Na infância, Anat Cohen considerava Tel-Aviv a maior cidade de um país tropical. Abençoado por Deus. Hashem, segundo a tradição judaica. Israel, à sua maneira, sempre foi belo por natureza. Entre março e fevereiro, tem Carnaval. Ou melhor, Purim, a festa de fantasias judaicas.
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A música que chegava aos seus ouvidos enquanto brincava em Tel-Aviv, onde nasceu, em 1975, resumia a ponte entre dois países: Brasil e Israel. Na juventude, ao seguir o caminho musical, surpreendeu-se ao descobrir que Eretz Tropit Yafa significava País Tropical, famosa na voz de Jorge Ben Jor.
Mais impactante ainda foi saber que aquela e outras canções não eram israelenses. Foram, em sua grande maioria, interpretadas em hebraico pelo músico Matti Caspi (1949).
“Sem saber, eu estava ligada à música brasileira”, conta Anat a Oeste. “Ouvia melodias em hebraico e sentia algo nos ritmos que me tocavam. Era como estar em casa com a bossa nova, a marcha, o rancho. Cantava músicas que anos depois descobri que eram músicas brasileiras.”
Ao seu lado, os irmãos Yuval (1973) e Avishai (1978) também se tornaram instrumentistas. Os três fazem parte do The 3 Cohens, grupo que mistura jazz contemporâneo com influências da música israelense, incluindo a brasileira, em álbuns como Braid (2007) e Family (2011).
Nesta quarta-feira, 13, às 20h30, o trio se apresenta na Sala São Paulo, na capital paulista, em evento beneficente da Congregação Israelita Paulista, acompanhado pela São Paulo Big Band.
O repertório traduz essa sintonia entre brasileiros e israelenses, com clássicos como Garota de Ipanema e Insensatez, de Tom Jobim, e Um a Zero, de Pixinguinha.
O jazz também estará presente com Tiger Rag, imortalizada por Louis Armstrong; Armando’s Rhumba, de Chick Corea; e temas de Gerry Mulligan, em arranjos do amigo de infância de Anat, Oded Lev-Ari.
Haverá espaço ainda para o klezmer, música folclórica judaica do Leste Europeu, com Odessa Bulgar, e para composições autorais dos irmãos Cohen, como Shufla de Shufla, Footsteps e Smile.
“Quando vou a Israel, encontro muitos brasileiros que vivem lá e me sinto próxima dessas pessoas”, diz Anat. “Quando a música toca o coração, a língua deixa de importar. Brasileiros e israelenses têm uma maneira de ser que se aproxima bastante. É fácil fazer amizade; a gente fala com as mãos, usa as mesmas expressões, tem reações faciais similares. Brasil e Israel estão ligados pela música.”
Passagem da clarinetista pelo Brasil
Antes de se firmar como clarinetista e saxofonista, Anat explorou diversas variações rítmicas, guiada pela memória das músicas da infância. Essa ligação a levou a uma imersão no Brasil, no Rio de Janeiro em 2000, para se aprofundar na cultura local.
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“Desde a primeira vez que fui ao Brasil, no final de 2000, a minha vida mudou, conheci pessoas maravilhosas, principalmente no Rio de Janeiro, andando na Lapa a noite inteira, indo de um bar para o outro, dando canja, cantando, dançando, tocando”, conta a artista.
“Conheci de perto o choro, e isso me transformou, venho do jazz. Vi que a música é do povo. Quando voltei a Nova York, quis criar grupos para reforçar essa conexão entre as pessoas.”
Essa experiência foi decisiva para seu crescimento profissional. Depois de iniciar os estudos na The Rubin Academy of Music and Dance, Anat colecionou prêmios — destaque para o DownBeat Critics Poll, em que foi eleita melhor clarinetista por vários anos consecutivos, entre 2014 e 2023, além de indicações ao Grammy em 2018 e 2019. Seu aperfeiçoamento musical ocorreu na Berklee College of Music, em Boston.
A clarinetista preferiu não fazer comentário a respeito da atual situação de Israel, em guerra com o grupo terrorista Hamas desde 7 de outubro. Em vez de criticar governos, inclusive o do Brasil, que se distanciou do de Israel, prefere comunicar sua mensagem de paz por meio do instrumento. Nem sobre a experiência na banda do Exército ela gosta de falar.
“A guerra é horrorosa, nem gosto de falar a respeito, prefiro tocar”, ressalta ela, que mora em Nova York. “Eu não toco para o governo, eu toco para o povo, para pessoas que são abertas para escutar com o coração, e não misturar outras questões.” A linguagem, neste caso, pouco importa.
Çei… Então proponho que ela vá tocar clarineta nos centros acadêmicos da USP, da UNICAMP e da PUC, para ela sentir o “calor brasileiro”.