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O relatório Lowe e a Europa que se pune

Documento sugere que a obsessão com a culpa histórica ajudou a criar um sistema mais preocupado com narrativas do que com vítimas

Manifestantes protestam contra o assassinato de Henry Nowak - 13/6/2026 | Foto: Sopa/Reuters
Manifestantes protestam contra o assassinato de Henry Nowak - 13/6/2026 | Foto: Sopa/Reuters

Há um fio que conecta os 250 mil nomes do relatório Lowe — as meninas britânicas estupradas, traficadas e torturadas por décadas em pelo menos 149 distritos do Reino Unido — ao corpo de Henry Nowak algemado no asfalto de Southampton, enquanto um policial dizia não acreditar que ele tivesse sido esfaqueado. Esse fio não é incompetência, nem tampouco um acidente administrativo. Trata-se de ideologia — uma ideologia que Pascal Bruckner, em A Tirania da Penitência, diagnosticou com exatidão: o Ocidente converteu o remorso histórico em princípio de governo, e o resultado é uma civilização que aprendeu a se punir antes de ser acusada, a se desculpar antes de ser atacada, e a proteger o agressor antes de socorrer a vítima, desde que o primeiro pertença à categoria correta de “oprimido”.

O relatório Lowe é um documento extraordinário não apenas pelo que revela sobre os crimes, mas pelo que esclarece sobre a estrutura moral que os tornou possíveis. No prefácio, Rupert Lowe — parlamentar do partido Restore Britain e principal responsável pelo documento — formula o diagnóstico de maneira brutal: foi a combinação do medo paralisante de acusações de racismo com a corrida por votos de subculturas estrangeiras importadas que permitiu que o mal puro se metastatizasse no corpo do Estado britânico. A obsessão com a “sociedade aberta”, escreve ele, produziu ela própria uma barbárie sem medida — e o politicamente correto, o medo de perder apoio eleitoral de certas demografias, tomaram precedência sobre a proteção das crianças britânicas. Não se trata de uma acusação retórica. Trata-se da conclusão documentada de 219 páginas de depoimentos, registros judiciais e evidências institucionais que nenhum governo britânico contestou nos seus detalhes factuais.

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Como escreveu Douglas Murray em A Estranha Morte da Europa, o continente desenvolveu uma patologia singular: a incapacidade de defender seus próprios valores e seus próprios cidadãos quando o agressor pertence a uma minoria étnica ou religiosa, porque a defesa, nesse caso, parece sempre suspeita de motivação racial. Policiais que ignoraram denúncias, assistentes sociais que fecharam casos, médicos que trataram lesões genitais em crianças de 13 anos e as devolveram aos abusadores sem acionar a proteção infantil — nenhum deles agiu por crueldade. Agiram por medo: o medo específico, documentado em depoimento após depoimento no relatório Lowe, de serem acusados de racismo. Vickrum Digwa esfaqueou Henry Nowak e acusou a vítima de racismo. A polícia algemou o moribundo. Não foi um erro de julgamento. Foi o sistema funcionando exatamente como foi programado para funcionar.

Os erros do Ocidente

Ainda nos anos 1960, em O Suicídio do Ocidente, James Burnham notara que as civilizações não morrem assassinadas. Elas morrem quando as elites que deveriam defendê-las perdem a vontade de fazê-lo, quando o liberalismo degenera numa forma de masoquismo coletivo que confunde capitulação com virtude. O que Burnham descreveu em teoria, o relatório Lowe documenta em ata. Cada caso arquivado, cada denunciante intimidado, cada investigação encerrada prematuramente é um capítulo dessa morte civilizacional — causada não por inimigos externos, mas por funcionários públicos britânicos cumprindo diretrizes elaboradas por acadêmicos e aprovadas por parlamentos democraticamente eleitos.

No livro Jihad: The Trail of Political Islam, Gilles Kepel mapeou como as redes islamistas aprenderam a explorar exatamente essa fraqueza estrutural do Ocidente — a relutância em nomear padrões culturais e religiosos por medo de parecer intolerante. O relatório Lowe confirma que essa exploração foi literal e sistemática: gangs que sabiam que a acusação de racismo era um escudo mais eficaz do que qualquer advogado, que viram — e continuam vendo — no politicamente correto britânico um cúmplice involuntário e confiável. A introdução do relatório é explícita: a correção política, o medo de acusações de racismo e o temor de perder apoio eleitoral de certas demografias prevaleceram, sistematicamente, sobre a proteção das crianças britânicas. Não numa cidade. Não num governo. Em toda a nação, durante décadas.

Kenneth Minogue, em A Mente Servil, chamou essa condição de “política como salvação”: quando o Estado abandona sua função primária — proteger os cidadãos — e a substitui pela missão de gerir culpas históricas e redistribuir reconhecimento simbólico entre grupos identitários, o resultado inevitável é que os cidadãos concretos, de carne e osso, deixam de importar. Importa a narrativa. Importa o equilíbrio de representação. Importa que nenhuma minoria seja “estigmatizada” — ainda que o preço dessa não-estigmatização seja pago em corpos de meninas brancas pobres que nenhuma narrativa progressista escolheu como protagonistas.

Em Traição: a França, os árabes e os judeus, David Pryce-Jones documentou como a França construiu durante décadas uma política de acomodação que sacrificou sistematicamente seus próprios cidadãos no altar de um equilíbrio geopolítico e eleitoral que exigia silêncio sobre crimes que não podiam ser nomeados sem custo político. No outro lado do Canal da Mancha, o padrão documentado pelo relatório Lowe é uma versão amplificada do mesmo fenômeno: uma classe política que calculou, friamente, que o custo eleitoral de confrontar as gangs era maior do que o custo humano de ignorá-las — e escolheu, durante décadas, a segunda opção. O relatório documenta que líderes trabalhistas foram informados sobre as gangs há muito tempo e depois negaram qualquer conhecimento. Que conselhos dominados pelo Labour suprimiram dados de etnicidade. Que investigações foram bloqueadas ou esvaziadas para não perturbar bases eleitorais específicas.

A importância do relatório Lowe

O que o relatório Lowe fez foi tornar impossível a negação confortável. O escândalo não é novo — Rotherham, Telford, Rochdale, Oxford já eram nomes conhecidos. O que é novo é a escala sistematizada: 149 distritos, 250 mil vítimas como estimativa mínima, o mesmo perfil de perpetradores, as mesmas táticas, as mesmas respostas institucionais em cada cidade, repetidas durante décadas. Lowe escreve que esta não foi uma série de falhas locais isoladas. Foi um escândalo nacional que o Estado permitiu crescer — e que a obsessão com a sociedade aberta não apenas não impediu, como ativamente facilitou, ao armar os perpetradores com a proteção ideológica de que precisavam para operar com impunidade.

A morte de Henry Nowak gerou comoção na Europa | Foto: Reprodução/Redes sociais
A morte de Henry Nowak gerou comoção na Europa | Foto: Reprodução/Redes sociais

Bruckner encerra A Tirania da Culpa com uma pergunta que o relatório Lowe transforma em urgência: quanto tempo uma civilização consegue sobreviver ao hábito de se odiar? A resposta britânica, por enquanto, é: tempo suficiente para que as vítimas se contem às centenas de milhares, e para que um policial, diante de um rapaz de 18 anos morrendo no chão, decida que a acusação de racismo apresentada pelo agressor merece mais crédito do que o pedido de socorro da vítima. Isso não é falha do sistema. É o masoquismo institucional europeu em pleno funcionamento.

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2 comentários
  1. Leonardo de Almeida Queiroz
    Leonardo de Almeida Queiroz

    Artigo aterrorizante pela perspectiva de substituiçao da civilização judaico-cristã que produziu uma Europa com a melhor qualidade de vida do mundo em todos os tempos ser substituida pela civilização que escraviza e mutila mulheres, assassina homossexuais( que mesmo assim os apoiam!) , destroem a liberdade de expressao, de religião, política, enfim , uma Europa remodelada pelo que de pior o islamismo radical para lá envia!

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