Vivemos em uma era que se orgulha de ter dissecado o mistério, substituindo o sagrado por estatísticas e ampolas, o mal absoluto por meros desvios psicológicos ou ressonâncias de traumas. É exatamente contra essa arrogância moderna que O Demônio do Gólgota, de Frank De Felitta, se ergue não apenas como um romance de terror — um dos clássicos mais bem escritos no tema “terror religioso” —, mas como um lembrete incômodo da nossa fragilidade espiritual e soberba materialista.
Na trama, a desolada cidade de Golgotha Falls — nome que dá o título da obra no original — abriga uma igreja amaldiçoada, um solo onde a sanidade de sacerdotes já foi triturada por forças que a modernidade insiste em ignorar. Esse cenário de abandono e profanação profundos funciona como um espelho perfeito para o declínio moral do nosso tempo. Um mundo que, por vezes, se verte em altar sacro e belo e, por vezes, se transforma em matadouro; a mesma ecologia do sagrado que é visto em cada pôr do sol e sorriso de bebê converte-se em um ecossistema de terror quando a ganância, a imoralidade e a soberba ganham o plano do absoluto.
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O embate central do livro é fascinante e profundamente sintomático desta época. Vemos a ciência secular, personificada por pesquisadores de Harvard armados com seus equipamentos, crentes de que podem medir e domar o sobrenatural com frieza materialista; que qualquer indício de forças que não cabem num tubo de laboratório não passa de projeção psíquica ou loucura congênita. É a velha presunção de um intelecto cego para aquilo que o transcende, que julga a sabedoria do passado como mera superstição, o mal como mero conto dos Grimm.
Embriagados pela própria inteligência
No centro desse conflito, encontramos o doutor Mario e a doutora Anita. Ele, o típico homem moderno e materialista militante, que confunde avanço tecnológico com superioridade moral. Ela também é uma cientista materialista, mas, à medida que a história avança, passa a admitir a dúvida e a considerar explicações que antes descartava por falta de comprovação. Armados com seus medidores, cabos e holofotes, adentram o solo profanado da igreja no Vale do Gólgota com a presunção de quem acredita poder catalogar em planilhas e gráficos, distúrbios psíquicos de ordem coletiva e, assim, desmentir, de uma vez por todas, a existência de um mal transcendente. Na obra, Mario e Anita são o retrato trágico de uma geração que, embriagada pela própria pretensa inteligência, perdeu a capacidade de temer o que não pode compreender.

Em contrapartida, ergue-se a figura do padre Malcolm, o sacerdote enviado pela Igreja, um homem que carrega nos ombros o peso de uma tradição milenar e a consciência da nossa pequenez. Ele não busca provar nada aos céticos, pois sabe que o campo de batalha não é o laboratório, mas a alma humana. Com o crucifixo e o rito, ele enfrenta as ditas “trevas”.
Destaca-se que os personagens carregam complexidades dignas das mais altas obras literárias. O padre é um homem falho, com dúvidas com relação aos porquês que o fizeram sacerdote, assim como Mario, ainda que não admita, é alguém ferido com seu passado de abuso na Igreja, e Anita é uma mulher que aprendeu a viver sob as direções de um homem por seu impulso de sedução mais do que por um real amor. E, assim, a obra se debruça sobre pessoas falhas, com abordagens diferentes, diante de um mal que habita o abismo de um vale.
Contudo, quando o abismo devolve o olhar, os osciloscópios e as teorias falham miseravelmente. É nesse ponto que a narrativa resgata uma lição importante para o homem: seja cético sempre, não acredite previamente em nada sem boas provas, mas, quando essas provas extrapolam a sua inteligência, não as descarte sem considerar o que antes parecia impossível. É fato que o confronto do padre com o mal é feito na esteira hollywoodiana de UFC contra o capeta, e tudo bem, o livro é antes um entretenimento e não uma descrição sociológica ou um curso de exorcismo do Vaticano.
Aviso aos católicos
Aos católicos, não esperem fidelidade litúrgica, alvejamento de palavras nem faxina de imagens. O texto de Felitta é sujo, suas descrições são carnais, não se está lendo um texto de Santa Teresa D’Ávila. Aos que buscam o terror pelo terror, não esperem cabeças girando e vômitos verdes, nem muito menos um horror melodramático dos anos 1970. A tecitura da trama aqui é mais bem elaborada do que possam previamente imaginar — eu também caí nesse preconceito. E, aos que sempre esperam um super-herói batinado, também não o encontrarão aqui; no livro, os padres são falhos, carregam estigmas e fraquezas perturbadoras. Lá, a ambiguidade moral e religiosa segue a mesma cadência e contundência da crítica ao materialismo cientificista da academia.
De Felitta, por fim, estilhaça a ilusão ingênua de que a técnica nos torna senhores absolutos do universo, recordando-nos de que as cercas morais existem por um motivo e que, quando a prática do mal ultrapassa certos limites, cai-se em um poço do qual não é tão fácil de sair. Cuidado.
Não pesquisei a fundo o autor, confesso. A minha ideia era escrever um crônica/resenha, e não uma investigação biográfica do ótimo autor norte-americano, mas ainda assim parece-me que Frank nos alertou para o fato de que, diante do mistério e do insondável, o relativismo desmorona num tombo seco, de bagos para o ar, mostrando-nos que, ainda que se duvide, a postura mais humilde é a de respeito pelo que não se sabe, um ceticismo curioso por tudo aquilo que os sentidos ou o espectrômetro não podem captar.
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