Nos anos 1970, um jovem tecladista, pianista e vocalista da banda Moto Perpétuo, buscou alçar voos na carreira solo. Eram os tempos em que a Jovem Guarda começava a dar espaço para uma jovem vanguarda, de artistas independentes, que misturavam o folk, o rock, o jazz e a bossa nova em um estilo individual. Mas ao mesmo tempo popular.
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Este jovem músico cabeludo era Guilherme Arantes. Ele dividia, com uma multidão de sonhadores, as esquinas da Paulicéia. Em busca de um espaço. No meio dos passos rápidos, das buzinadas, de um cenário tão colorido da cidade cinzenta e linda.
E este espaço surgiu exatamente há 50 anos, quando ele se desligou do Moto Perpétuo. Em suas andanças, mal sabia que ajudaria a eternizar a cidade de São Paulo, onde nasceu, como um retrato cultural de uma época, conforme ele contou nas redes sociais.
Aos 72 anos, Guilherme, aliás, é um dos artistas que melhor se comunicam com o público nestas plataformas atuais. É direto, sincero e sensível em suas mensagens. Chama a atenção por verdadeiramente compartilhar suas experiências, análises e frustrações, em relação à atual indústria do entretenimento, para ele muito direcionada a modismos, aparências e à obsessão pela visibilidade.
“25 de Novembro de 1975. Uma mera terça-feira. 25 de novembro de 2025. Outra mera terça-feira”, contou ele no Facebook, no dia em que sua vida mudou, há 50 anos.
“Minha saída do Moto Perpétuo havia sido traumática para mim, um desastre por absoluta inviabilidade, sem empresário, sem shows nem perspectivas reais além de um repertório rebuscado e grandiloquente (onde uma quilométrica Raça de Heróis era o destaque).”
Foi então que ele começou seu périplo pela capital paulista.
“Resolvi seguir meu caminho. Agora eu seria um cantor. Eu queria ser popular. Eu conhecia um estudiozinho mono, chamado Pauta, na Rua Major Quedinho, esquina com a Rua Santo Antônio (eu estivera ali gravando com Tom Zé e Tiago Araripe pouco antes de montarmos o Moto Perpétuo), um estúdio onde havia um piano de cauda…”
No seu depoimento, Guilherme trata sua obra com tanta intimidade, que chega a ser informal. Escreve como um fã de si mesmo. Sem arrogância, apenas com espontaneidade, chama Meu Mundo e Nada Mais de à meia-noite à meia-luz, termo que se popularizou na letra da consagrada canção. Naquele momento, este mundo começava a se mostrar.
“Em outubro eu gravei ali uma demo, com algumas outras músicas menos ambiciosas, tais como À meia-noite, à meia-luz, Descer a Serra, Pégaso Azul, Não Fique Estática, Antes da Chuva Chegar, Águas Passadas, em fita de 15 polegadas.”
Eram os tempos do técnico, aquele profissional especializado em operar máquinas de rolo, cortar fita, fazer cópias físicas e cuidar da engenharia analógica. A função hoje deixou de ser comum.
“Pedi ao técnico, Claudinho, para fazer umas 10 cópias em rolinhos de 7,5 [polegadas] para então eu percorrer minha via-crucis visitando as gravadoras da época, RCA, RGE, Phillips, e a própria Continental da minha ex-banda…”
O Claudinho, sensível e aberto, seria atualmente um link para streaming. No entanto, a resiliência do artista era na base do frente à frente. Precisava, em vez de respostas frias por e-mail ou WhatsApp, lidar com muitas respostas secas, desmotivadoras, precipitadas. Ao vivo.
Os produtores da época também estavam apegados a certos modismos, ainda que de qualidade. A regra na época, e este tipo de regra levado à risca é prejudicial, era o conceito de que cantar em inglês era visto como passagem natural para tentar furar o mercado.
Era um tempo em que o fenômeno de brasileiros que cantavam em inglês, muitas vezes usando nomes artísticos estrangeiros, incluiu artistas como Morris Albert (Maurício Alberto Kaisermann), Jessé (como Tony Stevens), Fábio Jr. (como Mark Davis) e Chrystian (Please don´t say goobye…).
Eles marcaram época com músicas lendárias, iniciando uma espécie de romantismo pop, misterioso, profundo. Guilherme, porém, misturou esse estilo à sua própria identidade. E fez isso em português.
“Ouvi um monte de baboseiras, muita ‘groselha’ de produtores, que não era ‘comercial’, que não era em inglês e que não tinha refrão, que era rock demais, ou que não era rock o suficiente, que não era letra fácil, essas coisas.”
Guilherme Arantes e a juventude em São Paulo
Então, mais uma vez, se dirigiu a um ponto conhecido na cidade, em que ficava uma importante gravadora.
“E eu já estava a ponto de desistir, quando num último esforço, resolvi ir à tal de Som Livre das trilhas de novelas, na Rua Augusta perto da Estados Unidos, exatamente nessa memorável terça-feira, 25 de Novembro.”
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Então ele lista nomes, se lembra de feições, de gestos, dos diálogos, da entrada nas salas. De momentos que, fugazes e banais, se tornam eternos. Da mesma forma que é feita a rotina de cada um. Cada instante tem o mesmo potencial histórico de Guilherme e seu mundo e nada mais.
“Fui recebido pela Suely, secretária de Antônio Paladino, diretor comercial, e deixei minha fitinha com um gentleman chamado Otavio Augusto, produtor, AKA (também conhecido) como Pete Dunaway, cantor de baladas em inglês. Minha aventura começava ali.”
O jovem Guilherme, aquele que vivia No Mundo da Lua, ainda tinha seus compromissos com a família. Era um músico criativo, ousado, mas comportado. Sua rebeldia era forte, mas com ternura. Neste mês, em comemoração, ele lançou seu single O Prazer de Viver Para Mim é Você.
Voltemos, no entanto, a quando tudo começou.
“Saí de férias, indo com meus pais para o Guarujá, passar as festas de fim de ano. Nesse meio-tempo, eu nem poderia imaginar, Otavinho mostraria empolgado a minha fita para um baterista dos conjuntos da época, seu amigo, chamado Juba.”
Enquanto curtia as ondas do mar e vislumbrava um horizonte de sucesso, mal sabia que iniciava sua networking no mundo da música. Já navegava em um oceano de futuros ícones musicais. Estudante de arquitetura, já arquitetava seu futuro nas ondas sonoras.
“[Otavinho] Mostrava como se eu fosse uma grande descoberta sua, aquele garoto de 22 anos, estudante de Arquitetura… O amigo em questão seria mais tarde o baterista da Blitz, é até hoje, um grande fã meu de primeira hora. E eu fiquei muito seu fã também…”
Juba se consagrou na Blitz, de uma geração posterior. Vinda junto com o turbilhão do rock brasileiro que surgiu na década seguinte, com outras bandas como Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Metrô, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Mas antes, Guilherme Arantes.
“Somos orgulhosos de nossa geração! Pois o Juba foi uma das primeiras pessoas, senão mesmo a primeira testemunha de que a Som Livre se preparava para lançar uma espécie de Elton John brasileiro. Era eu. 50 anos atrás foi assim. Meu Mundo e Nada Mais.”
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