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Curiosidades

Saros traz identidade própria ao repetir fórmula de sucesso no PlayStation

Cinco anos depois de Returnal, a Housemarque retorna ao PS5 com um roguelite de ficção científica ambientado no planeta Carcosa

Saros traz identidade própria ao repetir fórmula de sucesso no PlayStation
Desenvolvido com o mesmo motor proprietário usado em Returnal, Saros roda a 60 quadros por segundo em modo Performance | Foto: Divulgação/SIE

A Housemarque, estúdio finlandês que integra os PlayStation Studios, retorna cinco anos depois de Returnal com Saros, seu projeto mais ambicioso. A tarefa era delicada: repetir o impacto de um dos títulos mais marcantes do PS5 sem simplesmente refazê-lo. O resultado é um sucessor espiritual que herda o DNA implacável do predecessor, desmonta cada peça e reconstrói tudo com mais camadas. Além de mais respeito pelo tempo do jogador e um sistema de combate que opera num nível de precisão raramente visto no gênero.

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Diferente do purismo roguelike mais punitivo de Returnal, Saros se posiciona como um roguelite moderno com progressão permanente. Nenhuma tentativa, por mais desastrosa que seja, é vivida como perda de tempo e essa mudança de filosofia é central para entender por que o jogo funciona tão bem.

Arjun, a Soltari e o planeta Carcosa

O protagonista desta vez é Arjun Devraj, agente de segurança de elite a serviço da Soltari, uma megacorporação que enviou quatro expedições ao planeta Carcosa para estabelecer operações de mineração. As três primeiras desapareceram sem deixar rastros. Arjun integra a quarta — mas com motivações pessoais: ele busca uma mulher que fez parte da expedição inaugural e sumiu meses antes.

A narrativa é muito mais direta e tangível do que a jornada etérea de Returnal. Carcosa está repleto de registros de áudio, hologramas e anotações que reconstroem o declínio psicológico das equipes anteriores. O jogo é vocal em sua exposição e mantém o jogador investido na trama. 

O diálogo fora das cutscenes traz uma ressalva: as animações faciais dos personagens secundários carecem de expressividade. Frequentemente, o jogador vê Arjun com o cano do rifle encostado no rosto do interlocutor durante a conversa, um descuido que quebra a imersão pontualmente.

Uma pena, porém, que por mais engajante que seja a narrativa, ela termina mal e pauta a insistência da Sony em tramas identitárias que já soam esgotadas e datadas. Os personagens coadjuvantes, além de mal animados, também não empolgam. O que move Saros é mesmo o mistério de horror cósmico.

Um combate que funciona como coreografia

O sistema de armas é vasto e recompensa a experimentação. Pistolas, rifles, escopetas e dezenas de variações alteram o comportamento dos projéteis de formas distintas — balas que ricocheteiam pelas paredes, munições que atravessam fileiras inteiras de inimigos, ataques que criam buracos negros. O DualSense é explorado com inteligência: pressionar o gatilho L2 até a metade ativa o modo secundário da arma, com resistência tátil física como marcador. Pressionado até o fim, libera os ataques de poder do traje de Arjun.

A grande adição mecânica vem de duas referências do gênero. Inspirado em Ikaruga, Saros introduz um escudo direcional que absorve projéteis azuis dos inimigos e, com isso, recarrega instantaneamente a arma de poder. Bebendo de DOOM: The Dark Ages, o jogo adiciona um sistema de aparo que rebate projéteis vermelhos direto de volta para os adversários. Essas camadas transformam o combate numa dança técnica onde avançar contra o perigo é tão importante quanto esquivar.

O Sistema de Eclipses: risco e recompensa no centro do design

O maior diferencial de Saros é o Sistema de Eclipses. Em momentos imprevisíveis durante as corridas pelo planeta, um eclipse solar toma o céu alienígena e reescreve as regras da sessão: inimigos ficam hiper agressivos, o mapa se reconfigura, rotas fecham e novas abrem. Os inimigos passam a usar ataques “Corrompidos” — projéteis amarelos que, além de causar dano, reduzem permanentemente a barra de saúde máxima de Arjun até o efeito ser purgado.

O que parece punição pura revela sua genialidade com o tempo. Conforme a Corrupção aumenta, o traje de Arjun muda visualmente e, com os artefatos certos, o debuff se transforma em combustível ofensivo: certos itens multiplicam o dano causado de acordo com o nível de Corrupção. Uma corrida quase perdida pode virar uma sessão de destruição de chefes colossais em segundos — para quem aceita o caos e aposta numa build de letalidade extrema com total fragilidade.

Progressão permanente e o fim da ansiedade de salvar

A Housemarque aprendeu com a recepção turbulenta de Returnal, que no lançamento não permitia salvar o jogo durante uma corrida. Saros resolve isso de forma direta: o jogador pode suspender o ciclo a qualquer momento fora de batalhas contra chefes, fechar o console e retornar exatamente onde parou. A ansiedade de comprometer horas para não perder o progresso desaparece.

A progressão permanente funciona por uma árvore de habilidades com três pilares: Saúde, Poder e Coleta. Recursos acumulados durante uma corrida são parcialmente mantidos mesmo depois da morte — e o jogador pode encerrar a incursão antes de morrer, retornando à base com tudo que coletou. 

O único tropeço estrutural aparece nas sequências que antecedem certos chefes: alguns biomas exigem que o jogador ative interruptores em pontos distantes do mapa para acessar a arena. Morrer e recomeçar obriga a repetir essas etapas, quebrando o ritmo frenético que o jogo cultiva com tanto cuidado.

Modificadores de Carcosa e uma abordagem inteligente à dificuldade

Em vez de um seletor passivo de dificuldade, Saros oferece os Modificadores de Carcosa — um sistema baseado em peso e pontuação. Modificadores de Proteção reduzem dano recebido, ampliam janelas de aparo ou automatizam recargas. Para ativá-los, porém, o jogador precisa compensar com modificadores de Provação: inimigos mais agressivos, armas que quebram com uso contínuo, remoção de curas ou do item de ressurreição automática.

O resultado é uma personalização granular da experiência. O jogador não está “facilitando o jogo”, está escolhendo onde quer sofrer e onde quer ter folga, moldando o desafio ao próprio estilo.

Audiovisual que transforma o caos em espetáculo legível

Graficamente, Saros disputa espaço com os títulos mais bem-acabados do catálogo PlayStation. A direção de arte traduz elementos de fantasia sombria — ruínas, abismos, névoas densas — para uma linguagem de horror de ficção científica. Os efeitos volumétricos e a iluminação reagem aos milhares de projéteis coloridos cruzando a tela sem sacrificar a taxa de quadros. Quando um inimigo de grande porte é destruído, implode numa chuva de partículas que lembra fogos de artifício.

O áudio tridimensional funciona como ferramenta de sobrevivência: é possível localizar tentáculos surgindo às costas ou prever um disparo carregado fora do campo de visão apenas pelo som. O DualSense pulsa com o coração de Arjun quando a saúde está baixa e simula o impacto da chuva alienígena. A ressalva técnica é o consumo de bateria: o uso intenso dos motores hápticos esgota a carga do controle em três a quatro horas, tornando o cabo praticamente obrigatório nas sessões longas.

Um clássico imediato para a biblioteca do PS5

Saros não vive à sombra de Returnal. Trata-se de uma evolução calculada que reconhece as falhas do passado e entrega uma experiência mais rica, acessível e viciante. As animações travadas dos personagens secundários e as repetições burocráticas antes de alguns chefes são tropeços menores diante da qualidade do conjunto. 

O Sistema de Eclipses, a política de salvamento e a profundidade do combate fazem das mortes uma ferramenta de aprendizado — não uma punição. Num cenário onde grandes produções frequentemente recorrem a fórmulas seguras, Saros chega como uma das adições mais relevantes e originais já feitas para o PS5.

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