Um dos melhores suspenses que li em 2024, e que, por algum motivo, não resenhei aqui até agora, foi O Casal que Mora ao Lado (Editora Record), de Shari Lapena. Aliás, permitam-me adiantar: esse é um livro para entretenimento, e ponto. Já atualizo as expectativas dos “zé clássicos”, aqueles que não maculam seus olhos e cérebros arcanos com textos que não são cânones.
Mas voltemos ao livro: com um roteiro muito bem articulado, em um ambiente que mistura aconchego familiar, crise psicológica, desvios morais — e suas consequências —, além de uma simpatia natural e constantemente frustrada pelos personagens principais, O Casal que Mora ao Lado tem todos os aspectos esperados de um bom livro de suspense. A meu ver, um livro de suspense, para ser realmente cativante, precisa, como base principal, atrair a atenção do leitor por meio de expectativas bem construídas. Se a obra consegue isso, ainda que o final seja um tanto quanto “decepcionante”, a sensação de dúvida e a expectativa do desenrolar da trama durante o percurso da leitura já são, per se, satisfatórias.
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Suspense constante, paradoxos morais e articulações narrativas que te fazem sempre esperar do próximo capítulo algo revelador. Digo sem titubear, esse livro está entre os melhores suspenses contemporâneos que li nos últimos anos — e, não à toa, reli neste início de 2025. É melhor que muitos de Stephen King, por exemplo.
Lançado em 2016, nos EUA, e em 2017, no Brasil, o livro foi escrito para ser um típico thriller psicológico — e conseguiu o que almejou. Apostando em reviravoltas constantes, mas sem o pedantismo atabalhoado de muitas obras desse estilo nem o artifício do exagero do improvável, Lapena costurou uma história envolvente sob um ambiente tipicamente excitante dos bons romances do mercado.
A história de O Casal que Mora ao Lado
A história gira em torno de Anne e Marco Conti, um casal aparentemente perfeito que vive em um bairro tranquilo e tipicamente norte-americano. No entanto, suas vidas viram de cabeça para baixo quando sua filha de seis meses, Cora, desaparece misteriosamente enquanto eles participam de um jantar na casa dos vizinhos.
Tudo começa quando Anne e Marco são convidados para um jantar na casa ao lado, onde moram Cynthia e Graham. A babá, que tinha sido contratada para olhar a criança, cancela no último minuto, mas, mesmo assim, o casal decide deixar Cora — a bebê — sozinha em casa, levando para os vizinhos a babá eletrônica e, de tempos em tempos, revezar visitas ao quarto da criança. Ao voltarem para casa, após o jantar, descobrem que Cora desapareceu. É aí que tudo degringola, e passamos a acompanhar a trama bem construída pela autora canadense.

O detetive da cidade, Rasbach, logo assume a investigação, e, à medida que as evidências são colhidas, segredos familiares e tramas estranhas vêm à tona. Anne, que sofre de depressão pós-parto, começa a duvidar da própria sanidade, enquanto Marco parece sempre distante e um tanto alheio a tudo. O casal também enfrenta a pressão dos pais de Anne, que são ricos e nunca aprovaram o marido dela.
O final é previsível para alguns — conforme críticas que li na internet —; bem como a trama, que se desenrola um pouco rápida demais para outros. Pessoalmente não concordo nem com um e nem com o outro. O livro tem sim um ritmo acelerado, mas nada como Homem de Areia de Lars Kepler, por exemplo, e, quanto ao “final previsível”, nem sempre isso é um problema ou um defeito, pois não raro a alternativa aos finais previsíveis é o exagero e a irrealidade. E, quando estamos tratando de suspenses que se pautam e se sustentam no “provável-real”, e não na pura fantasia, um final previsível pode ser apenas um final crível, sem deixar de ser um final bom.
As críticas a serem feitas são aquelas inevitáveis, geradas pela agilidade que a autora imprimiu ao seu roteiro. Quando se busca celeridade, acaba-se punindo a complexidade, o que termina em personagens não muito bem desenvolvidos e cenários não muito bem explorados. Mas é o preço calculado desse tipo de obra. No entanto, no final, tendo em comparação livros muito mais “paginudos” e que buscaram a celeridade da trama como arma de aceitação popular, O Casal que Mora ao Lado me parece muito mais completo e instigante. Ao final, é um bom livro para um fim de semana, se virar filme, correrei ao cinema mais próximo para assistir.
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