O uso do sêmen de um doador dinamarquês em clínicas de reprodução assistida na Europa atingiu quase 200 crianças. Elas nasceram com risco de uma mutação genética associada a câncer agressivo, de acordo com uma investigação da rede de jornalismo EBU Investigative Journalism Network.
O material genético foi distribuído por 67 clínicas, em 14 países, durante 17 anos. O produto ultrapassou restrições nacionais e expôs famílias a uma condição hereditária grave.
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O doador, identificado como “Doador 7069” ou “Kjeld”, teve sua amostra vendida pelo banco de sêmem European Sperm Bank desde 2005. Apesar de ter sido aprovado nos exames exigidos na época, cerca de 20% dos espermatozoides apresentavam uma mutação inédita.
Entenda a síndrome de Li-Fraumeni
A síndrome de Li-Fraumeni é causada por falha no gene TP53, responsável por controlar a divisão celular e reparar danos no DNA. Pessoas com a condição têm risco elevado de desenvolver vários tipos de tumores ao longo da vida, inclusive na infância. Também podem apresentar múltiplos tumores, como sarcomas, leucemias e câncer de mama precoce. A mutação pode ser herdada dos pais ou surgir espontaneamente em parte das células reprodutivas.

No caso do doador dinamarquês, parte dos espermatozoides portava a mutação, e crianças concebidas a partir desses gametas podem ter herdado a alteração, com potencial de transmiti-la às próximas gerações.
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Depois da identificação da mutação, recomenda-se que famílias afetadas sigam protocolos rigorosos de acompanhamento. Isso inclui exames periódicos e vigilância constante para sinais de tumores. O objetivo é detectar alterações em estágio inicial.
Documentos analisados pela EBU revelam que o material de “Kjeld” foi distribuído de forma incomum: na Dinamarca, o número de crianças geradas foi 99 e superou o limite recomendado. Na Bélgica, 53 nascimentos, quase dez vezes o permitido.
Já na Espanha, 35 crianças nasceram, apesar do limite ser seis. Alemanha, Grécia, Suécia e outros países também receberam o material, com casos confirmados de crianças afetadas. Em alguns países, como Irlanda e Polônia, não houve registros de nascimentos.
Autoridades da Europa foram notificadas
A investigação mostra que o turismo reprodutivo contribuiu para a escala do caso, pois pacientes buscaram tratamento em outros países, o que dificultou o rastreamento. Cada clínica monitorava apenas seus próprios procedimentos, sem consolidar o total de famílias atendidas pelo mesmo doador. Isso permitiu que a distribuição do material atingisse alcance continental por quase duas décadas, sem controle efetivo.
A European Sperm Bank reconheceu que os limites foram excedidos. A empresa atribuiu o problema a falhas no envio de informações pelas clínicas, controles insuficientes e à movimentação internacional de pacientes.

Depois da confirmação da mutação, em novembro de 2023, o doador foi bloqueado e as autoridades europeias, notificadas, mas muitas famílias só souberam do risco meses depois. Em vários casos, registros foram perdidos em mudanças de sistema, e algumas famílias só descobriram a ligação por meio de redes sociais.
A Autoridade Dinamarquesa de Segurança do Paciente estima que parte das famílias ainda desconhece o risco, o que pode deixar crianças expostas sem acompanhamento. A mutação no gene TP53 compromete a defesa do organismo contra multiplicação de células defeituosas.
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