O general Zhang Youxia, de 75 anos, vice-presidente da Comissão Militar Central da China, e o general Liu Zhenli, chefe do Estado-Maior Conjunto, foram colocados sob investigação por “graves violações disciplinares e legais” a mando de Xi Jinping, governante do país. Pequim não detalhou publicamente as acusações.
Na prática, Zhang era o segundo homem mais poderoso das Forças Armadas da China, o general mais influente do país. Segundo o jornal norte-americano The Wall Street Journal, ele e Liu teriam atuado em conluio para vazar segredos do programa nuclear chinês aos Estados Unidos.
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A acusação é de extrema gravidade e poderia configurar traição. De acordo com a reportagem do WSJ, Zhang teria organizado uma facção interna no Exército, funcionando como um poder paralelo.

Nas redes sociais, surgiram rumores de toda ordem, incluindo versões fantasiosas sobre uma tentativa de golpe de Estado, segundo apuração do colunista Rodrigo da Silva, do jornal O Estado de S. Paulo.
Ainda assim, diz o jornalista, é possível que nada de extraordinário tenha ocorrido. “Expurgos desse nível no Exército chinês não são incomuns, e, sob Xi Jinping, costumam terminar em punições exemplares”, afirmou.
Xi Jinping já derrubou outros militares de alta patente
Entre 2014 e 2015, Xi derrubou dois ex-vice-presidentes da Comissão Militar Central, Xu Caihou e Guo Boxiong, acusados de comandar um esquema de venda de cargos e patentes. Xu morreu de câncer antes de ser julgado; Guo foi condenado à prisão perpétua.

Outros casos semelhantes se seguiram. Em 2019, Fang Fenghui, ex-chefe do Estado-Maior, recebeu pena de prisão perpétua por corrupção. Em 2017, Zhang Yang, então chefe do Departamento Político do Exército, suicidou-se enquanto era investigado.
Em 2023, o então ministro da Defesa, Li Shangfu, desapareceu da vida pública depois de apenas oito meses no cargo e foi destituído discretamente. As acusações nunca foram esclarecidas, mas envolveriam corrupção em contratos de armamentos.
No ano seguinte, Li foi expulso do Partido junto com seu antecessor, Wei Fenghe, ambos enquadrados na mesma acusação genérica de “graves violações disciplinares”.
O histórico ajuda a prever o destino de Zhang Youxia e Liu Zhenli. A tendência, segundo o colunista do Estadão, é que sejam expulsos do Partido e das Forças Armadas e, depois, processados criminalmente.

Se as acusações se limitarem à corrupção, a pena provável é prisão perpétua. Caso se confirme o vazamento de segredos de Estado para o Pentágono, a condenação pode chegar à pena de morte.
Mais de 4 mil oficiais da China foram investigados ou punidos desde 2013
Muitos chineses veem esses expurgos como uma forma de combater o suborno no meio militar. “O problema é que nenhum líder supremo chinês promoveu uma limpeza tão profunda nas Forças Armadas quanto Xi Jinping”, diz o colunista do Estadão, “e não apenas no topo da hierarquia, mas em toda a cadeia de comando do Exército de Libertação Popular.”
Desde 2013, mais de 4 mil oficiais — de tenente-coronel para cima — foram investigados ou punidos. Entre os generais promovidos nesse período, um em cada seis acabou afastado ou caiu em desgraça.
Sob Jiang Zemin e Hu Jintao, esse índice foi zero: nenhum general promovido por eles caiu enquanto ainda governavam. Isso não significa ausência de corrupção, mas indica que, no passado, os líderes da China lidavam com esses casos de forma pontual, preservando a estabilidade do comando militar.
Xi seguiu o caminho oposto. Em pouco mais de uma década, puniu corruptos e desmontou gerações inteiras de oficiais, redefinindo quem ascende, quem cai e em que condições é possível sobreviver no topo do poder militar. Trata-se de um clássico processo de concentração de poder.
Com a queda de Zhang Youxia, a Comissão Militar Central ficou ainda mais centralizada nas mãos de Xi. No topo, restam apenas ele e um único oficial em atividade, o general Zhang Shengmin, responsável pela disciplina do Exército. O feito é inédito, até mesmo em comparação com Mao Tsé-Tung.

Considerando todo o aparato do regime, mais de 200 mil funcionários civis e militares foram punidos desde 2012. Muitos eram, de fato, corruptos, segundo o jornalista do Estadão. Mas, nesse processo, Xi também neutralizou praticamente todos os polos alternativos de poder no Partido Comunista, no governo e nas Forças Armadas. Até aliados antigos foram descartados quando passaram a ser vistos como potenciais rivais.
Longe de sinalizar fraqueza, o movimento indica força. A disposição de eliminar figuras centrais da vida pública da China sugere que Xi se sente extremamente seguro no comando. O problema são as consequências. Desde 2023, cinco dos sete membros da Comissão Militar Central foram derrubados, incluindo todos os comandantes nomeados em 2022, no último congresso do Partido.
A liderança do Exército de Libertação Popular foi profundamente abalada. Nunca tantos generais de topo foram afastados simultaneamente sem que o país estivesse em guerra ou passando por uma mudança de regime.

A movimentação gera desconfiança entre os oficiais e, no curto prazo, tende a reduzir a capacidade operacional. Zhang Youxia acumulava décadas de experiência estratégica; Liu Zhenli conhecia profundamente o funcionamento operacional das Forças Armadas. A saída dos dois cria um vazio difícil de preencher rapidamente.
Na prática, isso pode atrasar as próprias ambições militares do governo, como a meta de preparar o Exército para uma eventual operação contra Taiwan até 2027. Uma cúpula fragmentada tem dificuldade para coordenar ações complexas antes de se reorganizar — e reorganização exige tempo.
Xi justifica os expurgos afirmando que um Exército formado apenas por quadros absolutamente leais garante maior coesão política e reduz o risco de conspirações. O custo aparece quando promoções passam a depender mais de alinhamento político do que de competência, o que tende a comprometer a qualidade operacional.

Em um ambiente dominado pelo medo, problemas deixam de ser reportados e soluções dão lugar a relatórios feitos para agradar o Líder Supremo. A cadeia de comando passa a confirmar decisões, não a corrigi-las. Ninguém quer ser o general que traz más notícias ou questiona ordens vindas do topo.
Entretanto, Xi parece indiferente a esses incentivos. No poder há mais de uma década, depois de mudar a Constituição para se perpetuar no cargo, o líder chinês demonstra estar mais preocupado em garantir sua permanência prolongada no comando do que em equilibrar lealdade e eficiência.
Mao Tsé-Tung ensinou que o poder político nasce do cano de um fuzil. “Xi Jinping parece ter entendido perfeitamente o que isso significa”, conclui Rodrigo da Silva.





































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