Negociação para evitar ameaça nuclear do Irã está à beira do colapso

Diplomatas dizem que conter ameaça nuclear no país ficou mais difícil no governo do presidente Ibrahim Raisi, considerado antiocidental
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Potências ocidentais tentam fazer acordo para lidar com ameaça nuclear do Irã
Potências ocidentais tentam fazer acordo para lidar com ameaça nuclear do Irã | Foto: Arquivo/Flickr

As negociações em Viena que querem evitar a ameaça nuclear do Irã estão à beira do colapso, segundo a agência de notícias Reuters. Diplomatas não estão conseguindo salvar o acordo de desnuclearização fechado em 2015, do qual os Estados Unidos se retiraram em 2018.

Os diplomatas iranianos propuseram uma série de mudanças no texto de retomada do acordo. Negociadores já tinham feito um rascunho em rodadas prévias. Mas, diplomatas ocidentais não concordam com as mudanças.

Os EUA não estão participando diretamente das negociações, mas são representados por seus aliados. Basicamente, o Irã quer que os Estados Unidos retire sanções econômicas. Mas, o país não estaria oferecendo contrapartidas suficientes. 

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Teerã nega estar construindo uma bomba. Diz que trabalha em tecnologia nuclear para fins pacíficos, como geração de energia e medicina.

“A segurança no Oriente médio passa necessariamente numa negociação sobre o programa nuclear iraniano”, afirmou o professor de relações internacionais Fernando Brancoli, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Diplomatas ocidentais disseram que as negociações estão mais difíceis pela recente mudança na presidência do Irã.

Presidente linha dura dificulta negociações

O novo mandatário, Ebrahim Raisi, é conhecido por sustentar uma postura antiocidental.

Outra possibilidade é que Teerã esteja dificultando as negociações para ganhar tempo de desenvolver um artefato nuclear.

Segundo Brancoli, em teoria, o Irã teria interesse em ter uma bomba nuclear para gerar um equilíbrio de poder militar na região.

Isso porque dois de seus principais oponentes teriam acesso a armas nucleares. Acredita-se que Israel possua um arsenal nuclear e a Arábia Saudita poderia obter com os EUA.

O então presidente dos EUA, Donald Trump, saiu do acordo de 2015. Trump considerava que os pontos negociados não seriam suficientes para conter a ameaça nuclear do Irã. 

Desde então, o Irã enriqueceu 11 vezes mais urânio que o limite do acordo de 2015, segundo o Wall Street Journal. Na forma como aparece na natureza, o metal não pode ser usado para gerar energia nem para fazer armas. Ele precisa passar por um processo para aumentar a capacidade energética e ficar concentrado — o método é chamado de enriquecemento de urânio.

O que é enriquecimento de urânio?

O enriquecimento acontece por meio de um processo complexo e caro. Ele envolve separar a variante U-235 da U-238 no urânio coletado em minas — feito em centrífugas especiais.

Para gerar energia elétrica em usinas, é necessário o enriquecimento do urânio a 5%. O Irã possuiria hoje quase 18 quilos de urânio enriquecido a 60%.

Por isso, em pouco tempo poderia produzir 12 quilos de urânio enriquecido a 90% — o nível necessário para a bomba.

“Essas ilações acontecem há anos, dizer que o Irã está próximo de uma bomba nuclear. Eu vejo com um pouco de reticência”, afirmou Brancoli.

Segundo ele, não basta enriquecer urânio. O Irã também precisa ter mísseis para transportar o artefato e tecnologia de fissão nuclear. Mas, o Irã já poderia fazer uma “bomba suja”. Ela não causaria uma explosão nuclear, mas espalharia material radioativo por uma grande área.

Um ataque militar conteria a ameaça nuclear do Irã?

Na opinião do analista militar Robinson Farinazzo, capitão-de-fragata da reserva da Marinha e autor do canal Arte da Guerra, o Teerã não vai parar até possuir armamento nuclear.

E seria difícil para o Ocidente impedir isso, mesmo com ataques militares — possibilidade defendida por Israel.

Segundo ele, as instalações nucleares iranianas estão muito protegidas no subsolo. Por isso, apenas um ataque nuclear ou com bombas convencionais de grandes proporções poderiam atingi-las.

“Mas se os Estados Unidos ou Israel fizerem isso, vão abrir a porta do inferno”, disse Farinazzo.

“Se usarem a força para resolver seus problemas com outros Estados, a China vai achar que pode invadir Taiwan e a Rússia poderá invadir a Ucrânia”, afirmou.

As negociações de Viena devem recomeçar na próxima semana. Mas os diplomatas envolvidos se dizem desanimados, segundo a Reuters.

A ameaça nuclear do Irã afeta o Brasil?

“Por mais que soe distante, discussões sobre uso de armas nucleares e uso de combustível nuclear para fins pacíficos são importantes para o Brasil”, disse Brancoli. Segundo ele, o Brasil é tido como um modelo internacional na área. Isso porque resolveu de forma pacífica uma corrida nuclear com a Argentina  na Guerra Fria.

Em 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou fazer um acordo com o Irã e a Turquia. Mas a tentativa falhou e a negociação foi assumida pelo governo do então presidente americano Barack Obama.

“Uma discussão clara entre o que é arma e o que é desenvolvimento nuclear para outras questões é interessante para o Brasil”, afirmou Brancoli. “Porque a gente também terá um cenário mais tranquilo para desenvolver esse tipo de ferramenta”.

O Brasil possui instalações para alimentar usinas nucleares em operação em Angra dos Reis (RJ). Também desenvolve um submarino nuclear que usará armas convencionais.

Leia também: “Uma bomba para o aiatolá”

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