O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, demonstrou otimismo ao abordar as relações exteriores do país na semana passada, quando destacou a parceria com a Rússia durante seu programa semanal de televisão. Ele afirmou que ambos os países estão “mais unidos do que nunca”, diante de questionamentos sobre possíveis aliados internacionais.
A Rússia, classificada por Maduro como um aliado estratégico, possui laços militares, comerciais e culturais profundos com a Venezuela. No início deste ano, os dois governos firmaram um acordo considerado “histórico e estratégico” para ampliar a cooperação no comércio e na defesa.
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Apesar disso, o apoio russo diante das ameaças dos EUA ao regime venezuelano tem se mostrado discreto. O Kremlin não se manifestou diretamente sobre um possível auxílio militar, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou à imprensa russa que Caracas não solicitou intervenção militar. Segundo ele, o acordo entre os países não obriga Moscou a proteger a Venezuela em caso de ataque externo.
O envolvimento russo limitado tem sido observado também com outros aliados, como Armênia, Síria e Irã, que buscaram apoio de Moscou, mas encontraram restrições devido às prioridades da guerra na Ucrânia. “Como resultado dos eventos na Ucrânia, as capacidades da Rússia mudaram”, explicou o presidente armênio, Nikol Pashinyan, ao Politico, em 2023. Apesar de tratados de segurança, a Rússia evitou intervir diretamente.
A cooperação militar entre Rússia e Venezuela remonta ao governo de Hugo Chávez, mentor de Maduro, que fechou acordos de compra de helicópteros e caças em 2006. Chávez justificava as aquisições como essenciais para garantir a soberania venezuelana diante das ameaças dos Estados Unidos.
Esses laços também se refletiram em projetos habitacionais inspirados no estilo soviético e homenagens mútuas, como o monumento a Francisco de Miranda, em São Petersburgo. Empresas russas têm destaque na mineração de ouro no país, enquanto a estatal venezuelana de petróleo adquire equipamentos da Rússia, conforme a apuração do jornal norte-americano The Atlantic.

A presença russa na América Latina sempre preocupou os Estados Unidos, especialmente sob as gestões de Chávez e Maduro. O presidente Donald Trump já manifestou desejo de ver Maduro fora do poder, mantendo ambiguidades quanto a negociações ou ações militares.
Atualmente, cerca de 10 mil soldados norte-americanos, oito navios de guerra e ao menos um submarino nuclear operam no Caribe, enquanto o porta-aviões USS Gerald R. Ford se desloca para a região. Desde 2 de setembro, as forças dos EUA destruíram 19 embarcações suspeitas de narcotráfico. Diante desse cenário, o ministro da Defesa venezuelano anunciou uma “mobilização massiva” das Forças Armadas e de reservistas.
Guerra na Ucrânia dificulta envio de ajuda à Venezuela
Mesmo que Putin pretendesse fortalecer a defesa venezuelana, as limitações impostas pela guerra na Ucrânia dificultam que Moscou envie recursos significativos. Em outros episódios recentes, como ataques ao Iêmen e ao programa nuclear iraniano, os Estados Unidos preferiram ataques à distância. Quando o ministro das Relações Exteriores do Irã buscou apoio direto de Moscou, o Kremlin ofereceu apenas declarações formais de preocupação.

Analistas dizem que, caso os Estados Unidos optem por operações próximas à costa venezuelana, a Rússia pode recorrer ao envio de drones de baixo custo ou equipamentos de guerra eletrônica para dificultar ações norte-americanas. O ex-secretário-adjunto de Defesa dos EUA Francisco Mora explicou que sistemas russos antigos, como o S-300, poderiam representar desafios para caças F-18, se forem mantidos adequadamente. “Isso elevaria o nível de risco”, afirmou.
Entretanto, um eventual confronto terrestre, considerado improvável, exigiria armamentos que a Rússia atualmente não pode fornecer, já que suas defesas estão focadas em proteger instalações estratégicas no próprio território, especialmente depois de ataques ucranianos a refinarias. Putin priorizaria a infraestrutura energética russa, cuja proteção é vital para a economia do país.
Até o momento, a presença mais concreta da Rússia foi um avião cargueiro que pousou em Caracas no fim de outubro. Dias depois, o deputado russo Alexei Zhuravlev afirmou à imprensa que Moscou teria enviado sistemas de defesa Pantsir-S1 e Buk-M2E, mas a informação não pôde ser confirmada de forma independente.
Zhuravlev mencionou que não haveria restrições para entregar novos mísseis balísticos à Venezuela e que “os norte-americanos poderiam ter surpresas”, segundo suas palavras. No entanto, o uso limitado desses sistemas na Ucrânia sugere que o arsenal disponível é reduzido.
Putin enfrenta dilemas semelhantes aos dos países que apoiaram a Ucrânia em 2022 e hesitaram em fornecer armas pesadas por temer que fossem capturadas pelo inimigo. Caso o líder russo avalie que Maduro não resistirá à pressão dos EUA, pode evitar enviar armamentos sofisticados para não arriscar que caiam em mãos adversárias em Caracas.
Diante desse contexto, Maduro pode se ver isolado, apesar das demonstrações públicas de proximidade com Putin, diz o The Atlantic. O caso da Síria serve de exemplo: depois de anos a sustentar o regime de Bashar al-Assad, a Rússia ofereceu apenas uma evacuação quando militantes marcharam sobre Damasco, o que levou Assad ao exílio em Moscou.









































Texto muito bom. Parabéns, Isabela Jordão.