise filosófica acurada quando autor acha necessário, com uma descrição histórica mais ampla quando o todo, naquele caso, vale mais que as partes. Da arte ao ambiente familiar, nada passou incólume à missão destrutiva da revolução cultural esquerdista, aponta-nos Peter Kreeft.
Um dos livros mais suscintos e urgentes sobre um tema ainda tão banalizado no Ocidente, tratado com tamanha displicência que chega a ser triste. É como se apoiar na ideia de que, se eu recusar-me a olhar para a janela da sociedade a fim de não ver os escombros culturais deixado pelo “progressismo”, isso fará com que o mal por fim suma sem deixar nenhuma sequela.
Confesso que tenho a clara sensação — apesar dos esforços de Olavo de Carvalho — que o Brasil ainda não entendeu o que é esse bombardeio “progressista” por meio das mídias, universidades e organizações internacionais, principalmente que se trata de um ataque coordenado que visa um fim claro de reestruturação da sociedade em busca de poder social e histórico, que, longe de ser uma teoria conspiratória de conservadores de porões, é uma das realidades mais cortantes.
Esse é o livro que presentearia a amigos, principalmente àqueles que insistem em não olhar pelas janelas para continuarem na doce ilusão que não há uma guerra cultural lá fora.






































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