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Veja como o Brasil se tornou fábrica de espiões da Rússia

Agentes russos usaram identidades falsas brasileiras para atuar globalmente; autoridades federais agem para seu desmantelamento

Espião da Rússia que morou no Brasil
Sergei Vladimirovich Cherkasov se apresentava como Victor Muller Ferreira. Homem morou no Rio por cinco anos | Foto: Reprodução

O Brasil tornou-se peça central em estratégias de espionagem internacional, pois, segundo publicação do jornal norte-americano The New York Times, serve de base para agentes da Rússia que buscavam construir identidades falsas e iniciar operações no exterior.

Integrantes de inteligência de elite russos, conhecidos como “ilegais”, apagaram seus rastros originais e assumiram novas vidas no país sul-americano. Eles abriram empresas e estabeleceram relações sociais sob documentos brasileiros autênticos.

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Diversas operações secretas tinham como objetivo principal formar cidadãos brasileiros convincentes, aptos a viajar para Estados Unidos, Europa ou Oriente Médio. Nessas localidades, realizariam missões para o Kremlin.

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Entre os casos destacados pelo jornal, está o de Artem Shmyrev. Sob o nome de Gerhard Daniel Campos Wittich, ele viveu seis anos no Rio de Janeiro, onde cuidou de uma empresa de impressão 3D e manteve uma rotina que enganava até pessoas próximas.

Em 2023, Oeste repercutiu uma reportagem do jornal Wall Street Journal que mostrou que o Brasil temia se tornar um paraíso de espiões russos.

Autoridades brasileiras e cooperação internacional

Agentes da Polícia Federal (PF) | Foto: Arquivo/Agência Brasil

Enquanto a Rússia expandia sua rede, agentes federais brasileiros intensificaram esforços para identificar e desmantelar o esquema. Nos últimos três anos, a Polícia Federal detectou pelo menos nove agentes russos com documentos nacionais, dos quais seis permanecem sem identificação pública. A investigação envolveu cooperação com serviços de inteligência de países como Estados Unidos, Israel e Holanda.

Essa mobilização ganhou força depois de denúncias como a da CIA, que alertou sobre Sergey Cherkasov, russo com passaporte brasileiro, barrado na Holanda ao tentar estagiar no Tribunal Penal Internacional. Com documentos autênticos em nome de Victor Muller Ferreira, Cherkasov foi monitorado em São Paulo e acabou preso por uso de identidade fraudulenta.

As investigações revelaram que esses espiões criavam identidades brasileiras baseadas em registros de pessoas que nunca existiram, para obtenção de documentos como títulos de eleitor e passaportes. O caso de Cherkasov mostrou que sua certidão de nascimento, supostamente emitida no Rio de Janeiro em 1989, era de uma pessoa fictícia, levando os investigadores a buscarem outros “fantasmas” no sistema.

Leia mais: “O álbum de fotos da hipocrisia”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 269 da Revista Oeste

Com a digitalização de registros, criar perfis falsos tornou-se mais difícil, mas o Brasil ainda oferecia facilidades pela flexibilidade documental, especialmente para nascidos em áreas rurais. A partir desses registros, os espiões conseguiam construir históricos consistentes e circular livremente por vários países, aproveitando o valor diplomático do passaporte brasileiro mundo afora.

O cotidiano dos espiões da Rússia no Brasil

Entre os espiões, Shmyrev se destacou pela habilidade em manter o disfarce. Administrava a 3D Rio, empresa reconhecida por clientes como a TV Globo e setores das Forças Armadas. Falava português com sotaque austríaco e demonstrava comportamento reservado, além de cuidados extremos com privacidade digital e aversão a registros fotográficos.

Mensagens interceptadas pelo The Times mostraram o desgaste emocional de Shmyrev com a vida sob disfarce. “Nenhuma conquista real no trabalho”, escreveu, em 2021. “Já faz 2 anos que não estou onde preciso estar.” Sua mulher, também agente russa, respondeu: “Se queria vida familiar normal, fez escolha errada”.

O cenário mudou radicalmente depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. Agências de todo o mundo intensificaram ações para conter operações do Kremlin, resultando em prisões e fugas de diversos infiltrados. Shmyrev deixou o Brasil pouco antes de ser identificado, alegando viagem à Malásia e não retornando, apesar de manter passagens e pertences no país.

Leia também: “Como o Brasil seria — tão melhor — sem a volta de Lula”, artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 269 da Revista Oeste

Outros agentes, como o casal Manuel Francisco Steinbruck Pereira e Adriana Carolina Costa Silva Pereira, também fugiram, desaparecendo em Portugal. Investigações apontaram ainda para negócios de fachada, como o de Aleksandr Utekhin, que se apresentava como o joalheiro Eric Lopes, mas cuja presença era rara e sem indícios de atividade comercial real.

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