A Olimpíada mais improvável de todos os tempos

Pandemia de coronavírus e crises nos bastidores exigem capacidade de organização sem paralelo na história dos Jogos Olímpicos
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Embora medidas preventivas tenham sido adotadas, casos de coronavírus foram confirmados na Vila Olímpica
Embora medidas preventivas tenham sido adotadas, casos de coronavírus foram confirmados na Vila Olímpica | Foto: Christophe Morata/IOC

Se as duas grandes guerras mundiais causaram o cancelamento dos Jogos Olímpicos em 1916, 1940 e 1944, desta vez um vírus microscópico que já matou mais de 4 milhões de pessoas quase provocou o fim do sonho de muitos atletas que esperam a cada quatro anos para disputar uma Olimpíada. O evento foi cancelado em 2020 e a pira olímpica correu o risco de não ser acesa neste ano no Japão. Pela quarta vez desde o início da pandemia, o governo japonês anunciou a decretação do estado de emergência em Tóquio devido ao risco de uma nova onda de infecções pela covid-19. E é em clima de restrições ao direito de ir e vir, sem turistas nas ruas nem torcedores nos estádios, que serão realizados os Jogos Olímpicos no país asitático. Apesar de a cerimônia de abertura iniciar oficialmente nesta sexta-feira, 23, os organizadores enfrentam dificuldades sem paralelo na história.

As medidas restritivas

Devido à crise sanitária, uma série de medidas restritivas foram adotadas na Vila Olímpica, onde as delegações são hospedadas durante a competição. Os 11,6 mil atletas e membros das comissões técnicas poderão se deslocar apenas no interior das instalações, que contam com 3.800 alojamentos, refeitórios, academias e clínicas médicas. O uso de máscara é obrigatório, assim como o distanciamento social.

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É a primeira vez na história das Olimpíadas que a circulação de esportistas é restrita aos limites da Vila Olímpica, segundo Ana Paula Henkel, colunista de Oeste. “Nunca houve restrição. A gente podia circular normalmente, tanto na Vila Olímpica quanto fora dela”, explicou a medalhista dos Jogos de Atlanta (1996). “A credencial de atleta olímpico, aliás, traz uma série de facilidades para os competidores, como a gratuidade do transporte público.” Nesta edição do evento, contudo, atletas, dirigentes e jornalistas não poderão andar pela cidade, — serão rastreados por smartphones, e não terão direito de usar o transporte público até quatorze dias depois do desembarque no país.

O Comitê Olímpico Internacional estabeleceu um controle rígido de testagem. Antes de embarcar para o Japão, todos têm de fazer dois testes de covid-19. Os atletas que chegam ao país asiático realizam o primeiro PCR (teste do cotonete) no aeroporto; caso o exame não aponte contaminação, seguem para a disputa, mas serão testados diariamente até o fim do evento. Em caso de PCR positivo, a pessoa é enviada a um hotel para quarentena de 14 dias ou para um hospital, se necessário. Delegações com membros positivados ou que estabeleceram contato com alguém infectado se mantêm isoladas, mesmo com teste negativo.

Mesmo assim, casos da doença já foram confirmados na Vila Olímpica. De acordo com Seiko Hashimoto, presidente do Comitê Organizador da Olimpíada, subiu para cerca de 80 o número de pessoas credenciadas em isolamento depois de testar positivo para o coronavírus. Apenas 31 desses casos são dos 20 mil estrangeiros que chegaram ao Japão nos últimos dias. “Vamos continuar com a testagem sistemática”, afirmou Hashimoto, em entrevista coletiva. Para diminuir os riscos de contaminação, o governo japonês determinou que os atletas devem chegar cinco dias antes da competição e deixar o local 48 horas após seu fim.

Arquibancadas vazias

A situação, que já era desanimadora no início do ano, quando o governo japonês baniu a participação de torcedores estrangeiros nos estádios, ficou ainda pior no último dia 8, quando foi vetada a entrada também de japoneses. Antes da decisão de manter as arquibancadas totalmente vazias, outras medidas restritivas já haviam sido anunciadas, como a exigência de silêncio entre os espectadores para evitar a dispersão de gotículas de saliva, e o cancelamento da passagem da tocha olímpica pelas ruas de Tóquio. “Precisamos emitir uma mensagem que seja forte e fácil de entender para prevenir a propagação do vírus”, afirmou Seiko, ao defender a decisão do governo. Depois de um ano de debates, o Comitê Olímpico Internacional decidiu reembolsar os ingressos comprados por residentes no exterior.

A Olimpíada mais cara da história

A principal justificativa para a manutenção dos Jogos Olímpicos de Tóquio é a bolada investida no projeto. Segundo o Comitê Organizador da Olimpíada, seu orçamento superou os US$ 15,4 bilhões — o mais alto da história, incluindo US$ 2,2 bilhões de gastos adicionais provocados pela pandemia de coronavírus. O orçamento inicial, divulgado em 2013, era de US$ 7,5 bilhões. 

O governo japonês alimentava a expectativa de que o evento movimentasse o turismo e o comércio local, de maneira a contribuir com a recuperação das áreas destruídas por desastres naturais nos últimos anos. Sem turistas nem torcedores para frequentar o evento esportivo, os organizadores contabilizam os prejuízos e tentam minimizar as perdas. A Olimpíada de Tóquio vendeu cotas de patrocínio como nunca e bateu recorde nesta edição. Só o comitê organizador japonês atraiu sessenta patrocinadores, quase todos nipônicos, que investiram US$ 3 bilhões no evento – o triplo do obtido em Londres em 2012 e, no Rio, em 2016.

Segundo levantamento realizado pela empresa de consultoria Nomura Research Institute (NRI), os Jogos de Tóquio poderiam gerar cifras de até US$ 17,8 bilhões. Contudo, devido às restrições de público, deixarão de ganhar quase US$ 3 bilhões.

O exército de chefs

A alimentação dos esportistas também será afetada pela pandemia de coronavírus. Em razão das medidas sanitárias, os profissionais só poderão se deslocar no interior das instalações de treinamento e competição. Por isso, a Vila Olímpica é o único lugar onde a degustação da famosa culinária japonesa será permitida. 

Ao todo, o “exército” de chefs servirá até 48 mil refeições por dia em seus refeitórios e restaurantes, alguns abertos 24 horas. O maior deles, com dois andares, tem capacidade para 3 mil pessoas. Para agradar diferentes paladares, os 2 mil funcionários responsáveis pelas refeições disponibilizarão três tipos de culinária: ocidental, japonesa e asiática, que inclui especialidades chinesas, indianas e vietnamitas. Conforme a Agência France-Presse, haverá comida adequada a todas as religiões e pessoas com restrições alimentares. O peixe cru, entretanto, está vetado por medidas sanitárias — o arroz de sushi só será visto acompanhado de camarão, atum em lata, pepino ou ameixa salgada.

Os ingredientes utilizados nas refeições são fornecidos por 47 departamentos japoneses, incluindo os atingidos pela tripla catástrofe de Fukushima em 2011, quando terremoto, tsunami e acidente nuclear devastaram a cidade. Diversos países ainda restringem a importação de produtos alimentícios de Fukushima, mas o Japão diz que os alimentos são submetidos a controles mais elevados do que o normal, de maneira a garantir sua qualidade e segurança.

A cama de papelão e os preservativos

O noticiário internacional ferveu com a informação de que o Comitê Organizador da Olimpíada de Tóquio havia instalado camas de papelão nos quartos da Vila Olímpica para impedir o sexo entre os atletas. Paul Chelimo, corredor norte-americano, esquentou a discussão. No Twitter, o medalhista de prata na prova dos 5 mil metros compartilhou com os seguidores as características das camas. “Podem suportar o peso de uma única pessoa”, explicou. “Servem para evitar relações além dos esportes.”

O ginasta irlandês Rhys McClenaghan também resolveu testar a resistência das camas. O atleta publicou um vídeo em que aparece pulando em cima do móvel de papelão. “Dizem que as camas servem para impedir que a gente faça sexo”, afirmou. “Elas são mesmo feitas de papelão, e falaram que deveriam quebrar com alguns movimentos. Fake news!”, brincou o ginasta.

Segundo a empresa japonesa Airweave, fabricante das camas de papelão, o objetivo do uso do material não é evitar o sexo, mas sim fazer dos Jogos de Tóquio os mais sustentáveis da história. “As camas de papelão são mais fortes do que as feitas de madeira ou aço”, informa a companhia. Cobertas por colchões modulares, ajustáveis aos diferentes corpos de atletas, as camas podem suportar até 200 quilos. 

Se o fabricante garante a resistência das camas, o Comitê Organizador arrumou um jeito de dificultar a atividade sexual dos esportistas. A distribuição de 150 mil camisinhas só será feita quando as competições forem encerradas. Desde os Jogos de Seul, em 1988, os preservativos são distribuídos durante todo o evento. Desta vez, a tradição foi quebrada pela pandemia do vírus chinês. As festas também estão proibidas. Embora os atletas possam ingerir bebida alcoólica na Vila Olímpica, o consumo fora dos quartos não será permitido. 

Crises nos bastidores — desertores em ação

Existem, ainda, as habituais confusões nos bastidores dos Jogos Olímpicos, que nada têm a ver com a prática esportiva ou a pandemia de coronavírus.

Nesta edição, por exemplo, um atleta ugandês fugiu do hotel onde estava hospedado para procurar emprego. Segundo a agência de notícias japonesa Kyodo News, Julius Sekitoleko escreveu um bilhete antes de desaparecer. “A vida no meu país é muito difícil”, alegou o levantador de peso. Sekitoleko treinava desde junho em Izumisano, cidade localizada na província de Osaka, mas não conseguiu a qualificação para a Olimpíada e deveria voltar para Uganda na última terça-feira, 20. O atleta foi encontrado em uma casa na cidade de Mie, na ilha de Honshu.

No início de julho, o saltador triplo Jordan Díaz, uma das maiores promessas do esporte mundial, abandonou a delegação de Cuba na Europa. Segundo o portal Deutsche Welle, a deserção de Díaz acontece apenas um mês depois de três jogadores de beisebol e o psicólogo da seleção cubana deixarem a delegação para viver em Miami, onde disputavam o torneio pré-olímpico. O jogador de basquete Raudelis Guerra também abandonou a seleção cubana durante uma escala em Madri.

Cancelamento chega aos Jogos Olímpicos

O ex-presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Yoshiro Mori, renunciou ao cargo em fevereiro deste ano depois de fazer comentários supostamente sexistas. “Meus comentários impróprios causaram muitos problemas. Peço desculpas”, disse Mori, na ocasião. Em março, quem saiu de cena foi o então diretor artístico das cerimônias de abertura e de encerramento, Hiroshi Sasaki. Ele foi acusado de proferir comentários “gordofóbicos” contra a comediante japonesa Naomi Watanabe.

Também há o caso do compositor Keigo Oyamada, 52 anos, autor de um dos temas de abertura da Olimpíada de Tóquio. Cornelius, como é conhecido, renunciou ao cargo na equipe criativa depois de ser acusado de praticar bullying com colegas de escola que eram portadores de deficiências.

Nesta quinta-feira, 22, véspera da abertura dos Jogos, o diretor artístico da cerimônia, Kentaro Kobayashi, foi demitido por contar piada sobre o Holocausto. Na ocasião, ocorrida há mais de 20 anos, Kobayashi fez uma performance em que dizia a seguinte frase: “Vamos brincar de Holocausto”. Uma reportagem publicada pelo jornal japonês Mainichi Shimbun resgatou a história, e o comediante acabou demitido. 

Enfim, a Olimpíada

Nos próximos dias, os melhores atletas do mundo disputarão 46 modalidades olímpicas ao som do silêncio de arenas e arquibancadas vazias e medidas de restrição só vistas antes em filmes de ficção. O saldo desta maratona esportiva só saberemos em 8 de agosto, data do encerramento da Olimpíada. Até lá, é torcer pelos atletas brasileiros e para que o coronavírus dê uma trégua. Que comecem os Jogos. 

Leia também: “Deixem os Jogos Olímpicos em paz”

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