As redes sociais estão migrando seu ethos. Se antes o nicho mais promissor estava em demonstrar uma perfeição inexistente na vida real, tal como a família perfeita, a dieta perfeita, o treino perfeito e a inteligência perfeita, agora entramos na era da fraqueza engajadora, ou se preferirem, da “fraqueza perfeita”. É fato que isso não é exatamente de “hoje”. O caso Belle Gibson, por exemplo, já tem mais de dez anos.
Belle Gibson foi uma influenciadora de bem-estar australiana que ficou mundialmente conhecida após afirmar falsamente que havia curado um câncer terminal no cérebro por meio de alimentação natural, terapias alternativas e estilo de vida “holístico”. Ela ganhou enorme popularidade no começo da década de 2010, especialmente com o aplicativo de receitas saudáveis The Whole Pantry e um livro derivado do projeto. Sua narrativa era poderosa: dizia que médicos lhe deram poucos meses de vida, mas que ela teria sobrevivido rejeitando tratamentos convencionais como quimioterapia e apostando em dietas naturais.
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O problema é que tudo era mentira. Jornalistas australianos começaram a investigar inconsistências em suas histórias, principalmente após suspeitas sobre doações beneficentes que ela dizia fazer. Em 2015, ficou claro que ela nunca teve câncer; inventou exames, convulsões e metástases; alegou doar grandes quantias para caridade, mas boa parte do dinheiro nunca foi entregue. Isso quer dizer que tratamentos não convencionais não podem ter sua taxa de sucesso? Que alimentar-se sem ultraprocessados e melhorar o estilo de vida com jejuns e práticas esportivas não podem ajudar? Claro que não. Mas o caso aqui é outro: era bom ser uma coitada, e mais, uma coitada que venceu…, mas era mentira. Belle Gibson, lá entre 2010 e 2015, já descobria que as redes sociais eram um terreno fértil para vender redenções de plástico e fraquezas engajadoras. A sororidade vende.
Não citarei nomes — meu advogado disse que ainda tenho prestações do carro a quitar —, mas falarei de situações que abundam em nossas redes. Por exemplo, uma ex-BBB, colapsada por uma crise psicológica, não demorou para postar fotos de sua pele com acne severa (sem filtros) e para falar abertamente sobre seu diagnóstico de bipolaridade. Abaixo dos posts, choviam comentários de apoio, de abraços on-line e exposições — tudo encorajado pela influencer — de uma espécie de prestações de conta pública das doenças e fraquezas de seus seguidores.

O case Selena Gomez
Noutro caso, o Portal Leo Dias chegou a “vazar” um laudo psicológico de outro ex-BBB; embora pareça uma invasão de privacidade — e de fato é —, esse tipo de exposição gerou um ciclo lucrativo real: o portal ganhou cliques com a “desgraça”, e o famoso recebeu uma onda de “amor de metadados”, de “solidariedade de pixels”, o que parece ter limpado a sua imagem de qualquer erro cometido no reality. Outra sacada de nossos dias: a patologia se tornou um salvo-conduto moral.
Mais uma influencer, entre 2024 e 2025, postou inúmeros vídeos chorando e desabafando sobre ataques transfóbicos que recebia e sobre crises de disforia que sofria. Cada vídeo de choro ou “fraqueza” emocional gerava milhares de comentários de apoio e matérias em grandes portais. A dor exposta servia para desarmar os críticos de suas posições antes mesmo que proferissem qualquer opinião; afinal, atacar alguém que está visivelmente “quebrado” nas redes sociais pega mal para o público, criando assim um “cinturão de proteção” feito de likes e sororidade, uma aura de sofrimento protetor gourmetizada. E, é claro, com isso ela ganhava seguidores e exposição… o puro ouro das redes.
Mas Selena Gomez é talvez o maior caso global de transformação de dor em modelo de negócio. Ao expor seu diagnóstico de lúpus, o transplante de rim e suas crises de saúde mental (bipolaridade) no documentário My Mind & Me, ela deixou de ser apenas uma cantora pop para ser uma espécie de “líder de cura”. O público passou a ver qualquer crítica ao seu trabalho ou aparência como “ataque a alguém doente”. Sua marca de maquiagem, a Rare Beauty, fatura bilhões usando o mote da “beleza imperfeita” e da saúde mental.
O fim da dignidade
Havia, há algum tempo, uma dignidade em lamber as próprias feridas, em fechar-se em seus problemas e seguir uma trilha de maturação de uma adversidade. Identificar a crise, contar com os mais próximos, recorrer aos profissionais competentes, diagnosticar o mal, tratar o mal, e, quando necessário, expor aos mais “chegados” a sua condição a fim de dar publicidade controlada a uma situação de doença ou desequilíbrio. A pergunta que fica é: em que — a rigor — ajuda no tratamento da bipolaridade expor-se como bipolar no Leo Dias? Como se alcança a remissão do câncer ou do lúpus por meio de posts no Instagram?
A visibilidade — diriam os advogados dos portais de fofoca — ajuda a alertar o grande público sobre uma questão séria de interesse geral. Ok, consideremos o argumento. Primeiro, “conscientizar” é a desculpa perfeita para quase tudo nas redes, porém, se esse fosse o caso, da fimose à esclerose múltipla, deveríamos contratar via Estado influencers oficiais de tais doenças e defeitos, afinal, conscientização pública de saúde me parece ser, ainda, um dever estatal. Segundo, não me parece exatamente ser esse o caso; cá entre nós, é gostoso ser coitado, demonstrar virtude e receber afagos, seja por uma fraqueza vencida, seja por uma fraqueza ainda sofrida. As redes sociais, como o historiador Niall Ferguson bem demonstra em A Praça e a Torre, criam a possibilidade de uma conexão quase infinita de reafirmações de ideias e preconceitos; é gostoso ‒ eu mesmo admito ‒ ser afagado por mãos digitais, ser reafirmado em minhas certezas, ser benzido em minhas crenças.
O problema é que, nesse processo, não é somente a publicização de um problema que trará uma cura; fazer como os nossos cachorros quando estão com dor de barriga também tem o seu porquê. Quando minha cachorra está com dor de barriga, ela vai ao quintal, come uns matos, recusa nossos afagos e deita-se em sua casinha até melhorar do mal que a aflige. Havia uma honradez em — mesmo em meio à fraqueza, mesmo em meio às crises — buscar soluções não na publicidade universal, mas na autocorreção, na publicidade familiar, nos círculos próximos e nos profissionais capacitados. Aliás, a regra do sigilo médico-paciente é particularmente interessante, justamente porque preserva não só a vergonha do tratado, mas seu direito de maturar suas ações e decisões, de buscar curar-se sem intromissão alheia. Talvez nossa era seja a primeira que preserva o sigilo dentro do consultório para, em seguida, expô-lo ao mundo no Instagram.

Sem privacidade
A exposição extremada revela, por fim, três camadas típicas do homem de nosso tempo: a ociosidade banal, preenchida com a vida alheia, com problemas alheios, a fofoca 3.0; a carência digital, isto é, a busca constante por carinho, aceitação e confirmação nas redes; e, por fim, a incapacidade de lidar com problemas em nível íntimo. As pessoas destroem os próprios muros de sua privacidade, expõem seus filhos sentados nos vasos sanitários, suas crises de estresse com maridos e esposas, suas chagas psicológicas e defeitos morais como se devesse satisfação à Rebeca de Brasília ou ao Cleiton de Goiás — caramba, eles nem te conhecem.
Lembro-me do Monsenhor, do livro O Casamento, de Nelson Rodrigues, que dizia a Sabino — em um estado de frenesi angustiante —: “Só está salvo aquele que reconhece a própria lepra e a proclama”. O Monsenhor prefigura a voz das redes sociais hoje, chamando todos a exporem suas lepras numa grande suruba de fraquezas em busca de salvação digital, num open bar de mazelas e cursos urgentíssimos sobre como vencer a ansiedade fazendo movimentos corporais em meio à natureza. Para quê? Para receber a salvação da sororidade, o cafuné de um estranho, o repost de misericórdia e, quem sabe, uma vaquinha on-line. E assim, do nada, as redes se tornam um leprosário de fraquezas engajadoras e de crises interessantes. Ex-gordos passam a ensinar a fazer jejum como método de expiação de pecados e de glúten; veganos ensinam a curar cânceres com shakes de couve com beterraba e shots de vinagre de maçã; e bipolares conscientizam a mim, que nada tenho a ver com suas crises, como é importante desabafar com a Laura de Caçapava e expor meus problemas pessoais ao Milton de Caracaraí.
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Vivemos no hospício e nem sabemos…